A nosologia psiquiátrica tradicional, estruturada por manuais diagnósticos como o DSM-5-TR, delineia o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) como entidades clínicas categoricamente distintas e independentes. Enquanto o TEA é primariamente definido por déficits persistentes na comunicação social e padrões de comportamento restritos e repetitivos, o TDAH caracteriza-se por níveis crônicos e disfuncionais de desatenção, hiperatividade e impulsividade. Todavia, a prática clínica e a pesquisa neuropsicológica contemporânea têm confrontado essa rigidez diagnóstica devido às elevadas taxas de comorbidade entre ambas as condições, que chegam a afetar entre 30% e 80% das crianças diagnosticadas. Esse cenário de sobreposição diagnóstica levanta discussões profundas sobre se estamos diante de condições inteiramente independentes e coexistentes ou se tais transtornos compartilham um continuum de suscetibilidade genética e fenotípica comum, cujas fronteiras fenotípicas são muito mais tênues do que se postulava no passado (CRISCI; LIEVORE; MAMMARELLA, 2026).
A sobreposição fenotípica manifesta-se de forma acentuada quando se analisam os perfis comportamentais e neurocognitivos por meio de avaliações indiretas reportadas por pais e educadores. Estudos comparativos robustos — que avaliaram e parearam crianças e adolescentes com TEA, TDAH e desenvolvimento típico em variáveis demográficas cruciais como idade, sexo e Quociente de Inteligência (QI) — revelam que os dois grupos clínicos compartilham prejuízos severos e indistinguíveis em múltiplos domínios do desenvolvimento. Amostras clínicas compostas por indivíduos de 8 a 16 anos demonstram que tanto pacientes com autismo quanto aqueles com TDAH exibem déficits severos em Teoria da Mente (ToM), linguagem pragmática, habilidades sociais e problemas de comportamento internalizantes e externalizantes quando mensurados por instrumentos padronizados como o Behavior Assessment System for Children (BASC-2) e o Children’s Communication Checklist (CCC-2). Sob a perspectiva dos relatos parentais, a diferenciação quantitativa pura entre as duas patologias torna-se virtualmente impossível, sugerindo que os sintomas secundários de uma condição mimetizam ou se fundem com os sintomas primários da outra (CRISCI; LIEVORE; MAMMARELLA, 2026).
Essa homogeneidade superficial nos questionários parentais contrasta com as sutilezas observadas em medidas de desempenho laboratorial direto, especialmente na avaliação dos componentes da atenção. Quando submetidos a testes de desempenho contínuo (Continuous Performance Test – CPT), emergem divergências metodológicas fundamentais entre os grupos. Crianças e adolescentes acometidos por TDAH tendem a manifestar maiores taxas de omissões e comissões de erros, bem como uma variabilidade acentuada no tempo de reação, o que reflete disfunções estruturais nos mecanismos de sustentação da atenção e controle inibitório. Em contrapartida, indivíduos no espectro autista exibem, com frequência, um perfil de desempenho laboratorial relativamente preservado em tarefas atencionais puras ou específicas, evidenciando que seus prejuízos cotidianos reportados pelos pais podem estar mais relacionados à sobrecarga cognitiva gerada pela demanda de interações sociais e à inflexibilidade do que a um déficit de atenção primário. Essas nuanças são cruciais e demonstram que as ferramentas de heteroavaliação dependem do contexto de observação, o que pode mascarar os mecanismos cognitivos subjacentes (CRISCI; LIEVORE; MAMMARELLA, 2026).
Para superar as limitações das classificações puramente categóricas e compreender a real arquitetura desses transtornos, a adoção de abordagens baseadas em dados (data-driven) e análises de classes latentes tem se provado revolucionária. Ao clusterizar os perfis funcionais com base no desempenho neuropsicológico e nos sintomas transversais, ao invés de usar os rótulos diagnósticos prévios, a literatura científica recente identificou a emergência de três perfis ou perfis funcionais distintos: um perfil “Pouco Prejudicado” (Mildly Impaired), composto predominantemente por indivíduos de desenvolvimento típico; um perfil “Altamente Prejudicado” (Severely Impaired), caracterizado por severos déficits sociais, de linguagem e comportamentais; e um perfil “Moderadamente Prejudicado” (Moderately Impaired), marcado por prejuízos intermediários. Surpreendentemente, a distribuição dos pacientes com diagnóstico prévio de TEA e TDAH ocorreu de maneira diluída e fragmentada entre os perfis funcionais moderado e severo. Uma parcela substancial de indivíduos com TDAH foi alocada no perfil mais grave devido a graves disfunções na linguagem pragmática e nas habilidades sociais, enquanto vários participantes autistas integraram o perfil moderado. Esse fenômeno estatístico comprova empiricamente que as categorias diagnósticas tradicionais falham em capturar a heterogeneidade e a severidade funcional real do indivíduo (CRISCI; LIEVORE; MAMMARELLA, 2026).
Em suma, os dados científicos sublinham a necessidade premente de uma transição de paradigma na psiquiatria e na psicologia do desenvolvimento, distanciando-se de modelos puramente categóricos em prol de uma abordagem dimensional e transdiagnóstica. As linhas que separam o TEA e o TDAH são comprovadamente difusas na prática clínica, e o foco exclusivo nos sintomas nucleares de cada transtorno pode resultar em avaliações incompletas e intervenções terapêuticas ineficazes. Compreender o perfil funcional específico de cada paciente — mapeando detalhadamente suas competências em teoria da mente, comunicação pragmática e controle executivo — é o caminho metodológico correto para desenhar planos de suporte psicopedagógico e farmacológico personalizados, mitigando os impactos funcionais e promovendo o desenvolvimento pleno e saudável de crianças e adolescentes neurodivergentes (CRISCI; LIEVORE; MAMMARELLA, 2026).
Referência (Normas ABNT)
CRISCI, Giulia; LIEVORE, Rachele; MAMMARELLA, Irene C. Blurred lines: Investigating functional profiles in autism and ADHD across key developmental domains. Research in Developmental Disabilities, v. 170, n. 105240, p. 1-13, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.redevdis.2026.105240. Acesso em: 24 maio 2026.

