A evolução histórica dos manuais nosográficos psiquiátricos reformulou os paradigmas de avaliação dos transtornos neurodesenvolvimentais. Sob a égide da quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-IV), a categorização clínica impunha uma exclusão mútua e absoluta, proibindo o duplo diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Essa barreira nosológica partia da premissa de que as manifestações de inatensão ou imperatividade corporal constituíam sintomas meramente secundários ou acessórios do quadro autista de base. Com o advento e a publicação do DSM-5, os critérios de exclusão foram modificados, chancelando formalmente a coocorrência diagnóstica e reconhecendo que o TDAH figura como a comorbidade mais prevalente em indivíduos acometidos pelo TEA, com taxas de sobreposição citadas na literatura científica que flutuam expressivamente entre 25% e 81%. (MALWANE et al., 2022).
Apesar do avanço conceitual operado pela transição dimensional dos critérios diagnósticos, a sobreposição fenotípica entre as duas condições ainda impõe severos entraves à detecção precoce do autismo. Sintomas clássicos do TDAH, como a labilidade atencional e a hiperatividade motora, operam como fatores de distração clínica, obscurecendo e convoluindo o isolamento de déficits de interação social subjacentes ou recém-emergentes. Estudos controlados revelam que crianças e adolescentes do sexo masculino que possuem um diagnóstico prévio de TDAH sofrem um atraso médio de 1,5 anos para obter a confirmação diagnóstica de TEA, quando comparados a pares sem histórico da condição comórbida. Essa latência diagnóstica é fortemente modulada por determinantes sociais da saúde e vulnerabilidades demográficas; estatísticas internacionais da Organização Mundial da Saúde estimam uma prevalência global de um caso de autismo para cada 160 crianças, ao passo que redes de monitoramento como o CDC reportam taxas de um para cada 44 crianças nos Estados Unidos. Contudo, o rastreio e a prevalência exata em países de baixa e média renda permanecem desconhecidos. Adicionalmente, o viés de gênero e a estereotipagem histórica do autismo como uma patologia majoritariamente masculina — dada a razão estimada de três homens para cada mulher afetada — agravam o cenário de subnotificação, elevando o risco de que indivíduos do sexo feminino sejam sistematicamente subdiagnosticados ou enfrentem atrasos ainda mais crônicos na identificação do quadro. (MALWANE et al., 2022).
A complexidade avaliativa acentua-se diante do compartilhamento de traços comportamentais de superfície que mimetizam ambas as patologias. Investigações empíricas demonstram que crianças diagnosticadas unicamente com TDAH podem externalizar características frequentemente atribuídas ao espectro autista, tais como prejuízos na comunicação não-verbal, barreiras no estabelecimento de vínculos de amizade e falhas crônicas no desenvolvimento da empatia ou percepção dos estados emocionais alheios. Por outro lado, sujeitos no espectro autista manifestam com frequência sintomas severos de inatensão e hiperatividade sem necessariamente preencherem os critérios formais para TDAH. Essa intrincada semelhança clínica gera erros de mascaramento ou diagnósticos incorretos de transtornos do humor na adolescência, como o transtorno bipolar, cujas flutuações de afeto e depressão maior mimetizam, na verdade, a rigidez de pensamento, as dificuldades em verbalizar o insight emocional, o achatamento afetivo e as severas hipersensibilidades sensoriais a estímulos têxteis ou alimentares intrínsecos ao TEA nível 1. (MALWANE et al., 2022).
Para salvaguardar a eficácia terapêutica e mitigar o desgaste adaptativo, a prática clínica infantojuvenil deve migrar para um modelo de triagem proativo e multidimensional. Enquanto ferramentas de triagem precoce na primeira infância — como o M-CHAT-R/F e o SWYC — focam no rastreio de sinais rudimentares, como o contato visual rebaixado, a ausência de gestos comunicativos e a diminuição da resposta ao nome até os 12 meses , a identificação em crianças mais velhas e adolescentes requer o emprego de escalas focadas em habilidades conversacionais complexas e pensamento figurativo, tais como o ASSQ, o SRS e o SCQ. A confirmação diagnóstica padrão-ouro exige a aplicação de protocolos padronizados de observação direta, a exemplo do ADOS-2, em complementaridade com testes de avaliação neuropsicológica e funções executivas, como a escala Stanford-Binet e o sistema D-KEFS. Diante disso, reforça-se a diretriz clínica de que qualquer paciente diagnosticado com TDAH que mantenha prejuízos persistentes e severos na reciprocidade social, a despeito de apresentar melhora ou resposta funcional ao tratamento psicofarmacológico com estimulantes (como o metilfenidato ou anfetaminas), deve ser obrigatoriamente submetido a uma avaliação neuropsicológica abrangente para TEA. O isolamento precoce do fenótipo comórbido constitui o único vetor capaz de guiar Intervenções Comportamentais Intensivas Precoces (EIBI) customizadas e eficazes, de modo a resguardar o prognóstico psicossocial a longo prazo. (MALWANE et al., 2022).
Referência
MALWANE, Michelle I. et al. A Delayed Diagnosis of Autism Spectrum Disorder in the Setting of Complex Attention Deficit Hyperactivity Disorder. Cureus, v. 14, n. 6, e25825, p. 1-4, jun. 2022. Disponível em: https://doi.org/10.7759/cureus.25825. Acesso em: 27 mai. 2026.

