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Síndrome de Ehlers-Danlos e endocrinologia

Disautonomia, ativação mastocitária, hormônios sexuais e saúde óssea na avaliação endócrino-metabólica

by Redação CPAH

Dra. Jacy Maria Alves – Endocrinologista e metabologista

A classificação internacional de 2017 reconhece 13 subtipos da síndrome de Ehlers-Danlos (SED), um grupo de doenças hereditárias do tecido conjuntivo. 1 O hipermóvel (hEDS) responde pela maioria dos casos e continua sem gene identificado, de modo que o diagnóstico depende de critérios clínicos. No País de Gales, um levantamento nos registros eletrônicos de saúde de toda a população encontrou SED ou distúrbios do espectro da hipermobilidade (HSD) diagnosticados em cerca de 1 a cada 500 pessoas. 2 Como muitos casos passam anos sem diagnóstico, esse número tende a subestimar a frequência real.

Na endocrinologia, a paciente com SED costuma chegar encaminhada pela fadiga, pela taquicardia ou por uma densitometria alterada, quase sempre com TSH, glicemia e cortisol normais. A síndrome não causa uma endocrinopatia primária definida. Compartilha com a especialidade, porém, quatro áreas de interface: disautonomia, ativação mastocitária, efeito dos hormônios sexuais sobre os sintomas e fragilidade óssea. Saber onde estão essas interfaces poupa a paciente de exames repetidos sem rumo e impede que queixas tratáveis sejam atribuídas à SED por exclusão.

Disautonomia e POTS

Das quatro, a ligação mais documentada é a da hEDS e dos HSD com a síndrome da taquicardia postural ortostática (POTS). As revisões descrevem três mecanismos prováveis: tecido conjuntivo menos rígido, que aumenta a complacência vascular e favorece o represamento venoso em pé; possível neuropatia periférica; e componentes autoimunes ainda pouco caracterizados. Entre 616 pacientes com hEDS ou HSD, 37,5% relataram diagnóstico de POTS, e numa coorte de 3.276 pacientes com POTS a SED estava presente em 25%. 3-5

Pelo consenso de especialistas do NIH, o diagnóstico exige aumento sustentado da frequência cardíaca de pelo menos 30 bpm (40 bpm entre 12 e 19 anos) nos primeiros 10 minutos de ortostase, sem hipotensão ortostática, com sintomas há três meses ou mais. 6 Hipertireoidismo, insuficiência adrenal, feocromocitoma e hipovolemia produzem taquicardia e intolerância ortostática semelhantes e precisam ser descartados antes de fechar o diagnóstico.

hEDS, POTS e síndrome de ativação mastocitária costumam ser discutidas como tríade. A atualização de 2025 da American Gastroenterological Association pondera que ainda há pouca evidência mecanística de um vínculo biológico entre as três. 5

Síndrome de ativação mastocitária

A sobreposição entre hEDS e síndrome de ativação mastocitária (MCAS) também é frequente. Em estudo prospectivo com 139 pacientes com MCAS e sintomas gastrointestinais refratários, 23,7% tinham SED e 15,1% tinham SED e POTS. 5 Flushing, taquicardia e oscilação da pressão arterial fazem parte da MCAS, que por isso deve constar no diferencial de quadros sugestivos de feocromocitoma ou síndrome carcinoide.

Hormônios sexuais e ciclo reprodutivo

O diagnóstico de hEDS é bem mais comum em mulheres, e as fases do ciclo reprodutivo interferem nos sintomas. Numa coorte francesa de 386 mulheres com hEDS, mais de dois terços tinham menorragia e dismenorreia, e muitas notavam piora na puberdade, no período menstrual e no pós-parto. 7 Um diário de sintomas ao longo do ciclo ajuda a distinguir oscilação hormonal de progressão da doença. Quando o fluxo é intenso, dosar ferritina evita que uma ferropenia fique escondida dentro da queixa de fadiga.

Saúde óssea

Na SED clássica e na hipermóvel, a densidade mineral óssea (DMO) tende a ser mais baixa e o trabecular bone score (TBS), pior. Eller-Vainicher e colaboradores encontraram fraturas vertebrais assintomáticas em 32% dos pacientes e em 8% dos controles, apesar de eugonadismo e metabolismo de cálcio e fósforo normais. 8 Em outra série, as fraturas vertebrais chegaram a 38,5%, contra 5,1% nos controles, e a DMO dos fraturados não diferiu da dos não fraturados. 9 A fragilidade parece depender da microarquitetura trabecular, e a densitometria isolada pode subestimar o risco.

Revisões recentes tratam essa fragilidade como multifatorial. Descondicionamento, cinesiofobia, hipomobilidade e redução da carga mecânica sobre o esqueleto teriam peso maior que um defeito primário do metabolismo ósseo. Uma metanálise mostrou taxa de fratura aumentada sem elevação correspondente no diagnóstico de osteoporose. 10,11 Pelo risco de fratura, a avaliação óssea entra no seguimento de rotina. 8

Fadiga crônica e causas endócrinas

Fadiga persistente está entre as queixas mais comuns na hEDS. Antes de atribuí-la à síndrome, a investigação deve excluir diabetes, doença tireoidiana e insuficiência adrenal. 12 Descartadas essas causas, o plano passa a incluir sono, condicionamento físico, controle da disautonomia e manejo da dor.

