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QI É UNIVERSAL? NORMAS POPULACIONAIS, NEUROCIÊNCIA DA INTELIGÊNCIA E TRANSFERIBILIDADE GENÔMICA ENTRE BRASIL E EUROPA

by Redação CPAH
QI é universal? Normas populacionais, neurociência da inteligência e transferibilidade genômica entre Brasil e Europa

Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues¹

Hitty-ko Kamimura²

Adriel Pereira da Silva³

Júlia Lima do Espírito Santo*

¹ Neurocientista, licenciado em Biologia. Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH), Departamento de Neurociências e Genômica, Brasil e Portugal. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5487-5852. E-mail: contato@cpah.com.br

² Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH), Departamento de TI, Brasil e Portugal. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-4738-9655.

³ Graduado em Física. Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH), Departamento de Física, Brasil e Portugal. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-1157-8318.

Psicóloga. Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH), Departamento de Psicologia, Brasil e Portugal. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-4550-9829.

* Autora correspondente: Júlia Lima do Espírito Santo. E-mail: julialsp@yahoo.com.br

RESUMO

O escore de QI ganha significado a partir da norma que o produz. Valores numericamente iguais, obtidos em países diferentes, não demonstram sozinhos equivalência de desempenho. Esta revisão crítica examina esse problema pela psicometria, pela neurociência e pela genômica. Foram reunidos trabalhos sobre escalas Wechsler, adaptação transcultural, invariância de medida, bases neurais da inteligência, estudos de associação genômica ampla e transferibilidade de escores poligênicos. Na escala convencional de QI, centrada em 100 e com desvio padrão de 15 pontos, o valor 130 representa uma posição próxima de dois desvios padrão acima da amostra normativa. A comparação internacional, contudo, depende da equivalência entre instrumentos e referências populacionais. Na genômica, a dificuldade reaparece por outra via: pesos obtidos em GWAS e percentis derivados de PGS podem mudar de desempenho quando transportados entre ancestralidades. A heterogeneidade ancestral brasileira torna a calibração especialmente necessária. Conclui-se que QI e percentis genômicos precisam ser interpretados junto da população que lhes serve de referência. Não há fundamento para uma conversão fixa Brasil-Europa sem dados diretos de equacionamento, invariância e validação.

Palavras-chave: inteligência; quociente de inteligência; invariância de medida; neurociência; genômica; escore poligênico.

ABSTRACT

An IQ score derives its meaning from the norm used to interpret it. Numerically identical scores obtained in different countries do not, by themselves, establish equivalent performance. This critical narrative review examines the issue through psychometrics, neuroscience, and genomics. The literature considered Wechsler scales, cross-cultural adaptation, measurement invariance, neural correlates of intelligence, genome-wide association studies, and the transferability of polygenic scores. On the conventional IQ scale, centered at 100 with a standard deviation of 15 points, a score of 130 lies close to two standard deviations above the normative mean. Cross-national interpretation still depends on the equivalence of instruments and reference populations. Genomics presents a related but distinct problem: GWAS-derived weights and PGS percentiles may behave differently when transferred across ancestries. Brazil’s extensive genomic admixture increases the need for population-aware calibration. IQ scores and genomic percentiles should therefore be read together with the reference population that generated their interpretation. A fixed Brazil-Europe conversion is not scientifically justified without direct equating, invariance testing, and validation.

Keywords: intelligence; intelligence quotient; measurement invariance; neuroscience; genomics; polygenic score.

1 INTRODUÇÃO

O número 130 não muda de aparência quando atravessa uma fronteira; a referência estatística pode mudar. Em um teste normativo, o resultado situa o indivíduo dentro da distribuição usada para transformar o desempenho em escore. Assim, converter diretamente um QI brasileiro em um valor europeu exige mais do que comparar números. É preciso verificar se os instrumentos medem o mesmo construto com unidade comparável e, quando a intenção é comparar médias, se a origem das escalas pode ser tratada como equivalente. Sem esse exame, a igualdade numérica informa posição relativa nas respectivas normas, não identidade necessária de desempenho numa métrica comum.

A consequência aparece de forma imediata quando um ponto de corte participa da identificação de altas habilidades. Se um sistema adota QI 130 como um dos critérios, a posição do avaliado depende da norma utilizada. Ao trocar a referência, o indivíduo pode permanecer acima desse limite ou ficar abaixo dele. A pontuação inicial, isoladamente, não permite antecipar o resultado. A resposta depende da relação empírica entre as duas escalas e das regras usadas na identificação.

