A apendicite aguda permanece estabelecida como uma das principais etiologias de abdome agudo cirúrgico no cenário global, afetando tanto a população pediátrica quanto a adulta. Contudo, o grande desafio propedêutico e terapêutico reside na transição da patologia para suas formas complicadas — caracterizadas clinicamente pela vigência de gangrena, perfuração tecidual, peritonite difusa ou abscessos peri-apendiculares —, condições intrinsecamente associadas à elevação das taxas de morbimortalidade e ao prolongamento do internamento hospitalar. Enquanto o manejo do quadro inflamatório não complicado se beneficia de uma apendicectomia convencional amplamente padronizada e resolutiva, a abordagem das variantes complicadas exige do cirurgião decisões intraoperatórias complexas e individualizadas que superam a simples exérese do órgão, demandando uma análise criteriosa das alterações anatômicas estruturais.
O advento e a consolidação da cirurgia minimamente invasiva promoveram uma quebra de paradigma na abordagem desse agravo, oferecendo benefícios técnicos expressivos. Evidências científicas demonstram que a apendicectomia laparoscópica, quando conduzida por equipes tecnicamente capacitadas, configura uma via de acesso segura e frequentemente preferencial, inclusive em cenários de alta complexidade. Esse método proporciona vantagens clínicas inequívocas, tais como a otimização da visualização panorâmica da cavidade peritoneal, redução do trauma tecidual na parede abdominal, menor incidência de infecção do sítio cirúrgico, atenuação da dor pós-operatória com consequente redução na demanda por analgésicos e menor tempo de internação hospitalar. Não obstante, a abordagem aberta por laparotomia resguarda sua indicação em cenários específicos, como na presença de contaminação fecal maciça, massas inflamatórias densamente bloqueadas ou diante da indisponibilidade de infraestrutura tecnológica adequada. Adicionalmente, a conversão cirúrgica de laparoscopia para cirurgia aberta não deve ser interpretada como um insucesso técnico, mas sim como uma decisão tática prudente diante de sangramentos incoercíveis, friabilidade tecidual extrema ou distorções severas dos planos anatômicos que impeçam uma progressão operatória segura.
A tomada de decisão atinge seu ponto mais crítico diante do comprometimento estrutural da base apendicular e do ceco adjacente. Nos casos em que a base se encontra íntegra, a ligadura simples ou o grampeamento do coto são considerados suficientes e seguros. Entretanto, a identificação de necrose transmural, perfuração calitrosa ou friabilidade do tecido cecal contraindica a tentativa de fechamento simples do apêndice, dado o risco iminente de deiscência de sutura, fístulas estercoráceas e sepse abdominal secundária. Nesses cenários desfavoráveis, impõe-se a realização de ressecções segmentares estendidas, variando desde a cecectomy parcial até a ileocecectomia ou hemicolectomia direita em situações extremas. Estudos recentes corroboram a exequibilidade e a segurança da ressecção ileocecal totalmente laparoscópica com confecção de anastomose intracorpórea em pacientes selecionados. A definição entre restabelecer o trânsito intestinal por meio de anastomose primária ou instituir uma ostomia de proteção deve ser rigidamente pautada na estabilidade hemodinâmica do paciente, no grau de contaminação bacteriana da cavidade e na viabilidade macroscópica dos tecidos expostos, priorizando-se o controle do foco infeccioso em detrimento de reconstruções de alto risco em ambientes desfavoráveis.
Outro aspecto que suscita debates na literatura cirúrgica tange à abordagem de grandes abscessos e plastrões peri-apendiculares. Nestes casos, a conduta inicial pode ser direcionada para o tratamento conservador, associando antibioticoterapia de amplo espectro à drenagem percutânea guiada por métodos de imagem, postergando a intervenção cirúrgica definitiva para um segundo momento de forma eletiva (apendicectomia de intervalo). Todavia, perante a refratariedade clínica ou deterioração do estado geral do paciente, a abordagem cirúrgica imediata com drenagem cirúrgica minuciosa torna-se mandatória, devendo-se evitar dissecções agressivas em tecidos intensamente inflamados. No que tange à higiene da cavidade, as evidências atuais demonstram que a lavagem peritoneal exaustiva com grandes volumes não reduz a incidência de abscessos intra-abdominais pós-operatórios quando comparada à aspiração direcionada das coleções, devendo o uso de drenos ser reservado de forma seletiva para casos com alto risco de coleções residuais ou anastomoses limítrofes. Em suma, o manejo da apendicite aguda complicada exige a flexibilização da técnica e o exercício de um julgamento clínico-cirúrgico refinado, uma vez que a literatura científica ainda carece de ensaios clínicos randomizados de grande escala capazes de padronizar universalmente as condutas diante de ressecções estendidas.
Referência (Formato ABNT):
SOUSA, Rômullo Brasileiro de; BEZERRA SEGUNDO, Prisco de Paiva. Surgical techniques in complicated acute appendicitis: a literature review. Open Minds International Journal, v. 2, n. 12, art. 3, p. 1-5, jun. 2026. DOI: https://doi.org/10.22533/at.ed.51572122610063.

