MOTION SICKNESS, VESTIBULAR FUNCTION AND NEURODEGENERATION: A CONCEPTUAL PROPOSAL ON VESTIBULAR RESPONSIVENESS AS A POSSIBLE MARKER OF COGNITIVE PRESERVATION
Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues
CPAH, Centro de Pesquisa e Análises Heráclito; GIP, Genetic Intelligence Project
Investigação em neurociências, genética quantitativa e biologia computacional
Artigo de revisão narrativa conceitual
DOI:
RESUMO
A cinetose resulta da interação entre estímulos de movimento, integração multissensorial e suscetibilidade individual. Este artigo propõe que, em uma parcela dos indivíduos, a suscetibilidade à cinetose possa funcionar como marcador comportamental indireto de responsividade vestibular preservada, sem atribuir efeito protetor ao enjoo. A proposta parte de três conjuntos de evidências. A redução bilateral da função vestibular pode comprometer navegação espacial e memória e pode acompanhar redução do volume hipocampal. Estudos clínicos e revisões associam disfunção vestibular a alterações cognitivas, com maior expressão em domínios visuoespaciais. Estudos populacionais recentes também relacionam transtornos vestibulares a maior incidência de demência e doença de Alzheimer. A cinetose, por sua vez, depende em grande parte do conflito entre sinais vestibulares, visuais e somatossensoriais e de sua comparação com previsões internas de movimento. O conceito apresentado não estabelece que pessoas que sentem mais enjoo apresentem menor risco neurodegenerativo. Propõe apenas que a resposta ao movimento, quando acompanhada por medidas vestibulares objetivas preservadas, possa identificar um fenótipo sensorial útil para estudos prospectivos. A hipótese exige grupos comparativos, testes vestibulares, medidas de navegação espacial, neuroimagem, biomarcadores e seguimento longitudinal antes de qualquer aplicação clínica.
Palavras chave: cinetose; sistema vestibular; hipocampo; cognição espacial; doença de Alzheimer; neurodegeneração.
ABSTRACT
Motion sickness results from the interaction between motion stimuli, multisensory integration and individual susceptibility. This article proposes that, in a subset of individuals, motion sickness susceptibility may act as an indirect behavioral marker of preserved vestibular responsiveness, without assigning a protective effect to nausea itself. The proposal is based on three sets of evidence. Bilateral reduction of vestibular function can impair spatial navigation and memory and can accompany hippocampal volume reduction. Clinical studies and reviews associate vestibular dysfunction with cognitive alterations, especially in visuospatial domains. Recent population studies also link vestibular disorders to a higher incidence of dementia and Alzheimer disease. Motion sickness, in turn, depends largely on conflict among vestibular, visual and somatosensory signals and on comparison of those signals with internal predictions of motion. The concept presented here does not establish that individuals with greater motion sickness susceptibility have lower neurodegenerative risk. It proposes only that response to motion, when accompanied by preserved objective vestibular measures, may identify a sensory phenotype useful for prospective investigation. The hypothesis requires comparison groups, vestibular testing, spatial navigation measures, neuroimaging, biomarkers and longitudinal follow up before any clinical use.
Keywords: motion sickness; vestibular system; hippocampus; spatial cognition; Alzheimer disease; neurodegeneration.
1 INTRODUÇÃO
A cinetose pode parecer apenas uma resposta desagradável ao movimento. O problema científico começa quando se pergunta o que precisa permanecer funcional para que essa resposta aconteça. A náusea não constitui evidência de proteção cerebral. A capacidade de detectar movimento, integrar sinais vestibulares com visão e propriocepção e produzir uma resposta autonómica depende de circuitos sensoriais que também participam da orientação espacial.
O sistema vestibular fornece informações sobre aceleração angular, aceleração linear e orientação da cabeça em relação à gravidade. Essas informações chegam aos núcleos vestibulares e seguem por redes que envolvem cerebelo, tálamo, ínsula, regiões parietais, córtex retrosplenial, córtex entorrinal e hipocampo. A função não se limita ao equilíbrio. Ela participa da construção da referência espacial utilizada para saber onde o corpo está, para onde se move e como deve atualizar sua posição em relação ao ambiente (Li et al., 2024; Smith et al., 2024).