Roteiro de avaliaçãoNa consulta endocrinológica de pacientes com SED, costumo reunir quatro frentes. O teste de ortostatismo ativo, com medidas seriadas de frequência cardíaca e pressão arterial, rastreia POTS. 6 Glicemia, hemoglobina glicada, função tireoidiana e cortisol afastam causas endócrinas de fadiga e taquicardia. 12 Densitometria com TBS e morfometria vertebral estimam o risco de fratura. 8,9 A história menstrual detalhada orienta o cuidado ginecológico e hormonal. 7

Implicações para o tratamento

Se o descondicionamento e o medo de se movimentar explicam parte da fragilidade óssea e da intolerância ortostática, o exercício progressivo e supervisionado, com fortalecimento muscular e carga graduada, passa a integrar o tratamento. 11 Ainda não há ensaios que testem intervenções metabólicas específicas nessa população. Estudos que combinem treinamento de força, nutrição de qualidade, sono reparador, gerenciamento do estresse e manejo autonômico em pacientes com hEDS ajudariam a orientar uma prática que hoje se apoia em extrapolação.

Conteúdo de caráter informativo. Não substitui avaliação médica individualizada.

Referências

1. Malfait F, Francomano C, Byers P, et al. The 2017 international classification of the Ehlers-Danlos syndromes. Am J Med Genet C Semin Med Genet. 2017;175(1):8-26. doi:10.1002/ajmg.c.31552.

2. Demmler JC, Atkinson MD, Reinhold EJ, Choy E, Lyons RA, Brophy ST. Diagnosed prevalence of Ehlers-Danlos syndrome and hypermobility spectrum disorder in Wales, UK: a national electronic cohort study and case-control comparison. BMJ Open. 2019;9(11):e031365. doi:10.1136/bmjopen-2019-031365.

3. Mathias CJ, Owens A, Iodice V, Hakim A. Dysautonomia in the Ehlers-Danlos syndromes and hypermobility spectrum disorders, with a focus on the postural tachycardia syndrome. Am J Med Genet C Semin Med Genet. 2021;187(4):510-519. doi:10.1002/ajmg.c.31951.

4. Blitshteyn S. When POTS is the tip of the iceberg: rare cases of dysautonomia as a possible manifestation of another disorder. Lupus. 2021;30(5):697-701. doi:10.1177/0961203320988585.

5. Aziz Q, Harris LA, Goodman BP, Simrén M, Shin A. AGA Clinical Practice Update on GI manifestations and autonomic or immune dysfunction in hypermobile Ehlers-Danlos syndrome: expert review. Clin Gastroenterol Hepatol. 2025;23(8):1291-1302. doi:10.1016/j.cgh.2025.02.015.

6. Vernino S, Bourne KM, Stiles LE, et al. Postural orthostatic tachycardia syndrome (POTS): state of the science and clinical care from a 2019 National Institutes of Health Expert Consensus Meeting, Part 1. Auton Neurosci. 2021;235:102828. doi:10.1016/j.autneu.2021.102828.

7. Hugon-Rodin J, Lebègue G, Becourt S, Hamonet C, Gompel A. Gynecologic symptoms and the influence on reproductive life in 386 women with hypermobility type Ehlers-Danlos syndrome: a cohort study. Orphanet J Rare Dis. 2016;11(1):124. doi:10.1186/s13023-016-0511-2.

8. Eller-Vainicher C, Bassotti A, Imeraj A, et al. Bone involvement in adult patients affected with Ehlers-Danlos syndrome. Osteoporos Int. 2016;27(8):2525-31. doi:10.1007/s00198-016-3562-2.

9. Mazziotti G, Dordoni C, Doga M, et al. High prevalence of radiological vertebral fractures in adult patients with Ehlers-Danlos syndrome. Bone. 2016;84:88-92. doi:10.1016/j.bone.2015.12.007.

10. Tinkle B, Castori M, Berglund B, et al. Hypermobile Ehlers-Danlos syndrome (a.k.a. Ehlers-Danlos syndrome type III and Ehlers-Danlos syndrome hypermobility type): clinical description and natural history. Am J Med Genet C Semin Med Genet. 2017;175(1):48-69. doi:10.1002/ajmg.c.31538.

11. Vasireddi A, Strecker S, Giles S. Kinesiophobia, global health, pain, and bone mineral density in women with hypermobile Ehlers-Danlos syndrome: a prospective cohort study. Rheumatol Int. 2026;46(6):95. doi:10.1007/s00296-026-06134-z.

12. Hakim A, De Wandele I, O’Callaghan C, Pocinki A, Rowe P. Chronic fatigue in Ehlers-Danlos syndrome, hypermobile type. Am J Med Genet C Semin Med Genet. 2017;175(1):175-180. doi:10.1002/ajmg.c.31542.

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