A dermatite atópica é uma doença inflamatória crônica que afeta milhões de pessoas em todo o mundo, com forte impacto na qualidade de vida de crianças e adultos. Uma revisão científica reuniu evidências recentes sobre um dos mecanismos centrais por trás da doença: a relação entre o estresse oxidativo e a chamada inflamação tipo 2. O trabalho foi publicado pela revista Qualis A Open Minds, propriedade do CPAH, o Centro de Pesquisa e Análises Heráclito, sob gestão técnica da Editora Atena.
O estudo é assinado por Sabrina Lucietti Dick, Laura Berlitz, Maria Eduarda Ribas Bissani, Phelipe dos Santos Souza e Claudia dos Santos Dutra Bernhardt.
Uma doença que vai muito além da pele seca
A dermatite atópica, também chamada de eczema atópico, é uma doença inflamatória crônica e recorrente da pele, de causa multifatorial. Segundo os autores, o quadro costuma começar antes dos cinco anos de idade e pode desaparecer após a puberdade em alguns pacientes, embora também existam casos que surgem tardiamente na vida adulta.
Além dos sintomas visíveis na pele, como eczema, coceira intensa, vermelhidão e ressecamento, a revisão destaca o impacto psicológico da doença. Segundo os pesquisadores, crianças com dermatite atópica frequentemente enfrentam estigma e medo de interações sociais, o que pode levar a isolamento, ansiedade e efeitos sobre a autoestima. Em adultos, a doença também compromete significativamente a qualidade de vida.
Como a inflamação tipo 2 age na pele
O objetivo central da revisão foi esclarecer os mecanismos imunopatológicos que ligam o estresse oxidativo à resposta inflamatória do tipo 2 na dermatite atópica. Para isso, os pesquisadores realizaram um levantamento qualitativo e descritivo da literatura científica, com buscas em bases como:
● BVS
● PubMed
● ScienceDirect
● Academia.edu
Foram considerados artigos publicados entre 2006 e 2025, em português e inglês.
Segundo os resultados, a disfunção da barreira epidérmica e a redução da expressão de uma proteína chamada filagrina estão no centro do desenvolvimento da doença. Quando essa barreira está comprometida, substâncias irritantes do ambiente penetram mais facilmente na pele e desencadeiam uma resposta imunológica conhecida como inflamação tipo 2, mediada principalmente por três interleucinas, chamadas IL-4, IL-5 e IL-13.
O ciclo que se retroalimenta
O ponto central da revisão é a forma como esse processo se torna um ciclo autossustentado. As interleucinas IL-4 e IL-13 inibem proteínas responsáveis por manter a barreira da pele, o que induz o chamado estresse oxidativo, definido pelos autores como um desequilíbrio entre a produção de espécies reativas de oxigênio e a capacidade antioxidante do próprio corpo.
Esse estresse oxidativo, por sua vez, intensifica ainda mais a resposta inflamatória, em um ciclo que se retroalimenta e amplia sintomas como o eczema e a coceira. A revisão também aponta que fatores ambientais, como fumaça de cigarro, poluentes atmosféricos e material particulado, contribuem para esse desequilíbrio, assim como o estresse psicológico crônico, que pode intensificar a sensação de coceira por meio da ativação de células do sistema imunológico na pele.
O papel dos antioxidantes ainda é incerto
A revisão observa que o corpo conta com um sistema antioxidante regulador, formado por enzimas e por vitaminas como A, E e C, capaz de neutralizar parte dos efeitos do estresse oxidativo. Em pacientes com dermatite atópica, no entanto, esse sistema costuma estar menos eficiente, o que dificulta o controle da inflamação.
Os autores citam estudos que apontam potencial terapêutico de moléculas antioxidantes como estratégia complementar no tratamento da doença, mas fazem uma ressalva importante: como os mecanismos envolvidos ainda não são totalmente compreendidos, mais pesquisas são necessárias antes que essas abordagens possam ser consideradas estratégias estabelecidas de tratamento.
Tratamentos atuais e seus desafios
Segundo a revisão, o tratamento da dermatite atópica é baseado principalmente em medicações tópicas, como corticosteroides e cremes hidratantes, além de inibidores de calcineurina. Os corticosteroides tópicos continuam sendo a primeira linha de tratamento, mas seu uso prolongado pode causar reações adversas locais, como afinamento da pele.
Mais recentemente, surgiram medicamentos direcionados especificamente à inflamação tipo 2, como o dupilumabe, um anticorpo que bloqueia receptores de IL-4, reduzindo a resposta inflamatória mediada por essas células. Os autores destacam, porém, que esse tipo de medicação enfrenta desafios relacionados ao alto custo, à necessidade de aprovação regulatória e a possíveis efeitos adversos sérios, como conjuntivite alérgica, alterações no fígado e risco de tromboembolismo.
O que os pesquisadores concluem
A revisão conclui que a dermatite atópica é uma doença crônica de fisiopatologia complexa, na qual a disfunção da barreira da pele e a redução da filagrina são fatores centrais. Esse processo facilita a entrada de irritantes ambientais, desencadeia a produção de IL-4 e IL-13, e é agravado pelas espécies reativas de oxigênio geradas tanto por processos metabólicos internos quanto por fontes externas, como a queima de combustíveis fósseis.
Os autores também reforçam que fatores psicológicos, como o estresse crônico, têm papel relevante no agravamento do quadro, e defendem que estratégias terapêuticas futuras sejam multidisciplinares, envolvendo o controle do microbioma da pele, o manejo de gatilhos ambientais e psicológicos, e cuidados voltados à qualidade de vida dos pacientes.
Este texto tem caráter informativo e baseia se em uma revisão científica sobre os mecanismos da dermatite atópica. Ele não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento prescrito por um médico dermatologista. Decisões sobre uso de medicamentos, cremes ou suplementos devem ser sempre orientadas por um profissional de saúde.

