Home CiênciaCientista brasileiro cria detector de laboratório que custa cem vezes menos que os equipamentos importados

Cientista brasileiro cria detector de laboratório que custa cem vezes menos que os equipamentos importados

Enquanto universidades e escolas técnicas em todo o país enfrentam cortes de verba e dificuldade para renovar equipamentos de laboratório, uma pesquisa conduzida na Universidade Federal do ABC (UFABC) mostra que é possível reduzir drasticamente o custo de um dos instrumentos mais usados na química analítica sem perder precisão.

by Redação CPAH

O estudo, assinado por José Carlos Rodrigues, do Centro de Ciências Naturais e Humanas (CCNH) da UFABC, apresenta o desenvolvimento de um detector de ionização em chama em miniatura, o chamado miniFID, capaz de identificar compostos orgânicos voláteis com sensibilidade comparável à de aparelhos comerciais importados, mas a uma fração do preço.

Um problema conhecido em laboratórios de ensino

Detectores de ionização em chama são peças centrais da cromatografia gasosa, técnica usada para separar e quantificar misturas de compostos químicos. Praticamente todo cromatógrafo moderno depende desse tipo de sensor.

O problema, segundo o autor da pesquisa, é que a indústria caminhou para equipamentos de altíssima performance, com limites de detecção na faixa de partes por bilhão, voltados a grandes indústrias e centros avançados de pesquisa. Para escolas técnicas, universidades com orçamento reduzido e laboratórios de controlo primário, cuja necessidade costuma ser apenas a faixa de partes por milhão, esse nível de sofisticação é desnecessário e caro.

De acordo com uma investigação partilhada pela revista Qualis A Open Minds (propriedade do CPAH, sob gestão técnica da Editora Atena), o autor resume a situação com uma expressão direta: usar esses aparelhos ultra sofisticados em rotinas de ensino seria como usar um canhão para matar uma formiga.

Como funciona o novo detector

O miniFID foi inteiramente usinado em aço inoxidável 316L e é dividido em três partes principais:

  • Base do detector, onde entram o gás de combustão e a coluna analítica.
  • Corpo superior, onde ficam o coletor de íons e o sistema de ignição.
  • Corpo inferior, com a mini tocha e o bico de combustão.

O princípio físico é o mesmo dos detectores tradicionais. Uma chama de hidrogénio e oxigénio queima as moléculas orgânicas que saem da coluna cromatográfica. Um campo elétrico entre dois eletrodos acelera os iões formados na combustão, gerando uma corrente elétrica proporcional à quantidade de carbono presente na amostra.

A diferença está na escala. Ao reduzir de forma significativa o consumo de gases combustíveis e oxidantes, o projeto diminui não apenas o tamanho do sistema, mas também o risco de explosão, um ponto sensível em ambientes de ensino onde estudantes ainda estão a aprender a manusear gases inflamáveis.

Validação frente a equipamentos comerciais

Para comprovar a eficácia do protótipo, o pesquisador acoplou o miniFID a um cromatógrafo Shimadzu GC 14A e comparou os resultados obtidos com os de um equipamento comercial Shimadzu GC 2010, considerado referência no mercado.

Os testes envolveram duas frentes principais:

  • Análise de uma mistura de hidrocarbonetos (n dodecano, n tetradecano, n hexadecano e n octadecano), na qual o protótipo apresentou resolução e sensibilidade equivalentes ao aparelho comercial.
  • Análise de uma mistura de álcoois (n butanol, n pentanol, n hexanol e n heptanol), usada para avaliar a resposta do detector frente a compostos com heteroátomos, situação em que a sensibilidade costuma cair.

Em ambos os casos, os cromatogramas gerados pelo miniFID mostraram picos bem definidos e tempos de retenção compatíveis com os do equipamento de referência.

O custo que muda a equação

O detalhe que dá força ao estudo é o valor final do projeto. Segundo o autor, o custo total de materiais e componentes eletrónicos do protótipo ficou próximo de trezentos dólares, valor muito abaixo do praticado por fabricantes internacionais de detectores de ionização em chama.

Essa diferença de custo é o argumento central da pesquisa em defesa da chamada democratização do acesso à análise química, permitindo que escolas técnicas e laboratórios com orçamento limitado ofereçam aos estudantes uma experiência prática real com cromatografia, e não apenas conteúdo teórico.

related posts

Leave a Comment

um × 1 =

Translate »