A elucidação das intrincadas relações entre traços de personalidade, funções executivas (FE) e inteligência fluida constitui um dos escopos mais ambiciosos da psicologia cognitiva e da neurociência comportamental contemporâneas. Historicamente, esses construtos foram investigados de forma segregada, mapeando-se ou as características disposicionais e afetivas da personalidade ou as capacidades puramente voltadas ao processamento de informações e controle de nível superior. Todavia, evidências neuroanatômicas robustas indicam uma clara convergência estrutural: tanto as facetas da personalidade quanto as operações cognitivas de alto nível compartilham substratos neurais comuns, concentrados prioritariamente no córtex pré-frontal, como o córtex pré-frontal dorsolateral, cuja integridade modula traços como extroversão, neuroticismo e conscienciosidade, além de coordenar a memória de trabalho, a inibição de respostas e a flexibilidade cognitiva. Diante desse cenário de interdependência biológica, o estudo empírico conduzido pelas pesquisadoras alemãs Verena E. Johann e Julia Karbach (2022) fornece uma contribuição seminal ao adotar um desenho transdesenvolvimental, contrapondo os perfis de interrelação desses fatores em uma amostra de crianças em idade escolar e em uma coorte de adultos jovens.
A arquitetura das funções executivas, operacionalizada clássica e amplamente sob o modelo tripartite de Miyake e colaboradores (2000), engloba três subcomponentes moderadamente correlacionados, porém nitidamente distinguíveis: o monitoramento e atualização de representações na memória de trabalho (MT), a inibição de estímulos ou tendências de ação prepotentes e irrelevantes, e a flexibilidade cognitiva ou alternância (shifting) entre diferentes tarefas ou representações mentais. A organização interna dessas funções sofre modificações ontogenéticas substanciais ao longo da infância. Enquanto nos anos pré-escolares as FE manifestam uma estrutura essencialmente unitária, durante o ensino fundamental ocorre um processo progressivo de diferenciação. Por volta dos 10 anos de idade, o aparato cognitivo infanto-juvenil passa a exibir de forma consistente a subdivisão em três fatores independentes. Essa maturação cortical correlaciona-se estritamente com os índices de inteligência, sugerindo que na infância precoce a covariância entre FE e inteligência derive de uma forte sobreposição genética global, enquanto na idade adulta a memória de trabalho consolida-se como o preditor isolado mais robusto da capacidade intelectual, restando a flexibilidade e a inibição independentes desse desfecho.
Para investigar os meandros dessa dinâmica, Johann e Karbach (2022) estruturaram dois experimentos paralelos em laboratório, submetendo os participantes a baterias computadorizadas de testes de desempenho e inventários psicométricos de autorrelato. O Experimento 1 avaliou 155 estudantes do ensino fundamental (com média de idade de 9,54 anos) por meio do teste de Matrizes Progressivas Coloridas de Raven e do inventário de personalidade HiPIC-30 — uma escala hierárquica infantil ajustada aos Cinco Grandes Traços (Big Five), englobando neuroticismo, extroversão, conscienciosidade, benevolência (equivalente à amabilidade) e imaginação (equivalente à abertura para a experiência). O Experimento 2 replicou a lógica procedimental em 91 adultos jovens (com média de idade de 23,49 anos). Os resultados comportamentais do Experimento 1 revelaram uma associação linear estritamente negativa entre o traço de neuroticismo e os escores de inteligência nas crianças. Esse achado encontra respaldo nos modelos conceituais de Chamorro-Premuzic e Furnham (2004), os quais postulam que a instabilidade emocional e a ansiedade basal características do neuroticismo afetam negativamente o output do desempenho em testes sob pressão de tempo, em vez de denotarem um déficit na capacidade intelectual latente ou “real” do sujeito.
Por outro lado, as análises efetuadas no Experimento 2 com a coorte de adultos desvelaram um panorama qualitativamente distinto, evidenciando o papel preponderante do traço de conscienciosidade na sofisticação cognitiva tardia. Observou-se que escores elevados de conscienciosidade correlacionaram-se de forma direta e estatisticamente significativa tanto com maiores índices de inteligência fluida quanto com um desempenho otimizado na tarefa de flexibilidade cognitiva (redução dos custos de alternância). Sob a perspectiva do desenvolvimento ao longo do ciclo vital, essa correlação positiva pode ser elucidada pelas teorias de investimento intelectual, como as propostas por Ackerman (1999). Indivíduos dotados de alta conscienciosidade e abertura tendem a engajar-se de forma sistemática e persistente em atividades intelectualmente estimulantes e academicamente benéficas ao longo dos anos. Esse investimento comportamental contínuo atua como um catalisador epigenético e plástico, refinando progressivamente a eficiência das redes frontoparietais que governam a flexibilidade mental e a inteligência fluida na transição para a vida adulta.
Em suma, os achados transversais apresentados por Johann e Karbach (2022) rompem com visões reducionistas e estáticas da cognição humana, demonstrando que a interface entre a personalidade e a infraestrutura executiva não é homogênea ao longo do desenvolvimento. Se na infância o gerenciamento do estresse e da reatividade emocional (neuroticismo) desponta como o principal modulador do desempenho mensurado, na adultez jovem a capacidade de autorregulação direcionada a metas, a organização e o esforço sustentado (conscienciosidade) assumem o protagonismo na predição da plasticidade e do rigor cognitivo. Compreender essa transição de vulnerabilidades baseadas no afeto para competências baseadas no esforço e no investimento pessoal é crítico para o refinamento de estratégias pedagógicas e de intervenções clínicas neuropsicológicas customizadas, assegurando o pleno desabrochar do potencial intelectual e adaptativo em diferentes etapas da vida humana.
Referência em formato ABNT:
JOHANN, Verena E.; KARBACH, Julia. The relations between personality, components of executive functions, and intelligence in children and young adults. Psychological Research, Berlim, v. 86, n. 6, p. 1904–1917, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s00426-021-01623-1. Acesso em: 25 maio 2026.

