A formação acadêmica em Medicina é amplamente reconhecida na literatura científica como um período de intensa vulnerabilidade psicopatológica, caracterizado por altas demandas adaptativas que expõem os estudantes a riscos elevados de fadiga crônica, transtornos de ansiedade, depressão maior e síndrome de burnout. Diante desse cenário de estresse ocupacional prematuro, a mensuração da Qualidade de Vida (QV) dessa população converteu-se em um indicador crítico para o desenho de políticas de saúde institucional. A determinação dos níveis de QV, contudo, não decorre linearmente apenas de fatores exógenos ou da carga horária curricular, mas sim de uma intrincada interação entre construtos psicológicos intrínsecos. Dentre os principais determinantes internos, destacam-se os traços de personalidade — classicamente operacionalizados pelo Modelo dos Cinco Grandes Traços (Big Five) — e a Inteligência Emocional (IE). Investigações neuropsicológicas contemporâneas indicam que a capacidade de monitorar, processar e regular estados afetivos atua como um mecanismo modulador fundamental, ditando a forma como características disposicionais estáveis da personalidade se traduzem em bem-estar subjetivo ou em sofrimento psíquico (MAALOUF; HALLIT; OBEID, 2022).
Com o objetivo de mapear a complexa arquitetura dessas relações, um estudo transversal pioneiro conduzido por Elise Maalouf, Souheil Hallit e Sahar Obeid (2022) investigou uma amostra de 293 estudantes de medicina recrutados em todas as sete Faculdades de Medicina do Líbano. O delineamento experimental utilizou instrumentos psicométricos validados internacionalmente, incluindo o Big Five Inventory (BFI) para mensurar os traços de personalidade (Neuroticismo, Extroversão, Amabilidade, Conscienciosidade e Abertura para a Experiência), o Short Form Health Survey (SF-12) para quantificar as dimensões física e mental da Qualidade de Vida, e a Quick Emotional Intelligence Self-Assessment para mapear os componentes da IE (Consciência Emocional, Resiliência, Aceitação Interpessoal e Conexão Interpessoal). A inovação metodológica da pesquisa residiu na aplicação da Modelagem de Equações Estruturais (SEM) via software SPSS AMOS v.24, um procedimento estatístico avançado que permitiu avaliar concomitantemente múltiplos caminhos (paths) de associação e testar empiricamente se a Inteligência Emocional opera como uma variável mediadora entre as características latentes da personalidade e os desfechos funcionais de qualidade de vida (MAALOUF; HALLIT; OBEID, 2022).
Os achados obtidos por meio da análise de caminhos (path analysis) desvelaram que o traço de Neuroticismo — caracterizado pela instabilidade afetiva e pela propensão a experienciar afetos negativos — manifestou uma associação direta e estatisticamente significante com níveis reduzidos de Inteligência Emocional ($\beta = -0,26$; $p < 0,001$) e com escores rebaixados de Qualidade de Vida Física ($\beta = -0,23$; $p < 0,01$) e Mental ($\beta = -0,38$; $p < 0,001$). Esse padrão evidencia que estudantes com escores elevados em Neuroticismo possuem uma vulnerabilidade basal crônica, sendo cognitivamente mais propensos a interpretar as demandas cotidianas do ambiente acadêmico como ameaças intransponíveis. Em contrapartida, os traços de Extroversão ($\beta = 0,14$; $p < 0,05$), Amabilidade ($\beta = 0,26$; $p < 0,001$) e Conscienciosidade ($\beta = 0,38$; $p < 0,001$) exibiram correlações lineares estritamente positivas com a Inteligência Emocional global, sugerindo que indivíduos sociáveis, cooperativos, organizados e orientados para metas possuem maior facilidade intrínseca para desenvolver competências de regulação emocional e empatia (MAALOUF; HALLIT; OBEID, 2022).
O dado mais contundente do modelo estrutural emergiu ao se analisar o papel preditivo da Inteligência Emocional sobre os desfechos de saúde. A IE demonstrou uma forte associação direta positiva tanto com a Qualidade de Vida Física ($\beta = 0,22$; $p < 0,01$) quanto com a Qualidade de Vida Mental ($\beta = 0,36$; $p < 0,001$). Mais crucialmente, os testes de mediação comprovaram de forma robusta que a Inteligência Emocional medeia os efeitos de quatro dos cinco grandes traços de personalidade sobre a qualidade de vida. Isso significa que o impacto do Neuroticismo, da Extroversão, da Amabilidade e da Conscienciosidade sobre a percepção de bem-estar dos estudantes não ocorre apenas por via direta, mas é canalizado significativamente através da capacidade do sujeito de gerenciar suas próprias emoções. Diferentemente dos demais traços, a Abertura para a Experiência não demonstrou caminhos estatisticamente significantes em relação à IE ou à QV nesta amostra específica de graduandos (MAALOUF; HALLIT; OBEID, 2022).
As implicações clínicas e educacionais desses resultados transversais redirecionam as estratégias de intervenção institucional no ensino médico. Embora os traços de personalidade do Big Five sejam estruturas disposicionais estáveis ao longo da vida adulta e de difícil modificação, a Inteligência Emocional, por sua vez, constitui um conjunto de habilidades dinâmicas e maleáveis, passíveis de aprimoramento por meio de treinamentos específicos e suporte psicopedagógico continuado. Intervenções estruturadas focadas no desenvolvimento da autoconsciência emocional, no fortalecimento da resiliência psicológica e no refinamento das competências de comunicação interpessoal surgem como caminhos viáveis e eficazes para mitigar os impactos deletérios do estresse acadêmico. Ao instrumentalizar terapeuticamente os estudantes para flexibilizar suas respostas afetivas e gerenciar o desgaste inerente à profissão, promove-se não apenas a prevenção de quadros graves de exaustão e burnout, mas também assegura-se a preservação da saúde física e mental necessária para o pleno exercício da prática médica futura (MAALOUF; HALLIT; OBEID, 2022).
Referência em formato ABNT:
MAALOUF, Elise; HALLIT, Souheil; OBEID, Sahar. Personality traits and quality of life among Lebanese medical students: any mediating effect of emotional intelligence? A path analysis approach. BMC Psychology, Londres, v. 10, n. 28, p. 1-12, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s40359-022-00739-2. Acesso em: 25 maio 2026.

