Home ColunaNeurociênciasSer bom de matemática não basta: estudo revela que inteligência emocional e social também influenciam o desempenho escolar

Ser bom de matemática não basta: estudo revela que inteligência emocional e social também influenciam o desempenho escolar

Pesquisa com 169 estudantes do ensino médio mostra que o QI elevado não garante boas notas e que habilidades emocionais e sociais têm papel relevante no rendimento académico

by Redação CPAH

Um estudante com alto QI pode tirar notas mediocres. Outro, com menor potencial intelectual medido em testes padronizados, pode superar as expectativas. A explicação para esse paradoxo está no centro de um estudo publicado pela pesquisadora Lada Kaliská, da República Eslovaca, que analisou três tipos de inteligência, a geral, a emocional e a social, e a relação de cada uma delas com o desempenho escolar de 169 estudantes do ensino médio.

O que os números mostram

A pesquisa usou três instrumentos validados internacionalmente. O TIP, teste não verbal baseado no fator G de Spearman, mediu a inteligência geral. O TEIQue-AF avaliou a inteligência emocional em 15 dimensões agrupadas em quatro fatores: bem-estar, autocontrole, emocionalidade e sociabilidade. O TSIS mediu a inteligência social em três dimensões: processamento de informação social, habilidades sociais e consciência social. O desempenho escolar foi medido pelas notas em Matemática e Língua Eslovaca.

Os resultados foram claros em um ponto: a inteligência geral foi o único tipo com correlação moderada e estatisticamente significativa com as notas em Matemática, com índice de R igual a 0,39. Já as inteligências emocional e social apresentaram correlações fracas a nulas com o desempenho nas duas disciplinas, variando entre 0,01 e 0,30.

No entanto, os dados revelaram algo que vai além dessa correlação direta. Estudantes com maior competência relacional, melhor percepção emocional, consciência social mais desenvolvida e habilidades sociais mais aguçadas tendiam a obter resultados escolares ligeiramente melhores, especialmente em Matemática. A diferença não estava no QI, mas na capacidade de funcionar bem dentro do ambiente social da sala de aula.

O que a escola ainda não mede

A pesquisadora aponta uma contradição estrutural no sistema de ensino. A escola avalia quase exclusivamente o desempenho cognitivo, expresso em notas, mas o processo de aprendizagem acontece em grupo, mediado por relações, emoções, tensões e dinâmicas interpessoais. Um estudante com alto potencial intelectual pode ser prejudicado pela incapacidade de gerenciar ansiedade, nervosismo em provas ou dificuldade de pedir ajuda. Outro, com menor potencial cognitivo mas maior inteligência emocional, pode compensar com melhor gestão do estresse, suporte social mais amplo e atitude mais positiva diante das exigências escolares.

O psicólogo Daniel Goleman, citado no estudo, defende que a inteligência emocional pode ser mais determinante para o sucesso pessoal e profissional do que o QI. K. V. Petrides, um dos principais nomes na área, vai além e afirma que a inteligência emocional funciona como mediadora do desempenho escolar, especialmente entre estudantes com menor potencial cognitivo.

O que o estudo recomenda

A conclusão da pesquisa aponta para uma necessidade concreta: a escola precisa criar espaço para o desenvolvimento das componentes cristalizadas da inteligência emocional e social, que são adquiridas por experiência, educação e convívio. Gerir emoções negativas, lidar com tensão em situações de avaliação, desenvolver atitude positiva diante do aprendizado e cultivar relações saudáveis com colegas e professores são habilidades que aumentam a atenção em sala de aula e, consequentemente, o desempenho.

Medir apenas o QI para prever o sucesso escolar é, segundo os dados, insuficiente. O estudante que sabe se relacionar, pedir ajuda, trabalhar em grupo, controlar impulsos e manter uma perspectiva positiva diante das dificuldades tem vantagens reais que nenhum teste de inteligência geral consegue capturar.

O estudo foi publicado com o título “Three Types of Intelligences and their Relationship to Students’ School Performance” e integra o projeto de pesquisa VEGA 1/0945/13.

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