Home OpiniãoDeterminantes Psicossociais e Comportamentais do Uso Excessivo de Smartphones na Adolescência: Uma Análise Populacional

Determinantes Psicossociais e Comportamentais do Uso Excessivo de Smartphones na Adolescência: Uma Análise Populacional

by Redação CPAH

A adolescência constitui uma fase do desenvolvimento caracterizada por intensas transformações biológicas, psíquicas e sociais, na qual comportamentos de saúde e padrões de estilo de vida são consolidados. Na contemporaneidade, o uso de dispositivos móveis incorporou-se de maneira profunda ao cotidiano dos jovens, desempenhando funções de comunicação, aprendizagem e entretenimento. Contudo, a exposição diária prolongada — operacionalmente definida no âmbito epidemiológico por um tempo médio diário igual ou superior a 300 minutos (5 horas) — tem despontado como uma preocupação de saúde pública, visto que este limiar temporal se associa à sobreposição de atividades essenciais, como o sono e a prática de atividade física, bem como ao agravamento de indicadores de bem-estar psicológico.

Sob a perspectiva dos determinantes sociodemográficos e do desenvolvimento, o engajamento digital de alta duração varia de forma expressiva segundo o sexo, o ano escolar e o nível socioeconômico percebido. Adolescentes do sexo feminino apresentam uma razão de chances ajustada (adjusted odds ratio — aOR) de 1,44 (IC 95%: 1,39–1,50) para o uso excessivo em comparação ao sexo masculino, padrão reportado por dinâmicas de socialização digital voltadas à manutenção de conexões interpessoais e busca de validação social. Observa-se, progressivamente, uma elevação do risco com o avanço das séries escolares, atingindo aOR de 2,00 (IC 95%: 1,88–2,13) no 11º ano (referência: 7º ano), reflexo da expansão da autonomia, redução da supervisão parental e maior complexidade das redes de pares. Adicionalmente, constata-se um gradiente socioeconômico acentuado: indivíduos que percebem sua condição socioeconômica como baixa possuem chances substancialmente superiores de uso excessivo (aOR = 2,91; IC 95%: 2,52–3,36) em relação àqueles de nível alto, o que aponta para a influência de disparidades estruturais, acesso limitado a opções de lazer estruturadas e variações no suporte familiar.

No domínio da saúde mental e dos comportamentos de saúde, o uso prolongado de smartphones correlaciona-se com estados de vulnerabilidade emocional e manifestações somáticas. O estresse diário percebido (aOR = 0,95 para cada unidade na escala, na qual pontuações menores indicam maior estresse), a gravidade dos sintomas ansiosos mensurados pelo GAD-7 (aOR = 1,01 por ponto incremental) e a presença de ideação suicida nos 12 meses anteriores (aOR = 1,20; IC 95%: 1,13–1,27) demonstram associação independente com a alta exposição às telas. Essas relações sugerem que a tecnologia pode atuar como uma estratégia de regulação emocional desadaptativa ou distração frente a estados afetivos negativos. Concomitantemente, a percepção de recuperação insuficiente do sono associa-se positivamente ao tempo excessivo de tela (aOR = 1,04; IC 95%: 1,02–1,06), evidenciando a perturbação da higiene do sono pelo engajamento noturno. Por fim, a associação entre a frequência de atividade física vigorosa e o uso elevado do dispositivo (aOR = 1,02 por dia adicional) e suas nuances não lineares sugerem um agrupamento comportamental complexo, no qual jovens fisicamente ativos também utilizam o smartphone intensamente para coordenação social e expressão de identidade.

Em suma, o tempo elevado de tela na adolescência reflete a intersecção entre vulnerabilidades emocionais, processos de desenvolvimento e determinantes sociais da saúde. A compreensão abrangente desses fatores indica a necessidade de abordagens preventivas contextualmente sensíveis, focadas na promoção da regulação emocional, na higiene do sono e no suporte socioeducativo, em detrimento do enquadramento do uso de tecnologia isoladamente como um comportamento patológico.

Referência (ABNT):

KANG, So Ra. Psychosocial and Behavioral Factors Associated with Excessive Smartphone Use Among Korean Adolescents: A National Cross-Sectional Study. Children, v. 13, n. 4, art. 472, p. 1-13, 28 mar. 2026. DOI: 10.3390/children13040472.

related posts

Leave a Comment

dois × quatro =

Translate »