Um estudo publicado no Journal of Theoretical Educational Science identificou uma tendência de queda nos escores de inteligência de crianças avaliadas ao longo de seis anos. A pesquisa analisou 2.192 alunos do primeiro ano do ensino fundamental, com idades entre 5,5 e 7 anos, e encontrou redução nas médias de inteligência geral, verbal e não verbal entre 2016 e 2021. O trabalho foi conduzido pelas pesquisadoras Bilge Bal-Sezerel, N. Nazlı Ateşgöz e Nilgün Kirişçi, na Turquia.
Os resultados chamam atenção porque caminham na direção oposta ao chamado efeito Flynn, fenômeno observado durante grande parte do século XX em que as pontuações médias obtidas em testes de inteligência aumentavam progressivamente entre gerações.
Historicamente, esse crescimento chegou a aproximadamente três pontos de QI por década em alguns levantamentos. Diversos fatores ambientais foram propostos para explicar o fenômeno, incluindo melhoria da nutrição, expansão da escolarização, maior complexidade cognitiva do ambiente e maior familiaridade das novas gerações com tarefas semelhantes às encontradas em testes psicológicos.
Nas últimas décadas, entretanto, estudos realizados em diferentes países começaram a identificar estabilização ou mesmo redução dessas pontuações. Esse movimento ficou conhecido como efeito Flynn negativo ou efeito anti-Flynn. O novo trabalho acrescenta dados de crianças pequenas a essa discussão.
QI geral caiu seis pontos no período analisado
Os pesquisadores utilizaram a Anadolu-Sak Intelligence Scale, ASIS, instrumento desenvolvido e padronizado na Turquia para crianças entre 4 e 12 anos.
A escala avalia três grandes componentes: inteligência geral, inteligência verbal e inteligência não verbal. Esta última envolve capacidades como raciocínio visual, raciocínio perceptivo e diferentes modalidades de memória visual.
Em 2016, a média do índice geral de inteligência foi de *103,67 pontos. Em 2021, caiu para *97,67.
No índice não verbal, a redução foi ainda maior. A média passou de 103,91 em 2016 para 97,19 em 2021.
Já a inteligência verbal apresentou média de *102,99 em 2016, chegou a 103,64 em 2017 e terminou 2021 em *99,20 pontos.
Os gráficos apresentados no estudo mostram que a tendência geral durante os seis anos foi descendente, apesar de pequenas oscilações intermediárias.
A maior queda apareceu depois da pandemia
O intervalo mais marcante ocorreu entre 2020 e 2021.
Nesse período, a média de inteligência geral caiu *2,66 pontos. A inteligência verbal apresentou redução de **1,1 ponto, enquanto o índice não verbal caiu *3,35 pontos.
Para os autores, a pandemia de Covid-19 aparece como uma hipótese importante para explicar essa aceleração da queda.
Na Turquia, assim como ocorreu em grande parte do mundo, escolas permaneceram fechadas e o ensino presencial foi substituído abruptamente pela educação a distância. Crianças perderam parte da rotina escolar, reduziram o contato presencial com professores e colegas e foram submetidas a condições ambientais completamente diferentes daquelas encontradas antes da pandemia.
Os pesquisadores relacionam esse contexto a resultados de outros estudos que encontraram redução da motivação acadêmica, perdas de aprendizagem e alterações emocionais durante o isolamento.
Ansiedade, estresse, medo, redução da interação social e menor estimulação educacional podem interferir diretamente no desempenho cognitivo de uma criança durante uma avaliação.
Isso é particularmente importante porque um teste de inteligência não mede somente uma capacidade cerebral isolada. O desempenho também depende do estado emocional, da motivação, da atenção, das experiências educacionais e das condições ambientais em que o desenvolvimento ocorreu.
Inteligência não verbal apresentou a maior redução
Um dos resultados mais interessantes foi a queda mais acentuada no índice não verbal.
