Introdução
A audição musical é uma intervenção não farmacológica amplamente empregada devido à sua acessibilidade, baixo custo e capacidade de modular diversas funções neuropsicológicas. Estudos comportamentais demonstram consistentemente que ouvir música melhora a atenção e a memória de trabalho em sujeitos saudáveis e em populações clínicas. No entanto, os mecanismos neurobiológicos subjacentes e a forma como a música engaja as redes neurais funcionais do cérebro permaneceram incertos devido a achados inconsistentes na literatura de ressonância magnética funcional (fMRI). Essas inconsistências decorrem frequentemente de limitações no poder amostral, variabilidade metodológica, diferenças nos históricos de treinamento musical dos participantes e heterogeneidade nos estímulos e nas condições de controle utilizadas nos delineamentos experimentais.
Coativação de Redes Neurais Funcionais
Para mapear de forma rigorosa os padrões de ativação cerebral, realizou-se uma meta-análise de dados de fMRI em indivíduos saudáveis utilizando o método Seed-based d Mapping with Permutation of Subject Images (SDM-PSI), abrangendo 37 estudos e 50 experimentos. A análise global com ajuste para idade, proporção de sexo e condição de controle revelou uma coativação significativa bilateral em seis redes funcionais: a rede de atenção ventral (VAN), a rede somatomotora (SMN), a rede de modo padrão (default mode network ou DN), a rede de atenção dorsal (DAN), a rede frontoparietal (FPN) e a rede límbica (LIM). Anatomicamente, a escuta atenta ativou estruturas corticais (como o giro frontal inferior, ínsula, córtex pré/pós-central, operáculo rolândico, giro temporal superior, giro de Heschl e área motora suplementar), subcorticais (hipocampo, amígdala, tálamo e putamen) e cerebelares (crus I e lobulo hemisférico VI). Notou-se uma maior extensão de ativação no hemisfério direito para áreas corticais e subcorticais, enquanto o hemisfério esquerdo apresentou maior abrangência cerebelar.
O engajamento simultâneo dessas redes fornece uma explicação neurobiológica abrangente para os ganhos cognitivos observados comportamentalmente. As redes VAN e DAN atuam em cooperação na detecção de estímulos relevantes e na manutenção da atenção sustentada, enquanto a FPN sustenta o controle comportamental direcionado a metas e o processamento na memória de trabalho. A DN coordena a organização e eficiência do processamento de informações, e a SMN, juntamente com a área motora suplementar, facilita a integração sensorio-motora para o processamento auditivo. O recrutamento do giro frontal inferior, da área motora suplementar, do estriado dorsal e do cerebelo corrobora a hipótese do envolvimento do sistema de neurônios-espelho auditivos durante a escuta musical.
Modulação por Gênero Musical e Treinamento
As análises de subgrupo demonstraram que as características dos estímulos sonoros modulam padrões específicos de ativação cerebral. A música clássica foi o único gênero que ativou significativamente a rede límbica (incluindo a amígdala e o hipocampo) e o cerebelo. Quanto às áreas frontais, a escuta de música clássica e canções com letra apresentou uma ativação lateralizada no giro frontal inferior direito, padrão associado ao processamento de estruturas hierárquicas complexas e à interpretação de flutuações emocionais. Em contrapartida, sequências tonais simples engajaram o giro frontal inferior bilateralmente. Adicionalmente, a meta-regressão indicou que os anos de treinamento musical prévio dos participantes não se correlacionaram de forma significativa com a extensão das ativações cerebrais induzidas pela música.
Implicações Clínicas e Terapêuticas
O achado de que a audição musical ativa redes funcionais amplas, independentemente da experiência musical do indivíduo, fundamenta a sua aplicação em reabilitação neurológica. Pacientes acometidos por transtornos do espectro autista (TEA), que apresentam atipicidades no sistema de neurônios-espelho e na conectividade funcional de redes neurais, bem como pacientes com doença de Alzheimer, caracterizados por disfunções na rede de modo padrão e límbica, podem se beneficiar da modulação dessas redes por meio da música. A utilização da escuta musical atua na reorganização e regulação dos circuitos neurais alterados na patofisiologia dessas patologias.
Referência (Formatada estritamente segundo as normas ABNT – NBR 6023)
CHAN, Melody M. Y.; HAN, Yvonne M. Y. The functional brain networks activated by music listening: A neuroimaging meta-analysis and implications for treatment. Neuropsychology, v. 36, n. 4, p. 303–321, 2022. DOI: 10.1037/neu0000777.

