A transição nutricional em países de baixa e média renda tem impulsionado mudanças substanciais nos padrões alimentares de adolescentes, caracterizadas pelo declínio do consumo de dietas tradicionais e pela crescente adesão a alimentos ultraprocessados e de preparo rápido (fast food), tipicamente ricos em gorduras saturadas, açúcares refinados e sódio, e deficientes em micronutrientes essenciais. Um estudo transversal institucional realizado por Ibrahim et al. (2025) investigou a prevalência e os fatores determinantes do consumo de fast food em uma amostra representativa de 413 estudantes do ensino secundário (com idades entre 14 e 19 anos) na cidade de Jigjiga, localizada na Região Somali da Etiópia Oriental. Os resultados apontaram uma prevalência global de consumo de fast food de 49,2% (IC 95%: 44,2–54,1), definida pela ingestão de um ou mais itens em três ou mais dias da semana anterior.
A análise estatística multivariada revelou que variáveis demográficas, socioeconômicas e do ambiente doméstico exercem papel determinante sobre os comportamentos alimentares dos adolescentes. Constatou-se que adolescentes na faixa etária mais jovem, entre 14 e 16 anos, apresentaram uma probabilidade duas vezes maior de consumir fast food em comparação aos indivíduos de 17 a 19 anos (AOR = 2,02; IC 95%: 1,30–3,16). Em termos de disparidade de gênero, os estudantes do sexo masculino demonstraram maior chance de adesão a esse padrão alimentar (AOR = 1,94; IC 95%: 1,25–3,01), o que se relaciona com padrões culturais locais de maior mobilidade e autonomia financeira juvenil. Além disso, o arranjo residencial mostrou-se um fator decisivo: adolescentes que não residiam com os pais (morando sós ou com parentes) apresentaram um risco 2,58 vezes superior de consumo frequente (AOR = 2,58; IC 95%: 1,51–4,39), evidenciando a importância da supervisão familiar na mediação das escolhas nutricionais.
Fatores econômicos e de acessibilidade também demonstraram forte associação estatística. Estudantes com disponibilidade semanal de dinheiro para despesas pessoais igual ou superior a 500 ETB (Ethiopian Birr) apresentaram maior propensão ao consumo (AOR = 1,97; IC 95%: 1,12–3,46). Paralelamente, a disponibilidade doméstica de fast food duplicou as chances de consumo regular (AOR = 2,03; IC 95%: 1,31–3,14). Notavelmente, a insegurança alimentar domiciliar configurou-se como um fator preditivo significativo (AOR = 2,08; IC 95%: 1,32–3,28), sugerindo que a restrição de acesso a refeições nutritivas e acessíveis impulsiona a busca por opções de alta densidade calórica e baixo custo monetário imediato. Os achados reforçam a necessidade premente de intervenções de saúde pública intersetoriais, focadas em educação nutricional escolar, regulação do ambiente alimentar no entorno das instituições de ensino e estratégias de combate à insegurança alimentar comunitária.
IBRAHIM, Ahmed Mohammed et al. Prevalence of fast food consumption and associated factors among secondary school adolescents in Jigjiga Town Somali Region Eastern Ethiopia. PLoS ONE, v. 20, n. 7, e0327787, p. 1-15, 2025. DOI: 10.1371/journal.pone.0327787.

