Um estudo publicado em 2011 no The Journal of Social, Political and Economic Studies reuniu dados de inteligência e desempenho escolar de dezenas de países para investigar até que ponto essas medidas poderiam representar diferentes formas de “capital humano cognitivo”.
O artigo, intitulado “Intelligence: A Measure of Human Capital in Nations”, foi assinado por Gerhard Meisenberg, da Ross University School of Medicine, e Richard Lynn, da University of Ulster, em Coleraine.
Os autores analisaram duas grandes fontes de informação: resultados de testes de QI e resultados de avaliações escolares internacionais, sobretudo PISA e TIMSS. A proposta central foi verificar a relação entre essas duas medidas e, posteriormente, combiná-las num indicador composto de “capital humano”.
Como o estudo foi realizado
Para o componente de desempenho escolar, os investigadores recorreram principalmente ao TIMSS — Trends in International Mathematics and Science Study e ao PISA — Programme for International Student Assessment. Também foram utilizados outros exames internacionais e regionais quando um país não possuía resultados suficientes nessas duas avaliações principais.
Os resultados de Matemática, Ciências e Leitura foram harmonizados estatisticamente para permitir comparações entre diferentes avaliações e anos. Os autores também introduziram ajustes destinados a considerar diferenças na proporção de crianças efetivamente matriculadas na escola em cada país.
Para os dados de inteligência, o estudo utilizou compilações anteriores de QI nacional, sobretudo os trabalhos de Richard Lynn e Tatu Vanhanen, acrescidos de atualizações posteriores. Segundo o artigo, existiam resultados de QI medido para 136 países.
A qualidade dos dados de QI não era considerada igual para todos os países. Os autores criaram uma pontuação de qualidade, chamada IQq, baseada no número de estudos independentes disponíveis e no tamanho total das amostras. Países com mais estudos e amostras maiores receberam pontuações de qualidade mais elevadas.
QI e desempenho escolar apresentaram forte associação
Entre os 99 países para os quais existiam simultaneamente dados de QI e de desempenho escolar, a correlação entre as duas medidas foi de 0,889.
Segundo os autores, esse resultado indicava que os testes de inteligência e as avaliações de desempenho escolar estavam a medir dimensões fortemente relacionadas da capacidade cognitiva no nível nacional.
O estudo construiu depois uma medida de Human Capital, ou “capital humano”, combinando o QI com o desempenho escolar e atribuindo maior peso às informações consideradas de melhor qualidade. Quando apenas uma das duas medidas estava disponível, essa medida foi utilizada isoladamente para formar o índice.
É importante, portanto, distinguir QI de Human Capital. Eles não são a mesma variável.
Relações encontradas com indicadores económicos e sociais
No conjunto de países analisado, o QI nacional apresentou correlação positiva com diversas medidas de desenvolvimento. Entre os resultados relatados no estudo estavam:
- educação: r = 0,757;
- PIB per capita em escala logarítmica: r = 0,745;
- crescimento económico: r = 0,426;
- esperança de vida: r = 0,838;
- democracia: r = 0,684.
Foram observadas correlações negativas com mortalidade infantil, desigualdade de rendimento, taxa de fertilidade e religiosidade.
Essas associações devem ser interpretadas como correlações entre países, e não como prova de que uma variável seja necessariamente a causa da outra.
Limitações reconhecidas pelo próprio artigo
O próprio estudo alerta que a qualidade das estimativas nacionais de QI varia consideravelmente.
Em determinados países, os testes tinham sido aplicados a grandes amostras representativas da população. Em outros, os resultados provinham de amostras de conveniência, que poderiam ou não representar adequadamente o conjunto da população nacional.
Além disso, os dados utilizados provinham de estudos realizados em diferentes anos, com instrumentos distintos e amostras de tamanhos variados. Por isso, os números devem ser entendidos como estimativas produzidas pelo conjunto de dados utilizado pelos autores, e não como valores imutáveis ou definitivos sobre as populações atuais.
Lista completa dos valores de QI apresentados no estudo
A relação abaixo reproduz a coluna “IQ” do apêndice do artigo. Não foram convertidos em QI os valores pertencentes apenas às colunas de desempenho escolar ou “Human Capital”.
