A intersecção clínica entre o Transtorno do Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) na infância constitui um dos cenários mais complexos para a neuropsicologia estrutural e a psiquiatria do desenvolvimento contemporâneas. Sob as diretrizes do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, Quinta Edição, Revisão Textual (DSM-5-TR), o isolamento de assinaturas fenotípicas específicas entre essas duas condições neurodesenvolvimentais demanda o mapeamento rigoroso de variáveis cognitivas, comportamentais e neurobiológicas. Investigações baseadas em revisões sistemáticas de literatura revelam que a idade em que o indivíduo recebe o primeiro diagnóstico opera como um preditor robusto para a manifestação de quadros comórbidos. Além disso, constatou-se que a presença de comorbidades prévias eleva substancialmente a probabilidade de formulação de um diagnóstico subsequente de TEA. Esse panorama dinâmico realça a necessidade de esquadrinhar os limites diagnósticos para mitigar sobreposições e otimizar os desfechos adaptativos funcionais dos pacientes na infância e na adolescência. (BLANCO et al., 2025).
A expressiva sobreposição de sintomas atencionais e de interação socioemocional em ambas as patologias gera importantes desafios metodológicos, atuando frequentemente como um vetor para taxas elevadas de falsos-positivos na prática clínica. Esse fenômeno de sombreamento e confusão nosológica manifesta-se quando sintomas intrínsecos a transtornos do humor (afetivos), quadros de psicose ou mesmo transtornos alimentares são erroneamente interpretados pelo clínico como marcadores nucleares pertencentes ao espectro autista. Diante de tal vulnerabilidade avaliativa, o emprego isolado de ferramentas de triagem subjetivas mostra-se insuficiente para salvaguardar a validade do diagnóstico. Torna-se imperativo, portanto, recorrer a métricas psicométricas padronizadas e robustas, como a Escala de Observação para o Diagnóstico do Autismo, Segunda Edição (ADOS-2). A aplicação de ferramentas com alta sensibilidade e especificidade — capazes de mensurar adequadamente a proporção de verdadeiros-positivos (valor preditivo positivo) e de discriminar os verdadeiros-negativos (valor preditivo negativo) — configura-se como um recurso balizador essencial para a segregação rigorosa de tais espectros. (BLANCO et al., 2025).
A complexidade inerente à identificação de apresentações comórbidas em crianças e adolescentes reforça o colapso dos modelos puramente unidisciplinares de avaliação em saúde mental. A elucidação da sutil fronteira entre os prejuízos puramente atencionais, característicos do TDAH, e os déficits específicos de comunicação social, nucleares no TEA, depende crucialmente da condução de avaliações multidisciplinares integradas e abrangentes. O reconhecimento preciso das nuances clínicas e neuropsicológicas que individualizam cada transtorno assume um papel determinante não apenas para a redução de diagnósticos incorretos, mas primariamente para o delineamento de planos de tratamento eficazes e personalizados. Em suma, a transição para protocolos avaliativos estruturados e de alta ordem científica consolida-se como o único caminho viável para promover a intervenção precoce e assegurar uma evolução favorável nos desfechos desenvolvimentais dessa população infantojuvenil. (BLANCO et al., 2025).
Referência
BLANCO, Megi R. et al. Clinical Differentiation of Child Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Autism Spectrum Disorder. Archives of Clinical Neuropsychology, v. 40, n. 2, p. ii90, nov. 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1093/arclin/acaf084.086. Acesso em: 26 mai. 2026.