A neurociência acrescenta uma razão para evitar interpretações rígidas. Inteligência é um fenótipo cognitivo complexo, produzido pela atividade coordenada de redes cerebrais e modulado ao longo do desenvolvimento por educação, saúde, ambiente e variação genética. Conhecer os correlatos neurais desse fenótipo não resolve, por si, o problema da medida. A comparação continua dependente de instrumentos psicometricamente válidos (Jung; Haier, 2007; Deary; Penke; Johnson, 2010).

Na genômica, o problema surge quando estimativas obtidas em uma população de descoberta são transportadas para outra. Savage et al. (2018) reuniram 269.867 participantes pertencentes a 14 coortes de ancestralidade europeia. Um PGS construído a partir de resultados dessa natureza pode continuar informativo em outros grupos, porém sua distribuição, calibração e poder preditivo não precisam permanecer iguais. Frequências alélicas, desequilíbrio de ligação, estrutura populacional e fatores contextuais interferem nessa transferência (Martin et al., 2019; Kachuri et al., 2024).

Este artigo aproxima três níveis que costumam ser discutidos separadamente. A psicometria mostra de onde vem o significado do escore. A neurociência delimita a inteligência como fenômeno cerebral distribuído. A genômica evidencia que estimativas estatísticas também carregam dependência populacional. A proposição central é simples: nenhum valor comparativo deve ser separado da população, do instrumento e do modelo que o originaram.

2 MÉTODO

Optou-se por uma revisão narrativa crítica porque a questão exige integrar literatura de campos com métodos distintos. A busca foi atualizada até 12 de setembro de 2026 e contemplou PubMed, SciELO, Nature Portfolio e documentos técnicos da International Test Commission. A seleção privilegiou estudos primários de grande amostra, revisões metodológicas, trabalhos sobre adaptação de testes e referências centrais em inteligência, invariância de medida e escores poligênicos.

Foram combinados termos relativos a escalas Wechsler, inteligência, adaptação transcultural, equivalência psicométrica, invariância de medida, neurociência da inteligência, GWAS, PGS, transferibilidade entre ancestralidades e ancestralidade genômica brasileira. O desenho não teve finalidade metanalítica nem procurou estimar uma diferença média de QI entre países. Por essa razão, não se atribui neste artigo um número fixo à distância Brasil-Europa e não se propõe conversão sem equacionamento direto.

A síntese rejeitou inferências que tomassem nacionalidade como bloco biológico homogêneo. Também não foram aceitas explicações genéticas para diferenças de desempenho quando ambiente, escolaridade, nível socioeconômico ou estrutura populacional não estavam adequadamente considerados.

3 INTELIGÊNCIA COMO FENÓTIPO NEUROCOGNITIVO

O fator g descreve a tendência de diferentes tarefas cognitivas apresentarem desempenho correlacionado. Essa regularidade oferece utilidade psicométrica e preditiva, mas não corresponde a uma estrutura cerebral única ou a uma substância isolável. O desempenho intelectual depende da coordenação de processos como memória de trabalho, raciocínio, velocidade de processamento, controle executivo e integração de informação.

A teoria de integração parieto-frontal propõe que diferenças de inteligência envolvem uma rede que inclui regiões frontais e parietais, com participação de áreas temporais e occipitais e de feixes de substância branca que permitem comunicação eficiente entre regiões. A formulação não implica que exista um centro cerebral da inteligência. Ela descreve uma arquitetura distribuída na qual eficiência de rede e integração funcional contribuem para o desempenho (Jung; Haier, 2007).

Deary, Penke e Johnson (2010) sintetizaram evidências de genética quantitativa e neuroimagem mostrando que diferenças individuais em inteligência se relacionam a propriedades estruturais e funcionais do cérebro, ao mesmo tempo em que são influenciadas por múltiplos fatores ambientais. Educação, por exemplo, apresenta efeito causal mensurável sobre desempenho em testes de inteligência em diferentes desenhos quase-experimentais, o que torna inadequado interpretar diferenças populacionais como expressão direta de diferenças genéticas (Ritchie; Tucker-Drob, 2018).