A–C
- Argentina — 96,0
- Arménia — 92,0
- Austrália — 98,0
- Áustria — 99,5
- Bahrein — 81,0
- Bangladesh — 81,0
- Barbados — 80,0
- Bélgica — 99,0
- Bermudas — 90,0
- Bolívia — 87,0
- Bósnia — 94,0
- Botsuana — 72,15
- Brasil — 87,0
- Bulgária — 92,5
- Camarões — 64,0
- Canadá — 100,0
- República Centro-Africana — 64,0
- Chile — 91,0
- China — 105,5
- Hong Kong — 108,0
- Tibete — 92,0
- Colômbia — 83,5
- Congo (Brazzaville) — 73,0
- Congo (Kinshasa) — 68,0
- Ilhas Cook — 89,0
- Costa Rica — 86,0
- Costa do Marfim — 71,0
- Croácia — 99,0
- Cuba — 85,0
Os valores constam das páginas iniciais do apêndice, nas quais o artigo separa explicitamente desempenho escolar, QI, qualidade do QI e capital humano.
D–H
- República Checa — 98,0
- Dinamarca — 98,0
- Dominica — 73,0
- República Dominicana — 82,0
- Equador — 88,0
- Egito — 81,0
- Eritreia — 75,5
- Estónia — 99,0
- Etiópia — 68,5
- Fiji — 85,0
- Finlândia — 97,0
- França — 98,0
- Gâmbia — 62,0
- Alemanha — 99,0
- Gana — 70,0
- Grécia — 92,0
- Guatemala — 79,0
- Guiné — 66,5
- Honduras — 81,0
- Hungria — 96,5
I–M
- Islândia — 101,0
- Índia — 82,0
- Indonésia — 87,0
- Irão — 83,5
- Iraque — 87,0
- Irlanda — 92,5
- Israel — 95,0
- Itália — 97,0
- Jamaica — 71,0
- Japão — 105,0
- Jordânia — 84,0
- Quénia — 74,0
- Coreia do Sul — 106,0
- Kuwait — 86,5
- Laos — 89,0
- Líbano — 82,0
- Líbia — 84,6
- Lituânia — 92,0
- Madagascar — 82,0
- Malawi — 60,0
- Malásia — 88,5
- Mali — 69,5
- Malta — 97,0
- Ilhas Marianas — 81,0
- Ilhas Marshall — 84,0
- Maurícia — 89,0
- México — 88,0
- Mongólia — 100,0
- Marrocos — 84,0
- Moçambique — 64,0
N–R
- Namíbia — 72,0
- Nepal — 78,0
- Países Baixos — 100,0
- Antilhas Holandesas — 87,0
- Nova Caledónia — 85,0
- Nova Zelândia — 99,0
- Nigéria — 71,0
- Noruega — 100,0
- Omã — 84,5
- Paquistão — 84,0
- Palestina — 86,0
- Papua-Nova Guiné — 82,5
- Paraguai — 84,0
- Peru — 85,0
- Filipinas — 90,0
- Polónia — 95,0
- Portugal — 94,5
- Porto Rico — 83,5
- Catar — 83,0
- Roménia — 91,0
- Rússia — 96,5
- Ruanda — 76,0
S–Z
- Santa Lúcia — 62,0
- São Vicente — 71,0
- Samoa Ocidental — 88,0
- Arábia Saudita — 79,0
- Senegal — 70,5
- Sérvia e Montenegro — 88,5
- Serra Leoa — 64,0
- Singapura — 108,5
- Eslováquia — 98,0
- Eslovénia — 96,0
- África do Sul — 72,0
- Espanha — 97,0
- Sri Lanka — 79,0
- Sudão — 77,5
- Suriname — 89,0
- Suécia — 99,0
- Suíça — 101,0
- Síria — 80,5
- Taiwan — 105,0
- Tanzânia — 72,5
- Tailândia — 88,0
- Tonga — 86,0
- Tunísia — 84,0
- Turquia — 88,5
- Uganda — 72,0
- Ucrânia — 95,0
- Emirados Árabes Unidos — 83,0
- Reino Unido — 100,0
- Inglaterra — 101,0
- Escócia — 97,0
- Estados Unidos — 98,0
- Uruguai — 96,0
- Venezuela — 84,0
- Vietname — 94,0
- Iémen — 83,0
- Zâmbia — 75,0
- Zimbabué — 71,5
Países e territórios para os quais o artigo não apresenta QI direto
O apêndice contém ainda várias entradas para as quais não existe um valor na coluna IQ. Em alguns casos, há apenas desempenho escolar; em outros, aparece uma estimativa de “Human Capital”, frequentemente entre parênteses.