A relação com o hipocampo ganhou peso quando Brandt et al. (2005) encontraram redução seletiva do volume hipocampal em pessoas com perda vestibular bilateral crónica, acompanhada por prejuízo de navegação espacial. O resultado não permite concluir que toda perda vestibular produza atrofia hipocampal, mas mostra que uma aferência sensorial periférica pode estar ligada ao desempenho de uma estrutura cerebral reconhecida pela memória e pela navegação.
Estudos populacionais mudaram a escala da pergunta. Koriath et al. (2025) identificaram associação entre disfunção vestibular periférica e maior risco de diagnóstico de doença de Alzheimer em participantes do UK Biobank. Lin et al. (2025) encontraram maior risco de doença de Alzheimer e demência vascular entre pessoas com diferentes transtornos vestibulares periféricos. Em 2026, Li et al. ampliaram essa linha de investigação em mais de quatrocentos mil participantes, com associação entre transtornos vestibulares e demência ao longo de quase quatorze anos de acompanhamento.
Esses resultados sustentam a importância da função vestibular para a investigação do envelhecimento cognitivo. Eles não respondem à pergunta proposta neste artigo. O elo ainda ausente é saber se a suscetibilidade à cinetose, quando separada de doença vestibular, ansiedade, enxaqueca e outros fatores, contém informação sobre a preservação funcional do sistema vestibular e de redes ligadas à navegação.
Este artigo apresenta essa possibilidade como hipótese conceitual. A proposta é simples: a cinetose não protegeria contra neurodegeneração. Em determinados indivíduos, ela poderia funcionar como um marcador comportamental imperfeito de um sistema vestibular capaz de responder com intensidade a conflitos sensoriais. Se essa responsividade acompanhar melhor preservação das redes vestibulares e espaciais durante o envelhecimento, a variável pode adquirir valor científico. A hipótese precisa ser testada antes de qualquer interpretação clínica.
2 MÉTODO
Este trabalho corresponde a uma revisão narrativa conceitual orientada à formulação de hipótese. Não foi aplicado protocolo de revisão sistemática, metanálise ou registro prévio. A seleção das fontes buscou reunir evidências capazes de testar a coerência interna de quatro relações: cinetose e conflito sensorial, função vestibular e hipocampo, função vestibular e cognição, disfunção vestibular e demência.
A busca bibliográfica foi realizada em PubMed e PubMed Central, com verificação complementar em páginas dos periódicos quando necessário. Foram utilizados termos em inglês relacionados a motion sickness, vestibular function, vestibular loss, sensory conflict, hippocampus, spatial memory, cognition, dementia e Alzheimer disease. A busca final utilizada na preparação deste manuscrito foi concluída em 1 de setembro de 2026.
Foram priorizados estudos em humanos, revisões, revisões sistemáticas, documentos de consenso e estudos longitudinais. Trabalhos experimentais foram utilizados apenas quando ajudavam a definir mecanismos que não poderiam ser inferidos a partir de estudos observacionais. As referências citadas foram acessadas durante a elaboração do artigo.
A seleção foi intencional e orientada pela hipótese. Esse método não estima efeito combinado, não garante recuperação de toda a literatura disponível e não substitui uma revisão sistemática. O objetivo foi verificar se existe base empírica suficiente para formular uma hipótese testável e identificar quais pontos continuam sem demonstração.
3 CINETOSE E CONFLITO SENSORIAL
A cinetose é uma resposta fisiológica que pode surgir durante movimento físico ou movimento visual capaz de gerar percepção de deslocamento. Náusea, desconforto gastrointestinal, sudorese, alterações de alerta, tontura, vertigem, cefaleia e desconforto ocular podem integrar o quadro. A Bárány Society reconhece ampla variação individual de suscetibilidade e admite que idade, adaptação e comorbidades alteram a intensidade da resposta (Cha et al., 2021).
A explicação mais utilizada envolve incompatibilidade entre a informação sensorial atual e aquela prevista pelo sistema nervoso. O cérebro combina sinais visuais, vestibulares e somatossensoriais e os compara com modelos internos construídos por experiências anteriores. Quando os sinais não correspondem entre si ou não correspondem ao padrão esperado, a discrepância pode desencadear cinetose (Cha et al., 2021).
Allred, Gopinath e Clark (2025) ofereceram evidência experimental para o papel do sinal vestibular nesse processo. Os autores manipularam o conflito vestibular por estimulação galvânica durante movimento passivo. Uma configuração reduziu os sintomas em 26 por cento e outra aumentou em 56 por cento. O estudo envolveu dez participantes e não resolve a diversidade clínica da cinetose, mas fornece demonstração causal de que alterar o sinal vestibular modifica a intensidade dos sintomas sob condições controladas.