Esse componente da ASIS apresenta relação com capacidades associadas à inteligência fluida, isto é, a habilidade de solucionar problemas novos, reconhecer relações e padrões e raciocinar diante de situações que não dependem exclusivamente de conhecimentos previamente adquiridos.
Os próprios autores observam que alterações ambientais podem atingir de maneira diferente componentes distintos da inteligência.
Isso também ajuda a explicar por que não é correto interpretar o estudo simplesmente dizendo que “as crianças ficaram menos inteligentes”.
O que diminuiu foram pontuações obtidas em determinados índices de um teste psicométrico aplicado a diferentes grupos de crianças ao longo dos anos.
É uma diferença científica fundamental.
Meninas apresentaram queda mais acentuada no estudo
A pesquisa também analisou separadamente meninos e meninas.
Entre as meninas, a média do índice geral caiu de *104,20 em 2016 para 97,32 em 2021. Entre os meninos, passou de *103,19 para 98,04 no mesmo intervalo.
Os autores observaram uma redução particularmente acentuada entre meninas em 2021 e levantaram a possibilidade de diferenças na exposição aos efeitos psicológicos da pandemia.
No entanto, esse resultado exige cautela. Estudos anteriores sobre diferenças entre os sexos no efeito Flynn e no efeito anti-Flynn produziram resultados inconsistentes. Os próprios pesquisadores reconhecem que população, cultura, idade e instrumento utilizado podem modificar essas comparações.
O estudo não prova que o QI mundial está diminuindo
Apesar dos resultados relevantes, o trabalho possui limitações importantes.
A amostra foi formada por crianças de apenas três escolas da cidade de Eskişehir, na Turquia. Embora as escolas apresentassem características socioeconômicas semelhantes, os dados não podem ser automaticamente generalizados para todas as crianças turcas e muito menos para a população mundial.
Outro ponto fundamental é metodológico.
Os pesquisadores fizeram uma análise descritiva de tendência. Eles próprios esclarecem que não realizaram análise de variância ou análise estatística da inclinação da queda para determinar se as diferenças entre os anos eram estatisticamente significativas, porque trabalharam com escores padronizados.
Além disso, foi utilizado apenas um instrumento de inteligência e a chamada invariância de medida, que verifica se um teste está funcionando de maneira equivalente entre grupos e momentos diferentes, não foi testada no estudo.
Portanto, a pesquisa mostra uma tendência de redução nos escores daquela população, mas não demonstra que ocorreu uma diminuição biológica, genética ou universal da inteligência humana.
O ambiente continua sendo uma peça central
Talvez a contribuição mais relevante do trabalho esteja justamente nesse ponto.
O efeito Flynn mostrou durante décadas que o desempenho cognitivo médio de populações pode mudar rapidamente demais para ser explicado apenas por alterações genéticas.
O efeito anti-Flynn pode seguir a mesma lógica.
Mudanças na educação, alimentação, ambiente familiar, saúde, exposição tecnológica, estimulação cognitiva, padrões de sono, estresse e condições sociais podem modificar o modo como determinadas capacidades cognitivas se desenvolvem e são expressas.
O estudo turco não encerra a discussão sobre uma possível redução do QI nas novas gerações. Ele acrescenta uma evidência importante de que os escores de inteligência são sensíveis às condições ambientais em que uma geração se desenvolve.
E a queda particularmente intensa observada após 2020 deixa uma questão que ainda precisa ser acompanhada: se as perdas registradas durante a pandemia foram transitórias ou se parte delas continuará aparecendo no desenvolvimento cognitivo dessas crianças nos próximos anos.
Referência do estudo: BAL-SEZEREL, Bilge; ATEŞGÖZ, N. Nazlı; KİRİŞÇİ, Nilgün. Intelligence Differences across Years: A Trend Analysis. Journal of Theoretical Educational Science, v. 16, n. 1, p. 107-126, 2023. DOI: 10.30831/akukeg.1099061.

