A exposição contínua e prolongada a ruídos recreativos por meio de dispositivos individuais de áudio, como fones de ouvido (internos ou externos), consolidou-se como um fator de risco prevalente para o desenvolvimento da Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR) entre adultos jovens. O uso habitual desses equipamentos em intensidades elevadas e sem pausas de repouso acústico submete as estruturas cocolares — em especial as células ciliadas externas do órgão de Corti — a um estresse mecânico e metabólico contínuo. Esse processo microtraumático pode acarretar degeneração neurossensorial irreversível, comprometendo as frequências mais elevadas da audição e afetando negativamente a comunicação e a integração social do indivíduo.
Em uma investigação epidemiológica prospectiva e transversal realizada no ecossistema acadêmico de instituições de ensino superior em Kaduna (Nigéria), avaliou-se uma amostragem de 272 estudantes expostos ao uso prolongado de fones de ouvido (definido como a utilização diária mínima de 1 hora por um período não inferior a 1 ano) e 272 controles pareados por idade e sexo sem o hábito de uso dos dispositivos. A idade média observada para o grupo exposto foi de 22,6 ± 3,4 anos e para o grupo controle de 23,2 ± 4,2 anos, concentrando a maioria dos participantes na faixa etária de 18 a 23 anos e mantendo uma distribuição proporcional entre os sexos masculino e feminino.
A análise da média tonal audiológica (Pure Tone Average – PTAv) na melhor orelha revelou que o limiar auditivo médio dos usuários habituais de fones de ouvido situou-se em 22,4 ± 6,3 dB, enquanto a média do grupo controle foi de 18,2 ± 4,0 dB. Essa diferença de 4,2 dB entre as médias apresentou significância estatística (t=5,375;P<0,0001), evidenciando um prejuízo funcional nos limiares de audibilidade dos indivíduos submetidos ao ruído de lazer.
Considerando o critério da Organização Mundial da Saúde (OMS), no qual limiares auditivos superiores a 25 dBHL identificam déficit auditivo, a prevalência de perda auditiva na melhor orelha foi de 17,6% (48 alunos) entre os usuários prolongados de fones, em contraposição a 7,4% (20 alunos) no grupo controle, diferença estatisticamente significativa (χ2=13,176;P<0,0001). Entre os 48 usuários com alteração auditiva, a maior parcela demonstrou perda auditiva de grau leve (89,6%), ao passo que 10,4% apresentaram grau moderado; não foram registrados casos de perda de grau severo ou profundo. Quanto ao tipo de alteração, a grande maioria (91,7%) apresentou perda do tipo neurossensorial (PANS) e 8,3% apresentaram perda mista. A totalidade dos casos identificados, em ambos os grupos, exibiu um padrão de acometimento bilateral.
O detalhamento das frequências tonais atingidas nos indivíduos expostos com perda auditiva demonstrou o predomínio do comprometimento nas altas frequências (4 a 8 kHz), observado em 64,6% dos sujeitos (31 alunos), seguido pelas baixas frequências (22,9%) e médias frequências (12,5%). Adicionalmente, identificou-se a presença do entalhe audiométrico (massa de queda isolada) na frequência específica de 4 kHz em 6,3% dos usuários de fones (17 alunos), padrão patognomônico de trauma acústico que esteve completamente ausente no grupo controle (χ2=17,548;P=0,0001). A maior vulnerabilidade das células ciliadas às altas frequências justifica-se pelo efeito de compressão e descompressão e pela maior absorção da energia acústica no segmento basal da cóclea nos estágios iniciais da lesão auditiva por ruído.
Portanto, evidencia-se que o uso habitual de fones de ouvido constitui um fator determinante para a perda auditiva neurossensorial de grau leve e acometimento predominantemente bilateral e de altas frequências entre jovens adultos. Esses dados reforçam a necessidade premente de estratégias preventivas de saúde pública e de conscientização sobre práticas de escuta segura nas instituições acadêmicas, visando mitigar danos funcionais irreversíveis à audição humana.
HARUNA, Kabir et al. Prevalence and pattern of hearing loss among young adults in tertiary institutions with habitual headphone/earphone usage in Kaduna metropolis. Journal of the West African College of Surgeons, v. 13, n. 4, p. 98-105, oct.-dec. 2023.