A função vestibular não explica sozinha a suscetibilidade. Harada et al. (2021) associaram maior assimetria morfológica entre órgãos vestibulares bilaterais a maior suscetibilidade à cinetose. Gedik Toker et al. (2024), ao comparar adultos jovens suscetíveis e controles com uma bateria vestibular, não encontraram relação consistente entre suscetibilidade e a maioria dos testes objetivos. Esse resultado é central para o conceito proposto. Sentir enjoo não pode ser tratado como sinónimo de melhor função vestibular.
A cinetose deve ser interpretada como fenótipo de integração. O sinal vestibular participa, mas a resposta final depende de visão, propriocepção, integração cortical, cerebelo, vias autonómicas, expectativa, habituação e características do estímulo. A hipótese deste artigo só permanece plausível se a suscetibilidade for analisada junto a medidas objetivas de função vestibular.
4 SISTEMA VESTIBULAR, HIPOCAMPO E COGNIÇÃO ESPACIAL
A ligação entre o sistema vestibular e a cognição espacial aparece em diferentes níveis de evidência. Schautzer et al. (2003) encontraram prejuízo de aprendizagem e memória espacial em pacientes com falência vestibular bilateral crónica quando comparados a controles saudáveis. Os participantes executaram uma versão virtual da tarefa de Morris, mesmo permanecendo fisicamente parados durante a avaliação. O déficit persistiu sem movimento corporal atual, o que sugere alteração da representação espacial construída por circuitos centrais.
Brandt et al. (2005) examinaram pacientes com perda vestibular bilateral adquirida e crónica por ressonância magnética. O grupo apresentou redução média de 16,9 por cento do volume hipocampal em relação aos controles e pior desempenho em navegação espacial. A memória geral não apresentou o mesmo padrão de comprometimento. O achado liga perda vestibular, hipocampo e navegação de maneira mais específica do que uma hipótese de déficit cognitivo global.
Popp et al. (2017) ampliaram a avaliação para diferentes domínios cognitivos. Pacientes com falência vestibular bilateral apresentaram alterações em tarefas de memória de curto prazo, funções executivas, velocidade de processamento e habilidades visuoespaciais. Pessoas com falência unilateral mostraram um padrão mais restrito. Parte dos escores correlacionou com o grau de disfunção vestibular.
A revisão sistemática de Li et al. (2024) reuniu 45 publicações e encontrou alterações cognitivas em diferentes transtornos vestibulares, com maior recorrência de déficits visuoespaciais. A heterogeneidade entre doenças, métodos e testes impede tratar todos os quadros vestibulares como um único fenómeno. O conjunto dos estudos sustenta uma relação funcional entre informação vestibular e cognição espacial, mas não define uma única via causal.
Smith et al. (2024) chamam atenção para a necessidade de separar efeitos vestibulares diretos de consequências secundárias. Pessoas com vertigem ou desequilíbrio podem reduzir atividade física, evitar ambientes, aumentar carga atencional para manter postura e desenvolver sintomas de ansiedade. Qualquer um desses fatores pode influenciar testes cognitivos. Estudos futuros precisam controlar essas variáveis para não atribuir ao vestíbulo efeitos que pertencem a outros mecanismos.
5 DISFUNÇÃO VESTIBULAR E DEMÊNCIA
A associação entre disfunção vestibular e demência passou a ser investigada em grandes bases populacionais. Esse ponto não transforma a função vestibular em causa de Alzheimer. Ele mostra que a variável merece ser estudada dentro do conjunto de fatores relacionados ao envelhecimento cerebral.
Koriath et al. (2025) analisaram participantes do UK Biobank com mais de 55 anos e sem demência no início. O estudo identificou 4.684 casos de doença de Alzheimer e 2.133 casos de disfunção vestibular periférica. Depois do ajuste por 16 fatores modificáveis, a disfunção vestibular permaneceu associada a risco cerca de 1,7 vez maior de diagnóstico de Alzheimer. O resultado é observacional. Causalidade reversa, classificação diagnóstica e fatores não medidos continuam possíveis.
