A produção teatral brasileira desenvolvida no período imediatamente subsequente ao golpe civil-militar de 1964 constitui um dos capítulos mais complexos e esteticamente inventivos da história cultural do país. Sob o signo de uma censura institucionalizada e de um ambiente político marcadamente repressivo, dramaturgos e encenadores recorreram à intersecção de linguagens para articular respostas críticas à nova ordem social. Fenômeno de destaque nesse panorama é a convergência estrutural entre a dramaturgia de engajamento social, a música e os recursos cênicos inovadores. Esse amálgama estético-político manifestou-se de forma exemplar em obras marcantes do período, a saber, Doutor Getúlio, sua vida e sua glória (1968), de Dias Gomes e Ferreira Gullar, e O último carro (1977), de João das Neves, peças que reconfiguraram o palco como espaço de resistência ativa e reflexão historiográfica.
A articulação entre o texto teatral e a dimensão sonora operou não apenas como mero adorno espetacular, mas como elemento constitutivo da estrutura narrativa e vetor de politização. Em Doutor Getúlio, Dias Gomes e Ferreira Gullar utilizam a tragédia histórica do getulismo para traçar paralelos velados com o autoritarismo contemporâneo à escrita da peça. A inserção da música — sob a forma de uma narrativa carnavalesca conduzida por uma escola de samba — atua como um mecanismo de distanciamento crítico e, simultaneamente, de comunicação direta com as camadas populares, subvertendo a linearidade do drama histórico tradicional. Por sua vez, João das Neves, em O último carro, radicaliza a experiência espacial e sonora do espectador. Ao mimetizar a atmosfera claustrofóbica e alienante de um vagão de trem suburbano em movimento, o espetáculo integrou ruídos mecânicos, diálogos fragmentados e uma visualidade crua para converter a precariedade do transporte de massas em uma potente metáfora da exclusão social e do esmagamento do indivíduo sob o regime ditatorial.
Essas produções evidenciam que o engajamento do teatro brasileiro pós-1964 transcendeu a mera panfletagem ideológica, consolidando-se por meio de uma rigorosa pesquisa de linguagem técnica e formal. Ao fundirem a crônica social com sonoridades urbanas e brasileiras, os autores conseguiram desafiar as restrições normativas do período, resguardando a função social da arte enquanto fórum de debate e contestação coletiva. A investigação dessas obras e de seus processos de encenação revela como o teatro soube operar nas frinchas do sistema censório, unindo o rigor textual à pulsação sonora das ruas para imortalizar um testemunho estético indomável diante da opressão política e das profundas clivagens socioeconômicas do Brasil.
Referência (Formato ABNT):
PARANHOS, Kátia Rodrigues. Dias Gomes, Ferreira Gullar, and João das Neves: texts, sounds, and social engagement in post-1964 Brazil. Open Minds International Journal, v. 2, n. 12, art. 9, p. 1-15, jun. 2026.

