Home CiênciaCérebro dos cães revela padrões de autocontrole similares aos dos humanos

Cérebro dos cães revela padrões de autocontrole similares aos dos humanos

by Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues

Sentar, ficar, rolar ou vir. O repertório básico de comandos utilizados por tutores para educar cães vai muito além do simples adestramento comportamental. Quando um animal interrompe uma ação ao ouvir um comando como “não”, o que ocorre dentro de seu crânio pode ser muito mais complexo do que uma mera obediência. Uma pesquisa recente, publicada na revista científica Animal Cognition, sugere que o cérebro canino manifesta padrões de atividade que lembram, de forma impressionante, o autocontrole exercido por seres humanos.

A capacidade de suspender uma atitude impulsiva pode ser, em muitos contextos, a linha tênue entre a sobrevivência e o desastre. Seja um coelho que imobiliza o corpo ao detectar um predador por perto ou uma pessoa lutando contra o vício do tabaco ou do álcool, o mecanismo de dizer “não” para si mesmo atua como um mecanismo crítico de proteção. No entanto, as engrenagens biológicas por trás dessas reações variam drasticamente. Enquanto o travamento do coelho diante do perigo é uma resposta instintiva, enraizada nas camadas mais profundas e primordiais do cérebro, o exercício de força de vontade humana demanda um esforço consciente.

Essa habilidade humana depende diretamente dos lobos frontais, a região mais recente do sistema nervoso, que surgiu nos mamíferos há cerca de 310 milhões de anos. Quando os neurologistas monitoram a atividade neural nessa área, o aumento das ondas teta frontais surge como o sinal clássico de que o autocontrole está em ação. Investigar esse fenômeno em cães, que compartilham o mesmo ambiente físico e social que nós — embora em um ritmo de envelhecimento muito mais acelerado —, oferece uma janela de observação valiosa para a ciência.

Márta Gácsii, etóloga da Universidade Eötvös Loránd, na Hungria, aponta que o desenvolvimento acelerado dos cães permite que fatores cognitivos e patologias sejam analisados com maior eficiência do que em populações humanas. Para verificar o que ocorre quando um cachorro precisa se conter, a equipe de Gácsii utilizou a eletroencefalografia (EEG) não invasiva. O experimento reuniu 226 registros de EEG, cada um com duração de 30 segundos, obtidos de 14 cães enquanto eles estavam em repouso ou respondendo a comandos específicos.

Os pesquisadores buscavam justamente as tais ondas teta, as mesmas que marcam o esforço mental humano. O resultado foi revelador. De acordo com Ivaylo Borislavov Iotchev, coautor do estudo, durante as situações que exigiam autocontrole, os animais apresentaram uma atividade eletroencefalográfica que espelha o padrão humano, tanto em termos de frequência quanto de localização geográfica no cérebro.

Essa descoberta abre portas importantes para o entendimento de distúrbios que afetam humanos, como o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e questões relacionadas ao controle de peso. Anna Kis, etóloga da Academia Húngara de Ciências, explica que o mau funcionamento dos lobos frontais está ligado tanto ao TDAH quanto ao ganho de peso anormal em pessoas. A possibilidade de medir os reflexos de EEG desse envolvimento frontal em cães permitirá que a ciência verifique a proximidade dessas condições entre as espécies, fornecendo, por fim, modelos mais precisos para prever tratamentos e terapias para os seres humanos.

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