Lin et al. (2025) avaliaram 140.726 participantes em estudo longitudinal com dados de transtornos vestibulares periféricos. O grupo com doença vestibular apresentou maior risco de demência. Algumas condições, como vertigem posicional paroxística benigna, doença de Ménière e neurite vestibular, mostraram associações com doença de Alzheimer. A diferença entre etiologias vestibulares impede interpretar todos os valores como expressão do mesmo mecanismo.
Li et al. (2026) estudaram 406.348 participantes do UK Biobank durante média de 13,9 anos. Ocorreram 6.702 casos de demência. Transtornos vestibulares foram associados a HR de 1,86 para demência por todas as causas, 2,36 para doença de Alzheimer e 3,35 para demência vascular. Os autores também encontraram associações com estruturas cerebrais ligadas à demência, incluindo hipocampo e córtex entorrinal. O número de participantes com diagnóstico vestibular no início era pequeno em relação à coorte total, o que exige prudência na interpretação dos intervalos de confiança.
Os estudos epidemiológicos apontam na mesma direção geral: comprometimento vestibular aparece associado a pior desfecho cognitivo ou maior incidência de demência em diferentes bases. Nenhum deles testou se pessoas com maior suscetibilidade à cinetose e função vestibular preservada apresentam risco menor. Essa ausência define o espaço da hipótese proposta.
6 HIPÓTESE DA RESPONSIVIDADE VESTIBULAR PRESERVADA
O conceito pode ser formulado sem transformar associação em causalidade. A cinetose não seria um fator protetor. A resposta ao movimento poderia, em um subgrupo, indicar que o sistema vestibular fornece sinal suficiente para entrar em conflito com outras modalidades sensoriais e com previsões internas.
A primeira condição da hipótese é objetiva. A pessoa precisa apresentar função vestibular preservada em testes capazes de avaliar canais semicirculares, órgãos otolíticos e reflexos vestibulares. A segunda condição é comportamental. Essa pessoa apresenta alta suscetibilidade à cinetose diante de estímulos físicos ou visuais padronizados. A terceira condição é longitudinal. A combinação dessas duas características precisaria associar se a melhor preservação de desempenho espacial, estrutura cerebral ou risco neurodegenerativo ao longo do tempo.
Essa formulação evita um erro lógico. Maior enjoo não significa melhor vestíbulo. Gedik Toker et al. (2024) não encontraram correspondência ampla entre suscetibilidade e uma bateria de testes vestibulares. A hipótese trabalha com a interação entre responsividade ao conflito e integridade objetiva, não com o sintoma isolado.
Outro ponto precisa ser separado. Pessoas com doenças vestibulares específicas podem apresentar maior cinetose mesmo com disfunção. A doença de Ménière, a enxaqueca vestibular e outras condições alteram processamento sensorial por mecanismos distintos. Uma amostra que misture indivíduos saudáveis e pacientes vestibulares pode produzir uma associação falsa entre enjoo e função preservada. O conceito deve ser testado primeiro em participantes sem doença vestibular diagnosticada.
Se a hipótese estiver correta, a cinetose funcionará como marcador imperfeito. Ela não substituirá exames vestibulares, neuroimagem ou biomarcadores. Seu valor estaria em indicar uma característica comportamental de baixo custo que, combinada com medidas objetivas, poderia contribuir para a estratificação de fenótipos sensoriais em estudos de envelhecimento.
7 MODELO MECANÍSTICO PROPOSTO
O modelo começa no movimento. Canais semicirculares e órgãos otolíticos codificam aceleração e orientação. O sistema nervoso combina esses sinais com visão e informação somatossensorial. Quando a combinação difere do padrão previsto, aumenta o erro sensorial. Em indivíduos suscetíveis, esse erro alcança vias autonómicas e produz sintomas de cinetose.
A mesma aferência vestibular participa de circuitos utilizados para navegação e orientação espacial. A perda bilateral dessa informação acompanha prejuízo espacial e alterações hipocampais em estudos humanos (Schautzer et al., 2003; Brandt et al., 2005). Revisões recentes discutem mecanismos que incluem alteração de plasticidade sináptica, atividade theta, integração espacial e comunicação entre estruturas vestibulares e hipocampais (Guo et al., 2024).
A proposta não exige que a cinetose cause estimulação benéfica do hipocampo. A relação pode ser apenas indicadora. Um sistema capaz de produzir forte sinal vestibular diante de movimentos complexos também pode manter melhor disponibilidade dessa informação em condições normais. A preservação desse fluxo sensorial poderia acompanhar melhor manutenção de redes espaciais sem interferir diretamente nos processos moleculares da doença de Alzheimer.
