Home OpiniãoO Fenótipo Autista Feminino e os Desafios do Diagnóstico Tardio: Uma Análise Crítica das Diferenças de Sexo/Gênero nas Funções Executivas e Traços Clínicos

O Fenótipo Autista Feminino e os Desafios do Diagnóstico Tardio: Uma Análise Crítica das Diferenças de Sexo/Gênero nas Funções Executivas e Traços Clínicos

by Redação CPAH

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) consiste em uma condição pervasiva do neurodesenvolvimento caracterizada essencialmente por prejuízos na capacidade de iniciar e sustentar interações sociais recíprocas e comunicação, associados a padrões restritos, repetitivos e inflexíveis de comportamento, interesses ou atividades. Historicamente, as taxas epidemiológicas e a prática clínica têm demonstrado uma prevalência desproporcionalmente maior do diagnóstico em indivíduos do sexo masculino, com estimativas flutuando entre 3:1 e 4,3:1 ao longo do espectro autista. Contudo, postula-se que a real razão diagnóstica possa se situar mais próxima de 2:1 ou 3:1, uma vez que há uma evidente subnotificação e subdiagnóstico em mulheres. Essa assimetria é fortemente moderada pelo quociente de inteligência (QI), alcançando uma proporção de 5,75:1 em indivíduos com QI superior a 70, em contraste com a razão de 1,9:1 observada em subpopulações com deficiência intelectual concomitante (POLÓNYIOVÁ et al., 2026).

A disparidade nos diagnósticos decorre, em grande parte, da percepção generalizada do TEA como uma condição predominantemente masculina por profissionais da saúde e pelo público geral, bem como por vieses inerentes aos métodos diagnósticos padronizados, a exemplo do ADOS-2, cujos critérios foram estruturados majoritariamente com base no fenótipo autista masculino. Adicionalmente, as manifestações fenotípicas variam substancialmente entre os sexos. Enquanto os meninos frequentemente exibem comorbidades externalizantes e problemas comportamentais mais visíveis, como condutas agressivas , as meninas tendem a manifestar dificuldades internalizantes de menor visibilidade externa, incluindo quadros clínicos de ansiedade e depressão. Consequentemente, na ausência de déficits intelectuais ou comportamentais disruptivos adicionais, as meninas têm menor probabilidade de preencher os critérios diagnósticos convencionais, mesmo apresentando níveis equivalentemente elevados de traços autistas essenciais (POLÓNYIOVÁ et al., 2026).

O Fenômeno do Mascaramento Social e Traços Autistas

Um dos principais obstáculos para a identificação precoce do autismo em meninas sem deficiência intelectual reside na sua superior capacidade de mimetismo e aprendizagem social, o que viabiliza o desenvolvimento de mecanismos adaptativos conhecidos como “mascaramento” ou “camuflagem” social. Esse processo envolve estratégias cognitivas conscientes ou inconscientes para se integrarem ao ambiente social, tais como o planejamento prévio de conversações, a elaboração interna de roteiros comportamentais, a confecção de listas de respostas prossociais e a modulação artificial da voz para atenuar a monotonia tonal. Embora essas táticas funcionem temporariamente como estratégias de sobrevivência social, a camuflagem dos traços autistas durante as avaliações clínicas resulta frequentemente em diagnósticos falhos e na subsequente privação de suporte terapêutico e educacional adequado (POLÓNYIOVÁ et al., 2026).

No que tange aos traços autistas quantificados por instrumentos padronizados, as pesquisas demonstram que meninas diagnosticadas com TEA sem deficiência intelectual pontuam significativamente menos no domínio de comportamentos restritos, repetitivos e estereotipados em comparação aos meninos. Contudo, observações clínicas qualitativas indicam que as diferenças nos interesses restritos podem ser mais qualitativas do que quantitativas. Os interesses de meninas autistas frequentemente se assemelham aos tópicos de interesse de meninas neurotípicas — tais como artes, literatura, animais, moda, maquiagem e celebridades —, distinguindo-se não necessariamente pelo tema em si, mas pela intensidade pervasiva, foco e dedicação extrema dedicados a eles. Devido a essa sobreposição temática com o desenvolvimento típico feminino, tais interesses são muitas vezes considerados normais pelos pais e profissionais menos experientes, mascarando a necessidade de intervenção clínica (POLÓNYIOVÁ et al., 2026).

