Home OpiniãoHorizontes Imersivos no Ensino Médico: A Integração da Realidade Virtual e o Uso Disrupente do Meta Quest 2 na Formação Cirúrgica

Horizontes Imersivos no Ensino Médico: A Integração da Realidade Virtual e o Uso Disrupente do Meta Quest 2 na Formação Cirúrgica

by Redação CPAH

A evolução dos modelos pedagógicos na educação médica atravessa um período de profunda reestruturação tecnológica, impulsionada pela necessidade de transitar de metodologias puramente expositivas para estratégias de aprendizagem ativa e centradas no estudante. Tradicionalmente, a aquisição de competências procedimentais e cirúrgicas dependia de um modelo de tutoria direta em ambiente real, o qual, embora eficaz, esbarra frequentemente em limitações éticas, restrições de tempo e preocupações com a segurança do paciente. Neste cenário de transição, a Realidade Virtual (RV) surge como uma ferramenta pedagógica disruptiva de elevado valor translacional. Ao criar ambientes tridimensionais simulados e interativos, a RV possibilita que os estudantes de medicina pratiquem gestos cirúrgicos complexos de forma repetida, autónoma e segura, mitigando a curva de aprendizagem antes do contacto direto com o ambiente clínico real.

Com o objetivo de avaliar o impacto e a aceitação desta tecnologia na formação médica, um estudo transversal quantitativo analisou a primeira experiência de estudantes com o dispositivo imersivo Meta Quest 2. A investigação centrou-se em discentes integrados em rotações clínicas e avaliou parâmetros fundamentais de experiência do utilizador através de um questionário estruturado. A amostra incluiu 43 participantes, caracterizados por uma idade média de 24,19 anos, com uma distribuição demográfica em que 55,8% pertenciam ao sexo masculino. Sob a ótica comportamental e de familiaridade tecnológica prévia, constatou-se que a esmagadora maioria da coorte (86,1%) nunca tinha interagido com equipamentos de realidade virtual, e 41,9% relataram não possuir qualquer hábito de utilização de videojogos digitais, configurando uma população predominantemente virgem no que concerne à imersão em ambientes digitais avançados.

Os resultados quantitativos obtidos demonstraram um índice de satisfação global extraordinariamente elevado, alcançando uma pontuação média de 9,33 numa escala linear de 0 a 10. Quando analisada a perceção dos estudantes sobre o papel da RV como ferramenta complementar no currículo médico, a aprovação foi quase unânime (97,7%). A utilidade atribuída ao dispositivo para o treino específico de habilidades cirúrgicas foi classificada com uma média de 4,33 pontos numa escala de Likert de 5 pontos, enquanto o potencial de aplicabilidade geral na educação médica recebeu uma pontuação de 4,53. Adicionalmente, os participantes enfatizaram que a imersão tecnológica promove um incremento substancial nos níveis de motivação para o estudo (4,42 pontos) e atua como um facilitador robusto na retenção de conceitos anatómicos e procedimentais complexos (4,47 pontos).

Apesar dos indicadores francamente positivos relativos à eficácia pedagógica e ao engajamento, a implementação da realidade virtual no quotidiano académico não está isenta de desafios de ordem biofisiológica. O fenómeno da cibersinergose (cybersickness) — uma forma de cinetose induzida pela discrepância sensorial entre o sistema visual e o sistema vestibular no ambiente imersivo — foi documentado de forma expressiva. Entre os voluntários avaliados, 23,3% reportaram sintomas adversos ligeiros a moderados durante ou imediatamente após a utilização do Meta Quest 2, destacando-se a ocorrência de tonturas, náuseas ligeiras e fadiga visual. Estes dados sublinham a necessidade imperativa de desenhar protocolos de treino que respeitem tempos máximos de exposição e incluam períodos de habituação progressiva para salvaguardar o bem-estar do utilizador.

Em suma, a integração de plataformas imersivas como o Meta Quest 2 no ensino médico valida-se como uma estratégia altamente promissora e amplamente validada pelos próprios estudantes. A capacidade de converter o treino de competências médicas num processo interativo, seguro e motivador posiciona a realidade virtual como um pilar essencial na construção das faculdades de medicina do futuro. Para que esta transição metodológica atinja o seu potencial máximo, as instituições de ensino superior devem estruturar os currículos combinando a inovação digital com a monitorização atenta dos efeitos secundários físicos, garantindo que a tecnologia atue como um vetor de excelência clínica e de segurança no percurso formativo dos futuros profissionais de saúde.

Referência (Formato ABNT)

MENDES-PITEIRA, Sofia et al. First Exposure to Virtual Reality in Medical Education: Insights From Meta Quest 2 Use. Jornal da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, Lisboa, v. 170, n. 2, p. 44-49, jun. 2026.

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