Home ColunaNeurociênciasQuando uma inteligência artificial desaparece, algumas pessoas vivem uma espécie de luto, revela estudo

Quando uma inteligência artificial desaparece, algumas pessoas vivem uma espécie de luto, revela estudo

Os investigadores analisaram 3.668 conteúdos públicos do Reddit e do YouTube, publicados durante agosto de 2025, período marcado pela retirada temporária do GPT-4o, pela introdução do GPT-5 e pelo posterior regresso do modelo anterior após as reclamações dos utilizadores.

by Redação CPAH
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Investigação analisou mais de 3.600 conteúdos publicados nas redes sociais e identificou sentimentos de perda, tristeza e apego emocional após a substituição do ChatGPT-4o pelo GPT-5. O fenómeno recebeu o nome de luto tecnológico.

É possível sentir saudades de uma inteligência artificial? A pergunta pode parecer estranha, mas a resposta começa a ganhar sustentação científica. Um estudo publicado em abril de 2026 na revista Academia Mental Health and Well-Being identificou reações emocionais semelhantes às de uma perda afetiva entre pessoas que utilizavam o ChatGPT e que, subitamente, deixaram de ter acesso à versão com a qual estavam habituadas a conversar.

A investigação, intitulada Technological mourning after AI updates: mental health and well-being in the GPT-4o/GPT-5 transition, foi conduzida por *Véronique Donard, investigadora do Laboratório de Ciberpsicologia da Universidade Católica de Pernambuco, e *José Carlos Ribeiro, investigador da Universidade Federal da Bahia, ambas instituições brasileiras.

Os investigadores analisaram 3.668 conteúdos públicos do Reddit e do YouTube, publicados durante agosto de 2025, período marcado pela retirada temporária do GPT-4o, pela introdução do GPT-5 e pelo posterior regresso do modelo anterior após as reclamações dos utilizadores.

O que encontraram vai além da insatisfação habitual com uma atualização tecnológica.

Quando o programa deixa de ser apenas uma ferramenta

Para determinadas pessoas, o ChatGPT-4o não era simplesmente um sistema utilizado para escrever textos, pesquisar informações ou resolver problemas. Tornara-se uma presença habitual, associada a conversas pessoais, momentos de vulnerabilidade emocional e atividades do quotidiano.

Quando a versão foi substituída, alguns utilizadores descreveram a experiência como a perda de um amigo, de um companheiro ou de alguém que parecia compreender os seus sentimentos.

Entre os 1.307 conteúdos selecionados para análise qualitativa detalhada, 425 apresentavam manifestações de apego relacional e antropomorfização, fenómeno que ocorre quando características humanas são atribuídas a entidades não humanas.

Outros 263 conteúdos expressavam deceção e comparações negativas entre os modelos, enquanto 110 apresentavam manifestações de nostalgia, perda e luto.

A investigação também identificou 47 conteúdos associados a ansiedade, confusão e medo.

Os números não representam a prevalência destes sentimentos entre todos os utilizadores de inteligência artificial, mas mostram que determinadas interações digitais podem adquirir um significado emocional que ultrapassa a sua função tecnológica.

O cérebro pode criar vínculos com uma máquina?

A explicação está relacionada com a maneira como os seres humanos interpretam as interações sociais.

O cérebro não avalia uma experiência exclusivamente pela natureza biológica do interlocutor. A previsibilidade das respostas, a continuidade das conversas, a linguagem utilizada e a perceção de atenção podem contribuir para que uma interação digital adquira significado afetivo.

Uma inteligência artificial conversacional consegue reproduzir diversos elementos da comunicação humana, incluindo respostas contextualizadas, expressões de compreensão e adaptação ao estilo de comunicação de cada pessoa.

Isto não significa que a máquina tenha consciência, sentimentos ou capacidade de estabelecer reciprocidade emocional comparável à humana. Significa que o utilizador pode interpretar determinadas características da interação como sinais de proximidade.

