A Síndrome de Charles Bonnet (SCB) configura uma das condições neuro-oftalmológicas mais intrigantes da medicina contemporânea, situando-se na complexa intersecção entre a perda sensorial periférica e a resposta compensatória central. Descrita originalmente em 1760 pelo naturalista suíço Charles Bonnet , a síndrome é clinicamente caracterizada pela manifestação de alucinações visuais complexas e recorrentes em indivíduos afetados por um declínio severo ou total da acuidade visual. O elemento patognomônico e definidor dessa condição reside na preservação estrita das funções cognitivas e do juízo crítico de realidade; ou seja, os pacientes mantêm plena ciência do caráter irreal e ilusório das imagens percebidas, discernindo-as de episódios psicóticos clássicos. Apesar de sua prevalência expressiva — estimada entre 10% e 30% da população com deficiência visual significativa, acometendo majoritariamente a população idosa devido ao avanço de doenças oculares degenerativas —, a SCB permanece amplamente subdiagnosticada no cenário da saúde pública.
O principal obstáculo à identificação precoce da síndrome decorre do estigma e do receio psicossocial vivenciados pelos pacientes. Temendo serem rotulados com patologias de ordem psiquiátrica ou quadros demenciais progressivos, muitos indivíduos optam pelo isolamento e pelo silêncio clínico. Esse cenário é agravado pela carência de familiaridade e treinamento técnico por parte de uma parcela das equipes de saúde, o que resulta na má interpretação das queixas clínicas e, por vezes, na condução a diagnósticos errôneos de psicose primária, delirium ou neurodegeneração. Epidemiologicamente, os fatores etiológicos que precipitam a síndrome correspondem a quadros oftalmológicos que induzem perda substancial de acuidade, tais como a degeneração macular relacionada à idade (DMRI), glaucoma, catarata, retinopatia diabética, descolamento de retina, neurite óptica e demais neuropatias ópticas. Embora o perfil prevalente seja geriátrico, a literatura científica documenta a ocorrência da síndrome em jovens expostos a perdas visuais agudas ou lesões estruturais no nervo óptico.
Do ponto de vista fisiopatológico, o modelo mais robustamente aceito assenta-se na teoria da deafferentação sensorial e na subsequente hiperexcitabilidade cortical. Em condições de integridade fisiológica, o fluxo contínuo de estímulos aferentes oriundos da retina exerce um papel modulador e homeostático sobre a atividade do córtex visual. Diante da privação sensorial crônica ou abrupta, ocorre um fenômeno de desinibição funcional nas áreas corticais de processamento visual secundário. Na ausência de input periférico, essas regiões passam a manifestar hiperatividade espontânea e autônoma, culminando na projeção e na formação de imagens complexas sem correspondência no ambiente externo. Este mecanismo correlaciona-se diretamente ao fenômeno da “dor em membro fantasma” observado em indivíduos amputados, em que o sistema nervoso central emula percepções sensoriais na ausência de sinalização periférica. Adicionalmente, modelos neurobiológicos recentes propõem desajustes nos mecanismos de processamento preditivo cerebral, apontando para um desequilíbrio adaptativo entre os estímulos ascendentes (bottom-up) e as interpretações corticais descendentes (top-down). Estudos funcionais de neuroimagem corroboram essas hipóteses ao evidenciar ativações metabólicas metabolicamente ativas e específicas no córtex visual síncronas aos episódios alucitatórios.
As manifestações clínicas da Síndrome de Charles Bonnet traduzem-se por uma fenomenologia visual rica e heterogênea. As alucinações compreendem desde padrões geométricos elementares até construções cênicas elaboradas, incluindo figuras humanas, faces distorcidas, animais, edifícios, paisagens naturais e objetos detalhados, frequentemente dotados de movimento, vivacidade e policromia. As crises possuem caráter episódico, variando em duração de segundos a horas, e manifestam-se preferencialmente em ambientes com baixa luminosidade, estados de repouso físico ou sob condições de isolamento socio-sensorial. O diagnóstico da SCB é estritamente clínico e pauta-se em critérios de exclusão, demandando a comprovação de déficit visual concomitante à integridade cognitiva e à ausência de transtornos psiquiátricos de base. Torna-se imperativo realizar uma anamnese minuciosa associada a exames oftalmológicos e neurológicos estruturais para traçar o diagnóstico diferencial frente a patologias como a esquizofrenia, demências, epilepsia occipital, doença de Parkinson, enxaqueca com aura, quadros de delirium e neoplasias intracranianas.
Por se tratar de uma condição de natureza benigna sob a perspectiva neurológica, não há uma abordagem farmacológica padronizada ou universalmente eficaz estabelecida na literatura médica. O manejo terapêutico de primeira linha fundamenta-se em intervenções de caráter educacional e psicossocial. A elucidação da etiologia neurobiológica da síndrome e a desmistificação do quadro como perturbação mental atuam como os principais vetores na atenuação da ansiedade, do estresse emocional e da depressão secundária que afetam a qualidade de vida do paciente. Medidas práticas incluem a otimização da reabilitação visual, a ampliação da iluminação dos ambientes domésticos, o combate ao isolamento através do estímulo às interações sociais e a aplicação de técnicas de distração visual (como o ato de piscar ou mover os olhos voluntariamente). Em situações refratárias e de acentuado sofrimento psíquico, o uso experimental e adjuvante de psicofármacos — tais como antipsicóticos atípicos, anticonvulsivantes, antidepressivos e inibidores seletivos da recaptação de serotonina — tem sido relatado, embora com desfechos clínicos inconsistentes e variáveis. Conclui-se que o refinamento científico e a disseminação do conhecimento acerca da Síndrome de Charles Bonnet, por meio de uma abordagem médica multidisciplinar, são premissas indispensáveis para garantir a dignidade clínica, mitigar impactos psicossociais e propiciar um envelhecimento assistido com qualidade de vida.
Referência (Formatada conforme as normas da ABNT):
PRIMEIRA, Mônica dos Santos et al. Charles Bonnet Syndrome: clinical, diagnostic, and therapeutic aspects – a narrative review of the literature. Open Minds International Journal, vol. 2, n. 11, art. 10, p. 1-7, 2026. DOI: https://doi.org/10.22533/at.ed.515721126010610. Disponível em: bases de dados PubMed, SciELO, Google Scholar e BVS. Acesso em: 19 jun. 2026.

