Home OpiniãoO Desafio Propedêutico do Abdome Agudo Inflamatório: Mimetismo Clínico e Implicações Cirúrgicas na Torção do Grande Omento

O Desafio Propedêutico do Abdome Agudo Inflamatório: Mimetismo Clínico e Implicações Cirúrgicas na Torção do Grande Omento

by Redação CPAH

A etiologia do abdome agudo inflamatório representa um dos cenários de maior exigência decisória na prática cirúrgica de urgência, no qual o mimetismo clínico de patologias raras pode induzir a erros diagnósticos no período pré-operatório. Entre essas condições de baixa incidência, a torção do grande omento configura uma entidade nosológica desafiadora, respondendo por aproximadamente 1,1% dos casos de dor abdominal aguda. Caracterizada pela rotação de um segmento omental ao redor do seu próprio eixo longitudinal, essa afecção compromete progressivamente o retorno venoso, induzindo congestão vascular, edema e extravasamento de fluido hemorrágico na cavidade peritoneal. Com a evolução do processo isquêmico, ocorre a oclusão arterial, culminando em infarto hemorrágico e necrose asséptica do tecido adiposo, um quadro fisiopatológico cujas manifestações mimetizam perfeitamente afecções de prevalência marcadamente superior, como a apendicite aguda, a colecistite aguda e a diverticulite em cólon direito.

A dificuldade na elucidação diagnóstica antes do ato cirúrgico é evidenciada pela literatura, a qual aponta que apenas 0,2% a 4,8% dos casos são identificados de forma precoce. Essa lacuna propedêutica decorre da sobreposição de sinais e sintomas com a síndrome apendicular clássica, expressa frequentemente por dor que migra da região periumbilical para a fossa ilíaca direita, anorexia e leucocitose correlata. Epidemiologicamente, a torção omental manifesta-se predominantemente em indivíduos do sexo masculino, com razão de 2:1 em relação ao sexo feminino, concentrando-se entre a terceira e a quinta décadas de vida. O sobrepeso e a obesidade atuam como importantes fatores predisponentes primários (ou idiopáticos), uma vez que o acúmulo ponderal eleva a pressão intra-abdominal e propicia o deslocamento abrupto de um omento volumetricamente aumentado ou que apresente variações anatômicas na distribuição de seu suprimento vascular.

Por outro lado, a variante secundária da torção omental decorre de condições intra-abdominais preexistentes, tais como neoplasias, aderências cicatriciais ou, mais frequentemente, a presença de uma hérnia inguinal ipsilateral, sobretudo à direita. Essa predileção anatômica justifica-se pela maior extensão e mobilidade do omento neste antro da cavidade. O mecanismo fisiopatológico associado estabelece que a introdução ou o encarceramento temporário do tecido omental no anel inguinal fixa a estrutura em uma posição anômala, impedindo sua destorção espontânea e deflagrando o insulto isquêmico. Embora a ultrassonografia abdominal seja rotineiramente empregada na urgência, seus achados — áreas hipoeóicas e massas sólidas ou líquidas — são inespecíficos e comumente interpretados de maneira errônea como apendicite aguda obstrutiva. A tomografia computadorizada destaca-se como o padrão-ouro radiológico ao evidenciar o sinal do redemoinho (whirlpool sign), caracterizado por estriações lineares concêntricas em uma massa adiposa. Contudo, sua eficácia é limitada na quantificação precisa da extensão da necrose, demandando estrita correlação com o estado clínico do paciente.

Diante do diagnóstico de torção omental com sinais de necrose tecidual ou em cenários de incerteza diagnóstica, a intervenção cirúrgica com omentectomia segmental consolida-se como a conduta padrão. Muito embora o manejo conservador possa ser aventado em pacientes hemodinamicamente estáveis com diagnóstico por imagem inequívoco, essa escolha terapêutica correlaciona-se a maiores taxas de morbidade a longo prazo, incluindo a formação de abscessos intracavitários e aderências firmes. A laparoscopia sobressai tanto como via diagnóstica quanto terapêutica por reduzir a morbidade operatória. Todavia, quando se opta pela laparotomia exploradora, a identificação incidental de um apêndice cecal macroscopicamente íntegro impõe a preservação do órgão e a ampliação da exploração cirúrgica para a identificação da real etiologia do abdome agudo. Em casos nos quais a torção é secundária a uma hérnia inguinal, a recomendação formal preconiza o reparo concomitante do defeito herniário para mitigar riscos de recidiva. Contudo, em cenários de urgência com efusão hemorrágica e processo inflamatório instalado, a postergação do reparo herniário eletivo mostra-se uma decisão tática prudente, visando evitar a contaminação do campo cirúrgico e potenciais infecções decorrentes do implante de telas sintéticas, garantindo assim a segurança do paciente.

Referência (Formato ABNT):

BIGOLIN, Laura de Lima; SOKOLOVSKY, André Carpena; SOARES, Rafael Netto. Torsion of the greater omentum: a case report on differential diagnoses. Open Minds International Journal, v. 2, n. 11, art. 11, p. 1-6, nov. 2026. DOI: https://doi.org/10.22533/at.ed.515721126010611.

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