Também existe variação histórica das pontuações. A metanálise do efeito Flynn conduzida por Pietschnig e Voracek (2015), com quase quatro milhões de participantes de 31 países, mostrou ganhos seculares que variam por domínio cognitivo e período. Esse fenômeno reforça um princípio básico: normas envelhecem, populações mudam e o significado de um escore padronizado depende da amostra de referência e da época de normatização.

4 O QI É UMA MEDIDA PADRONIZADA EM RELAÇÃO A UMA REFERÊNCIA

Na convenção psicométrica mais usada, a escala é centrada em 100 e cada desvio padrão corresponde a 15 pontos. Se X representa o desempenho na métrica subjacente, μref representa a média da referência e σref sua dispersão, a transformação pode ser escrita de forma simplificada como:

QI = 100 + 15 × [(X − μref) / σref]

Nessa transformação, 130 equivale a um escore Z de 2. O detalhe decisivo está nos parâmetros de referência: μref e σref pertencem à população normativa escolhida. Se Brasil e Alemanha adotam normas independentes, 130 localiza cada pessoa aproximadamente na mesma distância padronizada de sua própria média. Isso não prova que o desempenho subjacente X seja igual nos dois casos.

As versões brasileiras do WISC-III e do WAIS-III mostram por que adaptação não se resume à tradução. Nascimento e Figueiredo (2002) documentaram mudanças no conteúdo e na sequência dos itens, nos limites de tempo, nas regras para iniciar ou interromper subtestes e na organização das faixas etárias usadas na normatização. As diretrizes da International Test Commission (2017) seguem a mesma lógica: equivalência precisa ser demonstrada, e correspondência linguística sozinha não basta.

Van de Vijver e Tanzer (2004) distinguem equivalência estrutural, equivalência de unidade de medida e equivalência de escala completa. Para comparar ordenação ou relações internas, níveis mais baixos de equivalência podem ser suficientes. Para comparar médias como se a escala tivesse a mesma origem, a exigência é maior. Esse detalhe é central para o debate sobre QI entre países.

Wicherts (2016) mostrou que invariância de medida é uma questão concreta em baterias neurocognitivas. Em mais de metade de uma dúzia de estudos revistos, a invariância não foi sustentada integralmente entre grupos definidos por etnia, sexo, escolaridade, coorte ou idade. Isso não significa que os testes sejam inúteis. Significa que a validade de uma comparação depende de demonstrar que os itens e fatores funcionam de maneira suficientemente equivalente nos grupos comparados.

Influências educacionais também podem alterar o desempenho. Shuttleworth-Edwards et al. (2004) observaram efeitos importantes de nível e qualidade de educação sobre desempenho no WAIS-III, destacando o risco de atribuir diferenças a etnia quando variáveis educacionais não são adequadamente consideradas.

5 QI 130, SUPERDOTAÇÃO E COMPARAÇÃO ENTRE BRASIL E EUROPA

Um indivíduo classificado como superdotado no Brasil pode não ultrapassar o mesmo ponto de corte sob outra norma. Essa é uma possibilidade psicométrica, não uma regra sobre brasileiros ou europeus. O corte depende da distribuição de referência. Se a nova escala reposicionar o indivíduo, uma classificação baseada estritamente naquele limiar também pode mudar. A capacidade da pessoa não se altera por causa da fronteira; altera-se o sistema usado para situá-la.

A Psicologia acrescenta outro nível a essa possibilidade. A identificação de superdotação não segue um protocolo internacional único. Kuznetsova et al. (2024), em revisão sistemática de 104 estudos conduzidos em mais de 25 países, reunindo 77.705 crianças e adolescentes, encontraram variação nos instrumentos e nos critérios empregados e observaram uma tendência de adoção de medidas culturalmente mais adequadas. Assim, uma mudança de classificação entre contextos pode decorrer da norma, do teste, do ponto de corte ou do próprio procedimento de identificação. O perfil cognitivo do indivíduo pode permanecer estável enquanto a decisão classificatória muda. Essa formulação descreve uma possibilidade metodológica e deve ser verificada caso a caso, não inferida automaticamente a partir da nacionalidade.

