Ao longo das últimas décadas, a difusão massiva de tecnologias de informação e comunicação remodelou os padrões comportamentais de diferentes faixas etárias. Embora a atenção da comunidade científica tenha se concentrado historicamente na população jovem, a rápida adesão aos smartphones por adultos mais velhos revelou um cenário epidemiológico e clínico singular. No contexto do envelhecimento, o uso de dispositivos móveis proporciona oportunidades incontestáveis de conectividade, acesso à informação e apoio social; contudo, o engajamento digital desproporcional ou disfuncional desponta como um emergente fator de vulnerabilidade à saúde física, mental e social da população idosa.
A caracterização da hiperconexão na maturidade engloba uma diversidade terminológica e conceitual — que varia entre “sobredependência de smartphones“, “adição ao smartphone” e “uso problemático do smartphone” —, refletindo a ausência de uma definição padronizada na literatura médica e gerontológica. Sob o arcabouço do modelo biopsicossocial, os determinantes que impulsionam o uso excessivo dividem-se em quatro domínios primários. No âmbito biológico, variáveis sociodemográficas e antropométricas como idade, sexo e índice de massa corporal (IMC) apresentam associação com o comportamento de uso. No domínio comportamental, a tipologia e a natureza das atividades desenvolvidas no dispositivo desempenham papel central na modulação do tempo de tela. Por sua vez, a dimensão psicológica é marcada fortemente pela presença de sintomas depressivos, ansiedade e sentimento de solidão, os quais frequentemente atuam como gatilhos ou mantenedores da dependência digital. Finalmente, no plano social, o nível educacional e a renda configuram determinantes extrínsecos cruciais na mediação do acesso e da intensidade de uso desses recursos tecnológicos.
As repercussões clínicas decorrentes do uso excessivo de smartphones em idosos estendem-se por múltiplos sistemas e dimensões funcionais. Do ponto de vista somático e fisiológico, o uso prolongado e posturalmente inadequado associa-se a dores no sistema musculoesquelético e a distúrbios do sono, comprometendo a reparação biológica e o bem-estar diário. No domínio psicossocial, longe de atenuar o isolamento, a utilização problemática pode exacerbar estados de ansiedade, afeto depressivo e solidão, retroalimentando um ciclo de sofrimento psíquico. Diante desse panorama, torna-se imperativo que pesquisas futuras estabeleçam definições operacionais consolidadas e delineiem intervenções terapêuticas e preventivas eficazes, visando mitigar os impactos adversos do uso desmedido da tecnologia e promover um envelhecimento saudável e bem-adaptado às exigências da era digital.
Referência (ABNT):
CHOI, Jeongeun; LEE, Hyangkyu; YOON, Seolah; CHO, Hyeonmi. Smartphone Overuse Among Older Adults: A Scoping Review. Innovation in Aging, v. 8, n. S1, p. 1275, 2024. DOI: 10.1093/geroni/igae098.4077.