Deposição de beta amiloide, alterações de tau, risco genético, inflamação, fatores vasculares e envelhecimento celular seguem caminhos próprios. A hipótese vestibular não substitui esses mecanismos. Ela acrescenta uma variável sensorial que pode modificar desempenho, compensação ou expressão clínica de circuitos envolvidos na navegação.
Uma revisão mecanística publicada em 2026 descreveu uma relação bidirecional entre sistema vestibular e hipocampo na neurodegeneração. O trabalho discute a possibilidade de que perda vestibular prejudique plasticidade e função hipocampal e que degeneração hipocampal prejudique a integração de sinais vestibulares. A suscetibilidade à cinetose não foi estabelecida como marcador nessa proposta. O conceito apresentado aqui ocupa justamente esse ponto ainda sem demonstração direta.
8 PREDIÇÕES TESTÁVEIS
Uma teoria científica precisa produzir resultados capazes de contrariá la. A hipótese da responsividade vestibular preservada permite previsões específicas.
A primeira previsão é que alta suscetibilidade à cinetose não produzirá efeito consistente quando analisada sozinha. A associação deverá aparecer apenas em participantes cuja função vestibular objetiva esteja preservada. Isso separa sensibilidade fisiológica de patologia vestibular.
A segunda previsão é que indivíduos com função vestibular preservada e maior suscetibilidade apresentem desempenho igual ou superior em tarefas específicas de navegação espacial quando comparados a participantes com hipofunção vestibular, depois do controle de idade, sexo, visão, audição, atividade física e ansiedade. O efeito pode não aparecer em memória verbal ou outros domínios sem forte componente espacial.
A terceira previsão envolve neuroimagem. Medidas de volume, espessura cortical ou conectividade em hipocampo, córtex entorrinal, córtex retrosplenial e regiões parietais podem apresentar relação com função vestibular objetiva. A cinetose só terá valor conceitual se acrescentar informação além dos próprios testes vestibulares.
A quarta previsão exige seguimento. Participantes com função vestibular preservada poderão apresentar menor velocidade de declínio espacial ao longo dos anos. A hipótese mais forte prevê que a combinação entre preservação vestibular e suscetibilidade à cinetose se associe a menor incidência de comprometimento cognitivo ou demência depois de ajuste para fatores genéticos e clínicos.
A hipótese deve ser rejeitada ou reformulada se a suscetibilidade não apresentar qualquer valor incremental, se o efeito desaparecer após controle das variáveis de confusão ou se pessoas muito suscetíveis apresentarem pior evolução cognitiva independentemente da função vestibular.
9 PROPOSTA PARA ESTUDOS FUTUROS
O primeiro estudo pode ser transversal e utilizar quatro grupos. Grupo um: alta suscetibilidade e função vestibular preservada. Grupo dois: baixa suscetibilidade e função preservada. Grupo três: baixa função vestibular e baixa suscetibilidade. Grupo quatro: baixa função vestibular e alta suscetibilidade. Essa divisão permite testar se o sintoma e a função objetiva carregam informações diferentes.
A suscetibilidade pode ser medida pelo Motion Sickness Susceptibility Questionnaire em versão validada para a população estudada e por um protocolo padronizado de estímulo. O protocolo precisa registrar intensidade, latência e progressão dos sintomas, não apenas presença ou ausência de náusea.
A avaliação vestibular deve combinar testes que examinem componentes diferentes. Video head impulse test pode avaliar o reflexo vestibulo ocular associado aos canais semicirculares em altas frequências. Potenciais miogénicos evocados vestibulares cervical e ocular podem fornecer informação sobre vias relacionadas ao sáculo e utrículo. Testes calóricos, percepção de verticalidade e posturografia podem ser incluídos de acordo com o objetivo.
A avaliação cognitiva precisa privilegiar navegação e memória espacial. Tarefas virtuais comparáveis entre participantes permitem medir aprendizagem de rotas, integração de trajetória, direção e memória de localização. Testes gerais de atenção, velocidade de processamento e função executiva servem para verificar se o efeito permanece específico ou se acompanha desempenho cognitivo mais amplo.