Esses valores não devem ser apresentados como QI.
Entre essas entradas estão:
- Afeganistão
- Albânia
- Argélia
- Andorra
- Angola
- Azerbaijão
- Bahamas
- Bielorrússia
- Belize
- Benim
- Butão
- Brunei
- Burkina Faso
- Burundi
- Camboja
- Cabo Verde
- Chade
- Macau
- Comores
- Chipre
- Djibuti
- Timor-Leste
- El Salvador
- Guiné Equatorial
- Gabão
- Geórgia
- Guiné-Bissau
- Guiana
- Haiti
- Cazaquistão
- Quirguistão
- Letónia
- Lesoto
- Libéria
- Liechtenstein
- Luxemburgo
- Macedónia
- Maldivas
- Mauritânia
- Micronésia
- Moldávia
- Montenegro
- Myanmar
- Nicarágua
- Níger
- Panamá
- São Tomé e Príncipe
- Seicheles
- Ilhas Salomão
- Somália
- Essuatíni, então denominado Swaziland
- Tajiquistão
- Zanzibar
- Togo
- Trinidad e Tobago
- Turquemenistão
- Irlanda do Norte
- Uzbequistão
- Vanuatu
O próprio apêndice informa que os números colocados entre parênteses na coluna de Human Capital correspondem a estimativas.
Os autores afirmam que estimaram resultados para 28 países e territórios adicionais, utilizando países vizinhos considerados semelhantes em termos de população, cultura e desenvolvimento económico.
Os maiores valores de QI no conjunto de dados
Considerando estritamente a coluna IQ do artigo, os maiores valores são:
- Singapura — 108,5
- Hong Kong — 108,0
- Coreia do Sul — 106,0
- China — 105,5
- Japão — 105,0
- Taiwan — 105,0
- Inglaterra — 101,0
- Islândia — 101,0
- Suíça — 101,0
- Canadá, Mongólia, Países Baixos, Noruega e Reino Unido — 100,0
Brasil, Portugal e Estados Unidos
No conjunto de dados utilizado pelos autores:
- Brasil: QI 87,0
- Portugal: QI 94,5
- Estados Unidos: QI 98,0
O Brasil aparece no artigo com desempenho escolar de 403,4 pontos, QI de 87,0 e índice composto de capital humano de 86,0.
Portugal aparece com desempenho escolar de 487,0, QI de 94,5 e capital humano de 94,5.
Os Estados Unidos aparecem com desempenho escolar de 512,4, QI de 98,0 e capital humano de 97,7.
O que os resultados significam — e o que não significam
Os resultados representam médias nacionais estimadas a partir das fontes selecionadas pelos autores. Eles não permitem concluir que todos os indivíduos de um país tenham capacidades semelhantes, nem permitem inferir a inteligência de uma pessoa a partir da sua nacionalidade.
Também não devem ser interpretados como uma classificação definitiva das populações atuais. O artigo foi publicado em 2011, e grande parte dos dados de QI utilizados foi recolhida ainda antes desse período.
A contribuição principal do trabalho está na tentativa de integrar diferentes fontes de informação cognitiva e demonstrar que, nesse conjunto de dados, QI nacional e desempenho escolar internacional apresentavam uma associação estatística muito elevada.
Ao mesmo tempo, a heterogeneidade das amostras, das épocas de recolha, dos testes utilizados e da qualidade dos dados torna necessária uma leitura cuidadosa dos valores individuais de cada país.