Uma equivalência Brasil-Alemanha exigiria dados produzidos para essa finalidade. O procedimento deveria empregar instrumentos comparáveis, amostras equivalentes e análise de invariância, além de investigar funcionamento diferencial dos itens e realizar equacionamento em uma métrica comum. Idade, escolaridade, qualidade da educação, idioma, contexto socioeconômico, familiaridade com testes e coorte também precisariam entrar no modelo. Somente então seria possível estimar eventual deslocamento entre as escalas.

A aritmética permite ilustrar o problema sem transformar ilustração em dado. Suponha duas populações avaliadas pela mesma métrica, com desvios padrão equivalentes, mas com médias separadas por dez unidades. Uma pessoa situada dois desvios padrão acima de cada média ocuparia posições relativas semelhantes, embora apresentasse valores diferentes na escala comum. Daí não se segue que 130 no Brasil seja 120 na Europa. Os dez pontos, neste exemplo, servem apenas para mostrar o mecanismo estatístico; não constituem estimativa empírica.

Duas conclusões devem ser evitadas. A primeira transforma escores iguais, oriundos de normas independentes, em equivalência absoluta automática. A segunda inventa uma distância fixa entre países sem estudo direto. A interpretação defensável depende de medir a relação entre as escalas.

6 GENÔMICA DA INTELIGÊNCIA E DEPENDÊNCIA DA POPULAÇÃO DE DESCOBERTA

A variação associada à inteligência distribui-se por um grande número de variantes, cada uma com efeito pequeno. Essa arquitetura poligênica afasta explicações centradas em um único gene ou em poucos loci de grande efeito. GWAS de larga escala identificam sinais espalhados pelo genoma, e a síntese de Plomin e von Stumm (2018) descreve como a genética comportamental passou a incorporar modelos capazes de agregar essas pequenas contribuições.

No estudo de Savage et al. (2018), a metanálise reuniu 269.867 indivíduos de 14 coortes de ancestralidade europeia. Os autores identificaram 205 loci associados e mapearam 1.016 genes por diferentes estratégias. Houve enriquecimento de sinais em genes expressos no cérebro e em processos ligados ao desenvolvimento do sistema nervoso e à organização sináptica. O resultado cria uma ponte entre genômica e neurobiologia, mas não transforma associação poligênica em destino individual.

Um escore poligênico pode ser representado, de forma simplificada, como a soma dos genótipos de um indivíduo ponderados pelos efeitos estimados no GWAS de descoberta. O problema é que esses pesos foram aprendidos em uma determinada população. Quando a população-alvo se distancia geneticamente da população de descoberta, a acurácia pode cair e a distribuição do escore pode deslocar-se.

A perda de desempenho fora da população de descoberta já foi documentada. Martin et al. (2019) observaram queda importante na utilidade de escores poligênicos derivados majoritariamente de bases europeias quando aplicados a outras ancestralidades. Kachuri et al. (2024) descrevem as razões: diferenças nas frequências alélicas, no desequilíbrio de ligação, nos efeitos estimados, na estrutura populacional e na relação entre ancestralidade e fatores ambientais ou sociais.

Um percentil genômico também depende de referência, mas por mecanismos diferentes daqueles de um teste de QI. Na psicometria, a norma converte desempenho observado em posição relativa. No PGS, a população de descoberta influencia os pesos e a capacidade preditiva, enquanto outra população pode ser usada para transformar o escore final em percentil. Confundir essas etapas apaga duas fontes distintas de calibração.

7 A POPULAÇÃO BRASILEIRA COMO CASO DE ALTA MISCIGENAÇÃO

A população brasileira expõe esse problema com nitidez porque sua ancestralidade varia continuamente entre pessoas e regiões. No EPIGEN Brasil, Lima-Costa et al. (2015) analisaram 5.871 participantes de Pelotas, Bambuí e Salvador com centenas de milhares de SNPs. O componente europeu predominou em Pelotas e Bambuí, enquanto Salvador apresentou maior contribuição africana; a ancestralidade ameríndia também esteve presente. As categorias de autodeclaração mostraram ampla sobreposição com as proporções genômicas.

Por isso, categorias sociais não funcionam como substitutos exatos de ancestralidade genômica. Duas pessoas brasileiras com a mesma autodeclaração podem apresentar composições ancestrais diferentes. Em PGS derivados de GWAS europeus, essa heterogeneidade altera a proximidade genética em relação à população de descoberta e pode repercutir na precisão preditiva.

