Sydney, Austrália – O sistema de defesa de uma colmeia vai muito além do que cada abelha consegue fazer sozinha. Uma nova pesquisa divulgada no periódico ISME Communications detalha a complexidade arquitetônica e química que protege colônias inteiras contra surtos de doenças fatais.
Viver em alta densidade traz vantagens evolutivas óbvias para insetos sociais, mas o arranjo também facilita a disseminação de patógenos. Para neutralizar esse risco, as colônias contam com a imunidade social, uma rede coordenada que une comportamentos, defesas químicas e respostas biológicas.
As propriedades antimicrobianas do mel, da cera e da própolis — a resina produzida pelas abelhas — já eram estudadas de forma isolada há muito tempo. No entanto, faltava compreender como a distribuição espacial desses elementos dentro da estrutura da colmeia interage com outras barreiras para blindar o grupo contra fungos e bactérias.
A investigação demonstrou que as camadas protetoras estão estruturadas desde a entrada do ninho até o intestino dos insetos. Conforme a análise avança em direção ao centro da colmeia, a ação antimicrobiana ganha especificidade. A cera, o pólen armazenado e o próprio organismo das abelhas atuam filtrando microrganismos nocivos enquanto preservam espécies benéficas.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores que coletaram amostras em 24 colônias de abelhas europeias (Apis mellifera), distribuídas por cinco apiários diferentes em Nova Gales do Sul, na Austrália.
A equipe avaliou o teor químico e a eficácia antimicrobiana do mel, da própolis, da cera e do pólen, além de mapear os microbiomas presentes na entrada das caixas, nos favos de cria e no trato digestivo das abelhas forrageiras.
Os dados revelaram que as comunidades microbianas e os compostos químicos mudam de maneira previsível em cada compartimento da colmeia, criando um gradiente que vai das superfícies expostas ao ambiente até os tecidos internos dos insetos.
Essa organização possui lógica funcional clara. Os locais mais vulneráveis à pressão de patógenos, como os tecidos associados às abelhas, apresentam atividade direcionada contra bactérias específicas que ameaçam a colmeia. Em contrapartida, materiais expuestos ao ambiente externo, a exemplo da própolis, exibem perfis antimicrobianos mais amplos e difusos.
A fortificação mais intensa das colmeias foi encontrada contra as bactérias Paenibacillus larvae e Paenibacillus alvei. O dado faz sentido biológico, pois a contaminação por esses agentes tem o potencial de dizimar uma colônia inteira rapidamente.
Outro fator determinante para o arsenal químico disponível na colmeia foi a variedade de flores encontradas na região. As defesas contra infecções fúngicas, por outro lado, mostraram-se menos estruturadas e mais brandas. Os pesquisadores apontam que isso ocorre porque poucos fungos são letais para as abelhas, sendo que muitos se mostram benéficos e até cepas patogênicas conseguem ser toleradas em certa medida.
Apesar de as abelhas transportarem microrganismos florais constantemente para o interior da estrutura, o estudo observou que as bactérias associadas a cada camada da colmeia eram distintas. Isso indica que a colmeia atua ativamente como um filtro, regulando onde cada micróbio pode se instalar. Colônias sob estresse apresentaram um grau maior de desorganização nesse processo de filtragem.
O nível de resiliência imunológica variou conforme a localização dos apiários, a saúde geral da colônia e a exposição a pragas, como os pequenos besouros da colmeia. Esses fatores reforçam que o sistema de defesa responde diretamente às variações do ambiente ao redor.
A dependência mútua entre a saúde das colmeias e a integridade dos ecossistemas locais evidencia que o desmatamento e a agricultura intensiva podem enfraquecer gradualmente as defesas naturais das abelhas, tornando urgente a preservação de habitats florais diversificados.

