Sobreviventes de câncer que mantêm padrões alimentares ricos em nutrientes, como a dieta DASH e o índice AHEI-2010, apresentam uma probabilidade até um terço menor de desenvolver problemas cardíacos ao longo de uma década e meia, em comparação com indivíduos que negligenciam essas orientações nutricionais. A constatação faz parte de uma investigação científica recente publicada na revista especializada JACC: Advances.
A pesquisa partiu da constatação de que pacientes que superaram tumores malignos carregam uma propensão elevada para patologias do coração, mesmo quando nunca passaram por tratamentos agressivos como quimioterapia cardiotóxica ou radioterapia. Para mensurar o impacto da alimentação nessa população, os pesquisadores examinaram registros de 8.716 voluntários do Reino Unido que não apresentavam histórico de cardiopatias no início do acompanhamento.
Com idade média de 59 anos, os participantes integravam uma base de dados que detalhava hábitos alimentares por meio de questionários detalhados de recordatório de 24 horas. Entre os diagnósticos oncológicos mais frequentes na amostra, os tumores de mama lideravam com 31,4%, seguidos pelos de próstata com 9,8% e colorretais com 8,3%.
Padrões alimentares e metodologias de análise
Os cientistas computaram pontuações para diversos modelos nutricionais reconhecidos mundialmente, incluindo a dieta DASH voltada para o controle da hipertensão, o índice de alimentação saudável AHEI-2010, a dieta mediterrânea, o modelo MIND voltado para a saúde cognitiva e variações de dietas com baixo teor de carboidratos e gorduras consideradas benéficas para o organismo.
O desfecho primário monitorado foi a ocorrência de novos episódios de doenças cardiovasculares, identificados por meio de prontuários de internação hospitalar e registros oficiais de óbito. O modelo estatístico ajustou variáveis demográficas e clínicas fundamentais, como faixa etária, sexo, etnia, índice de massa corporal, rotina de exercícios físicos, tabagismo, nível socioeconômico, pressão arterial, perfil lipídico, presença de diabetes e a idade em que o câncer foi diagnosticado.
Durante um período mediano de acompanhamento de 12,3 anos, foram documentadas 1.116 ocorrências cardiovasculares entre os voluntários, abrangendo 858 casos de cardiopatia isquêmica, 251 episódios de insuficiência cardíaca e 181 ocorrências de acidente vascular cerebral.
Resultados expressivos na redução de riscos
Os regimes DASH e AHEI-2010 demonstraram a correlação mais robusta com a diminuição das complicações cardíacas. Ao comparar o grupo com maior adesão em relação ao menos aderente, os índices de risco ajustados foram de 0,65 para o padrão DASH e de 0,63 para o índice AHEI-2010. A dieta mediterrânea e o modelo MIND também revelaram benefícios proporcionais consideráveis, com reduções expressivas nas ocorrências médicas.
De forma específica, o índice AHEI-2010 apresentou os maiores reflexos na proteção contra a cardiopatia isquêmica e o AVC, enquanto a dieta DASH se destacou na prevenção da insuficiência cardíaca. A análise detalhada dos grupos alimentares indicou que a ingestão frequente de vegetais, grãos integrais, leguminosas, pescados e laticínios atua diretamente na diminuição do risco global de doenças do coração.
Impacto na expectativa de vida
Projeções matemáticas baseadas nos dados sugerem que indivíduos que adotam rigorosamente dietas saudáveis aos 45 anos podem ampliar a expectativa de vida entre 1,7 e 3,3 anos adicionais. O modelo MIND liderou as estimativas de ganho em longevidade entre os voluntários analisados.
Os autores do trabalho destacam que a incorporação de rotinas alimentares balanceadas amplia as ferramentas de suporte na chamada cardio-oncologia, integrando o cuidado oncológico à preservação da saúde vascular. A condução do estudo foi liderada por Qing-Yuan Gao, pesquisador vinculado à Universidade Sun Yat-sen, localizada em Guangzhou, na China.
Entre as limitações reconhecidas no levantamento, os autores apontam a ausência de monitoramento longitudinal contínuo da dieta, o que impede avaliar como flutuações temporais nos hábitos alimentares modificam o risco ao longo dos anos. Além disso, a utilização de registros hospitalares pode ter subestimado a incidência real de eventos, e o perfil predominante de participantes europeus brancos exige cautela na generalização dos achados para outras populações.