Corrigir esse problema não significa multiplicar cada peso do PGS pela porcentagem global de ancestralidade do indivíduo. Essa regra ignora desequilíbrio de ligação, variantes causais, ancestralidade local e propriedades do modelo. Estratégias mais justificáveis incluem componentes principais, avaliação de ancestralidade local quando aplicável, métodos transancestrais, combinação de GWAS de diferentes populações e calibração em amostra-alvo apropriada (Kachuri et al., 2024).

Quando o fenótipo é inteligência, a interpretação exige cautela adicional porque ambiente e educação participam do desempenho observado. Um PGS resume propensão estatística associada à variação cognitiva em determinado contexto populacional. Ele não é uma medição direta do QI, não substitui avaliação neuropsicológica e não autoriza previsão determinista da capacidade de um indivíduo.

8 CONVERGÊNCIA ENTRE PSICOMETRIA, NEUROCIÊNCIA E GENÔMICA

Psicometria, neurociência e genômica encontram-se no mesmo problema geral, embora operem em níveis diferentes. A neurociência investiga os sistemas que sustentam o fenótipo. A psicometria organiza o desempenho numa escala comparável. A genômica estima uma parcela da propensão estatística associada a esse fenótipo. Em cada etapa, a referência adotada delimita o que o resultado pode significar.

Tabela 1. Paralelo metodológico entre avaliação psicométrica e escore poligênico

Dimensão

Teste de QI

Escore poligênico

Entrada

Desempenho em tarefas cognitivas

Genótipos e pesos derivados de GWAS

Referência crítica

Amostra normativa e propriedades do instrumento

População de descoberta e população usada para calibração

Resultado

Escore padronizado e percentil

Escore contínuo, percentil ou risco relativo

Fonte de não equivalência

Itens, idioma, escolaridade, cultura, coorte, distribuição normativa

Frequência alélica, desequilíbrio de ligação, estrutura populacional, heterogeneidade de efeitos e ambiente

Condição para comparação

Invariância de medida, equacionamento e norma adequada

Validação externa, ajuste de ancestralidade e calibração na população-alvo

Erro conceitual comum

Tratar QI como unidade física universal

Tratar PGS como predisposição universal independente da ancestralidade

Fonte: elaboração dos autores com base na literatura revisada.

Percentis não existem sem distribuição de referência. Estar no percentil 98 significa ocupar determinada posição em relação a um grupo definido. Isso vale tanto para uma pontuação psicométrica transformada quanto para um escore genômico convertido em percentil. Uma comparação entre países ou ancestralidades só se sustenta quando a composição da referência e a validade do modelo na população-alvo são conhecidas.

Nenhuma dessas medidas esgota a inteligência. O teste de QI amostra desempenho em tarefas cognitivas selecionadas; o PGS agrega associações entre variantes comuns e um fenótipo construído estatisticamente. O cérebro é o nível biológico no qual predisposições e experiências se combinam ao longo do desenvolvimento. A ligação entre genoma, cérebro e comportamento é probabilística e não corresponde a uma equivalência direta entre números.

9 IMPLICAÇÕES PARA PESQUISA E AVALIAÇÃO

Uma comparação Brasil-Europa capaz de responder à pergunta central precisa começar antes do escore final. O desenho adequado usaria uma bateria comum, ou itens âncora, em amostras representativas por idade e escolaridade. Modelos multigrupo permitiriam testar invariância e localizar itens com funcionamento diferencial antes do equacionamento.

Com essas condições atendidas, os desempenhos poderiam ser colocados numa métrica comum sem recentrar automaticamente cada país em 100. Só nessa etapa seria legítimo estimar uma diferença média e perguntar a que valor, numa referência europeia específica, corresponderia determinado resultado brasileiro. Também não existe uma única norma europeia: Alemanha, Portugal, Reino Unido e outros países diferem em idioma, história educacional e amostras de padronização.

Para a genômica, a exigência correspondente é testar o PGS diretamente na população brasileira. Isso inclui acurácia incremental, calibração, comportamento do resíduo após ajuste por componentes principais e desempenho ao longo do contínuo de ancestralidade. Modelos transancestrais e referências mais adequadas devem ser preferidos quando os dados mostrarem vantagem. O percentil final precisa declarar de forma explícita qual população o originou.