Com a repetição, essas experiências podem integrar hábitos emocionais e cognitivos.

A investigação recorre às teorias da cognição distribuída, da cibernética de segunda ordem e da individuação para interpretar o fenómeno. A ideia central é que algumas pessoas passam a incorporar a inteligência artificial na organização dos seus pensamentos, nas decisões e até na regulação subjetiva das emoções.

Quando essa estrutura é alterada sem aviso, a mudança pode provocar uma sensação de descontinuidade.

O que é o luto tecnológico?

Os autores propõem o conceito de luto tecnológico para descrever a resposta psicológica e afetiva à perda percebida de um parceiro digital durante uma transição tecnológica.

Não se trata necessariamente de luto clínico, nem de uma perturbação mental.

O conceito procura explicar por que razão a alteração de um programa pode desencadear emoções que tradicionalmente associamos à interrupção de relações interpessoais.

No caso estudado, diversos utilizadores consideravam o GPT-4o mais próximo, acolhedor e personalizado. O GPT-5, apesar dos avanços técnicos reconhecidos por parte da comunidade, foi descrito por alguns como mais frio, mecânico e distante.

A substituição não representou apenas uma mudança de desempenho. Para essas pessoas, alterou a forma como se relacionavam com o sistema.

É precisamente esta diferença que torna o fenómeno interessante: a perda sentida não depende da existência de uma relação humana verdadeira, mas do significado psicológico atribuído à experiência.

Nem todos sentiram a mesma coisa

A investigação também encontrou reações positivas.

Em 199 conteúdos, os utilizadores destacaram melhorias associadas ao GPT-5, especialmente nas capacidades de raciocínio, programação e execução de tarefas complexas.

Outros procuraram adaptar-se, modificando instruções, reorganizando métodos de trabalho ou procurando alternativas tecnológicas.

Houve ainda 66 conteúdos que expressavam alegria e alívio com o regresso do GPT-4o.

Esta diversidade mostra que a experiência depende da função atribuída à inteligência artificial. Para quem utiliza o sistema principalmente como instrumento de produtividade, uma atualização pode representar uma melhoria. Para quem desenvolveu uma relação emocional com o seu padrão de comunicação, a mesma atualização pode ser interpretada como uma perda.

A inteligência artificial está a mudar a forma como nos relacionamos?

O estudo levanta uma questão que ultrapassa a própria tecnologia: até que ponto as pessoas podem transferir necessidades emocionais para sistemas que simulam comportamentos sociais?

A possibilidade de conversar a qualquer momento, receber respostas imediatas e encontrar um interlocutor aparentemente disponível pode tornar estes sistemas particularmente significativos para indivíduos que procuram companhia, compreensão ou apoio na organização dos pensamentos.

O problema surge quando a estabilidade emocional passa a depender excessivamente de uma ferramenta cujo comportamento pode ser alterado por decisões técnicas e comerciais.

Os investigadores defendem que as empresas responsáveis por estas tecnologias devem considerar não apenas o desempenho dos modelos, mas também a continuidade das experiências dos utilizadores, a transparência das atualizações e os possíveis efeitos psicológicos das mudanças.

Existe, contudo, uma limitação: a investigação analisou manifestações espontâneas nas redes sociais, sem avaliações clínicas individuais. Os resultados permitem identificar padrões de discurso e sofrimento relatado, mas não demonstram que a atualização tenha causado perturbações psiquiátricas.

A conclusão é que uma inteligência artificial não precisa de sentir emoções para despertar emoções em quem a utiliza.

A máquina pode ser substituída em segundos. A ligação psicológica construída ao longo de meses pode não desaparecer à mesma velocidade.


Referência científica

Donard, V., & Ribeiro, J. C. (2026). Technological mourning after AI updates: mental health and well-being in the GPT-4o/GPT-5 transition. Academia Mental Health and Well-Being, 3.

Publicado em 30 de abril de 2026.

DOI: https://doi.org/10.20935/MHealthWellB8256

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