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Suplementação de Ácidos Graxos Ômega-3 em Portadores de Cardioversor-Desfibrilador Implantável: Uma Análise Crítica da Evidência Antiarrítmica

by Redação CPAH

A utilização de ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 (PUFA), habitualmente derivados de óleos de peixe, consolidou-se globalmente com base na premissa de que tais compostos exercem efeitos cardioprotetores e reduzem a mortalidade cardiovascular. Embora investigações in vitro e modelos animais in vivo tenham apontado propriedades antiarrítmicas promissoras, a translação desses achados para a prática clínica em humanos permanece inconclusiva, carecendo de fundamentação robusta. Esse cenário adquire contornos críticos em pacientes portadores de cardioversor-desfibrilador implantável (CDI), um subgrupo de alta vulnerabilidade sob risco acentuado de arritmias ventriculares letais, cujos dispositivos possuem a capacidade intrínseca de monitorar, registrar e intervir eletricamente em eventos taquiarreia. Uma recente revisão sistemática com metanálise conduzida por Santo et al. (2026) avaliou o real impacto dessa suplementação, agregando dados de ensaios clínicos randomizados para contrastar a eficácia dos PUFA ômega-3 frente ao placebo ou à ausência de intervenção nessa população específica.

Os resultados consolidados da metanálise, que englobou quatro ensaios clínicos (totalizando 1.714 pacientes de um universo de 1.819 participantes identificados na revisão sistemática), demonstraram que a suplementação de ômega-3 não proporcionou uma redução estatisticamente significativa no risco de arritmias ventriculares ou de mortalidade por todas as causas, apresentando um Hazard Ratio (HR) combinado de 0,88 (IC 95%: 0,71–1.10; p = 0,26). Ademais, análises de subgrupo revelaram que variáveis clínicas de extrema relevância — como a presença de doença arterial coronariana (DAC) ou a gravidade da disfunção sistólica do ventrículo esquerdo (mensurada pela fração de ejeção do ventrículo esquerdo – FEVE) — não exerceram influência modificadora sobre o desfecho primário. Constatou-se, contudo, uma heterogeneidade moderada entre os estudos selecionados ($I^2 = 45,45\%$). Um achado peculiar emergiu da análise de omissão sequencial de dados: ao excluir o primeiro ensaio clínico publicado (conduzido por Raitt et al., com 200 pacientes), observou-se uma redução de risco estatisticamente significativa a favor da suplementação com ômega-3 (HR 0,80; IC 95%: 0,67–0,96; p = 0,014). O estudo de Raitt et al. destoou substancialmente dos demais ao sugerir, inclusive, um potencial efeito pró-arrítmico em pacientes com taquicardia ventricular sustentada crônica no momento da inclusão e que não faziam uso concomitante de antiarrítmicos das classes I ou III.

Diante do exposto, o corpo de evidências atual avaliado pela metodologia GRADE confere uma certeza de evidência muito baixa aos achados, decorrente de sérias preocupações associadas ao risco de viés em domínios como o processo de randomização e a seleção de resultados relatados na maior parte dos estudos clínicos disponíveis, além da imprecisão gerada por intervalos de confiança que cruzam a linha de nulidade. Conclui-se, portanto, que a melhor evidência científica contemporânea disponível não respalda a recomendação clínica ou a prescrição sistemática de ácidos graxos poli-insaturados ômega-3 para indivíduos portadores de CDI com o intuito de mitigar episódios arrítmicos graves ou reduzir as taxas de mortalidade. Há uma necessidade premente de novos ensaios clínicos controlados, que discriminem criteriosamente os subgrupos de pacientes de acordo com o padrão arrítmico de base e a terapia farmacológica adjacente, a fim de elucidar de forma definitiva o real papel biológico dessas moléculas no miocárdio humano.

Referência Bibliográfica (Formato ABNT)

SANTO, Leonardo Perestrelo; ALVES, Mariana; PRADA, Luisa; DORES, Hélder; CALDEIRA, Daniel. Omega-3 Polyunsaturated Fatty Acids and Ventricular Arrhythmias in Patients with Implanted Cardioverter-Defibrillator: Systematic Review with Meta-analysis. Jornal da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, Lisboa, v. 170, n. 2, p. 38-45, jun. 2026. Disponível em: https://doi.org/10.57849/ulisboa.fm.jscml.00000512026. Acesso em: 5 jul. 2026.

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