A neuroimagem pode incluir volumetria do hipocampo e córtex entorrinal, análise de regiões parahipocampais e medidas de conectividade. Biomarcadores de doença de Alzheimer podem ser adicionados quando houver viabilidade. APOE, escore poligénico para Alzheimer, pressão arterial, diabetes, tabagismo, atividade física, escolaridade, audição, depressão, ansiedade e uso de medicamentos devem entrar como covariáveis.
O estudo decisivo é longitudinal. Uma coorte cognitivamente saudável precisa ser acompanhada por tempo suficiente para observar mudança em função vestibular, cognição e biomarcadores. O desenho deve repetir os testes, porque a função vestibular e a suscetibilidade mudam com a idade e com a adaptação.
Um grupo controle é necessário para testar causalidade comparativa. A revisão atual não possui grupo controle porque não representa experimento. Seu papel é definir o conceito, mostrar sua base empírica indireta e especificar o desenho capaz de confirmar ou refutar a proposta.
10 LIMITAÇÕES E HIPÓTESES ALTERNATIVAS
A principal limitação é direta. Nenhum estudo acessado demonstrou que pessoas que sentem mais cinetose tenham menor risco de doença neurodegenerativa. A proposta deriva de relações adjacentes e precisa ser tratada como hipótese.
A segunda limitação está na medida da cinetose. Questionários dependem de memória, exposição prévia e interpretação subjetiva. Uma pessoa pode relatar pouca cinetose porque evita barcos, automóveis ou brinquedos de movimento. Outra pode relatar muitos sintomas por enxaqueca, ansiedade ou hipersensibilidade visual. Exposição padronizada reduz parte desse problema.
A terceira limitação está na função vestibular. Testes diferentes avaliam frequências e estruturas distintas. Resultado normal em um exame não equivale a integridade completa do sistema. A ausência de associação entre questionário e testes vestibulares em estudos como o de Gedik Toker et al. (2024) mostra que uma medida isolada dificilmente será suficiente.
A quarta limitação é a causalidade reversa. Alterações cerebrais iniciais podem prejudicar integração vestibular antes do diagnóstico de demência. Transtornos vestibulares também podem reduzir atividade física e aumentar isolamento, quedas e carga cognitiva. Qualquer uma dessas vias pode explicar parte das associações observadas em grandes coortes.
A quinta limitação envolve envelhecimento. A suscetibilidade à cinetose muda ao longo da vida. O sistema vestibular também sofre alterações funcionais com a idade. Estudos transversais podem confundir efeito de idade com característica individual estável.
Uma hipótese alternativa é que alta suscetibilidade represente pior integração sensorial, sem benefício cognitivo. Outra é que a função vestibular objetiva, e não a cinetose, seja a única variável ligada à cognição. Uma terceira possibilidade é que qualquer associação entre cinetose e preservação cognitiva desapareça após ajuste para atividade física, visão, audição e saúde vascular. Todas precisam permanecer abertas.
11 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A literatura sustenta a participação do sistema vestibular em processos que ultrapassam equilíbrio e reflexos oculares. Perda vestibular bilateral pode acompanhar prejuízo de navegação, alterações cognitivas e redução hipocampal. Estudos populacionais recentes associam transtornos vestibulares a maior incidência de demência e doença de Alzheimer.
A cinetose participa desse tema por outro caminho. Ela depende da interação entre sinais vestibulares, visuais e somatossensoriais e das previsões internas sobre movimento. A presença de cinetose não prova integridade vestibular e não demonstra proteção contra neurodegeneração.
O conceito proposto define uma possibilidade mais restrita. Em indivíduos sem doença vestibular, alta suscetibilidade à cinetose combinada com função vestibular objetiva preservada pode representar um fenótipo de responsividade sensorial. Esse fenótipo pode ser testado como marcador de preservação das redes envolvidas em navegação e memória espacial.
Os dados atuais não permitem afirmar menor risco de Alzheimer em pessoas que enjoam mais. Permitem formular uma pergunta experimental com mecanismo, variáveis mensuráveis, grupos comparativos e critérios de refutação.
A hipótese só ganha valor se sobreviver ao controle experimental. O próximo passo é medir.
REFERÊNCIAS
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NOTA METODOLÓGICA
Este manuscrito apresenta uma hipótese científica derivada de revisão narrativa. Não constitui estudo clínico, ensaio experimental, revisão sistemática ou demonstração de causalidade. A hipótese depende de validação em amostras independentes, grupos comparativos e seguimento longitudinal.