Esse cuidado bloqueia dois atalhos. Um deles universaliza uma escala construída localmente. O outro transforma diferença populacional em explicação biológica automática. Antes de discutir capacidade, a análise precisa separar medida, referência, ambiente e ancestralidade.

10 LIMITAÇÕES

Este trabalho não estima a diferença média de desempenho cognitivo entre o Brasil e qualquer país europeu. Trata-se de uma revisão narrativa, não de uma metanálise. Entre as fontes centrais examinadas, não foi encontrado um estudo de equacionamento Brasil-Alemanha que permita converter, com base empírica direta, escores nacionais de QI.

A comparação entre psicometria e genômica é conceitual, não uma identidade matemática. No teste cognitivo, a norma participa da interpretação do desempenho observado. No PGS, ancestralidade e estrutura populacional podem afetar a estimação dos pesos, a transferência do modelo e sua calibração na amostra-alvo.

Ancestralidade genética, nacionalidade, categorias raciais socialmente construídas e cultura descrevem dimensões diferentes. Pessoas da mesma nacionalidade podem apresentar grande variação genética e ambiental. No Brasil, essa distinção é indispensável para impedir inferências que os dados não autorizam.

11 CONCLUSÃO

Dois escores nacionais iguais não asseguram, por si, desempenho idêntico numa escala comum. Um QI 130 ocupa aproximadamente a posição correspondente a dois desvios padrão acima da média da norma que o gerou. Quando países constroem normas separadas, o número conserva significado relativo dentro de cada referência; a equivalência internacional precisa ser demonstrada empiricamente.

Daí decorre a possibilidade central deste artigo: uma pessoa acima de um ponto de corte numa norma brasileira pode não ocupar a mesma posição depois de avaliada sob outra referência. Não se pode, porém, transformar essa possibilidade em uma fórmula como 130 no Brasil igual a 120 na Alemanha. Se houver deslocamento sistemático, ele precisa ser medido por equacionamento e invariância, não presumido pela nacionalidade.

A genômica chega à mesma exigência por outra rota. Resultados de GWAS de inteligência baseados em ancestralidade europeia, como Savage et al. (2018), informam arquitetura poligênica e mecanismos biologicamente plausíveis, mas seus efeitos e percentis não devem ser transferidos sem validação para uma população miscigenada. A variação contínua de ancestralidade no Brasil torna esse controle parte do método, e não um detalhe posterior.

A conclusão converge num princípio: um número não carrega sozinho todo o significado da inteligência. Para interpretá-lo cientificamente, é preciso saber o que foi medido, como a medida foi construída, contra qual população foi comparada e até onde os resultados podem ser generalizados.

DECLARAÇÕES

Natureza do estudo: revisão narrativa crítica baseada em literatura publicada. Não houve recrutamento, intervenção nem utilização de dados individuais de participantes.

Assistência por inteligência artificial: o ChatGPT, da OpenAI, modelo GPT-5.6 Sol, foi utilizado como recurso editorial para organização, revisão linguística, padronização formal e verificação de consistência. A seleção das evidências, a interpretação científica e as decisões metodológicas permaneceram sob responsabilidade dos autores. A ferramenta não integra a autoria. Os autores respondem pela exatidão, originalidade, integridade e adequação das citações, em consonância com as recomendações do ICMJE e do COPE.

Conflito de interesses: Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues exerce a direção científica do Centro de Pesquisa e Análises Heráclito (CPAH), instituição que oferece análises genômicas que incluem escores poligênicos, assunto discutido neste manuscrito. Hitty-ko Kamimura, Adriel Pereira da Silva e Júlia Lima do Espírito Santo mantêm vínculo com a mesma instituição. Não houve remuneração específica destinada à elaboração deste artigo.

Financiamento: Os autores declaram que este estudo não recebeu financiamento específico.

Contribuição dos autores (CRediT): Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues: Conceituação, Metodologia, Investigação, Redação (rascunho original), Redação (revisão e edição), Supervisão. Hitty-ko Kamimura: Investigação, Validação, Redação (revisão e edição). Adriel Pereira da Silva: Investigação, Validação, Redação (revisão e edição). Júlia Lima do Espírito Santo: Conceituação, Investigação, Validação, Redação (revisão e edição). A versão submetida foi lida e aprovada por todos os autores.

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