Funções Executivas e o Perfil Cognitivo

As funções executivas compreendem um conjunto de macroprocessos cognitivos de ordem superior indispensáveis para o comportamento direcionado a metas, englobando o controle emocional, a regulação cognitiva e o comportamento adaptativo. Em populações autistas em geral, independentemente do nível de inteligência, são amplamente documentados prejuízos na memória de trabalho verbal e visuoespacial, na inibição e na flexibilidade cognitiva. No entanto, análises comparativas robustas revelam discrepâncias críticas na expressão dessas disfunções entre os sexos. De acordo com os dados empíricos recentes coletados por Polónyiová e colaboradores (2026), baseados em uma amostra de 79 crianças em idade escolar (20 meninas e 59 meninos, com idades entre 6 e 12 anos e QI médio de 99,41) , não foram constatadas diferenças significativas nas habilidades intelectuais gerais ou na flexibilidade cognitiva mensurada diretamente por testes de desempenho laboratorial como o Wisconsin Card Sorting Test (WCST).

Em contrapartida, avaliações ecológicas baseadas nos relatos dos pais por meio do inventário BRIEF-2 demonstraram que as meninas com TEA enfrentam disfunções executivas marcadamente mais graves do que os meninos no cotidiano. Notavelmente, as meninas exibiram escores estatisticamente superiores — indicando maior nível de prejuízo — nas escalas clínicas de Alternância (Shift) e Iniciativa (Initiate), bem como nos índices compostos de Regulação Emocional e Regulação Cognitiva. Enquanto os meninos parecem se beneficiar de certas capacidades de inibição e flexibilidade como fatores protetivos contra comportamentos repetitivos de ordem superior , as disfunções executivas em meninas estão intimamente interligadas a maiores prejuízos na interação social recíproca e na comunicação interna. A gravidade acentuada dessas falhas na regulação interna sugere que o esforço contínuo despendido para camuflar sintomas e se adaptar socialmente impõe uma sobrecarga severa sobre os mecanismos de controle cognitivo e emocional das meninas, culminando em prejuízos executivos substanciais no ambiente familiar e prático (POLÓNYIOVÁ et al., 2026).

Considerações Finais e Implicações Clínicas

Em suma, as evidências empíricas atuais reiteram a premissa de que o Transtorno do Espectro Autista se expressa de maneira substancialmente distinta em meninas, configurando um perfil caracterizado por menor índice de comportamentos estereotipados clássicos e maior vulnerabilidade no campo das funções executivas e da regulação emocional. A ausência de diferenças significativas nos perfis de inteligência geral entre os sexos reforça que as barreiras diagnósticas não residem na capacidade cognitiva global, mas sim na sofisticação dos mecanismos de camuflagem social e na inadequação das ferramentas diagnósticas vigentes, que carecem de exemplos sensíveis ao fenótipo feminino. Compreender e integrar essas nuanças nas diretrizes diagnósticas é um passo fundamental para mitigar o viés de gênero na prática clínica, assegurando a identificação precoce, o acesso a recursos terapêuticos oportunos e o suporte indispensável para o desenvolvimento pleno das meninas autistas (POLÓNYIOVÁ et al., 2026).

Referência (Normas ABNT)

POLÓNYIOVÁ, Katarína; TELIČÁK, Peter; KYSELICOVÁ, Klaudia; DUKONYOVÁ, Dóra; OSTATNÍKOVÁ, Daniela. Sex/gender differences in autistic traits, intelligence and executive functions of school-aged autistic children without intellectual disability. Archives of Women’s Mental Health, v. 29, n. 9, p. 1-11, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s00737-025-01663-1. Acesso em: 24 maio 2026.

related posts

Leave a Comment

dezoito − 8 =

Translate »