Home OpiniãoA Intersecção Clínica entre TEA e TDAH na Infância: Repercussões no Rastreio e na Abordagem Neurodesenvolvimentual

A Intersecção Clínica entre TEA e TDAH na Infância: Repercussões no Rastreio e na Abordagem Neurodesenvolvimentual

by Redação CPAH

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) são condições neurodesenvolvimentais complexas que se iniciam classicamente na infância e provocam repercussões multifatoriais de ordem funcional, acadêmica e psicossocial. Historicamente demarcados por fronteiras diagnósticas rígidas, dados contemporâneos indicam que ambos os quadros possuem uma hereditariedade poligênica e uma maior incidência epidemiológica no sexo masculino. Embora compartilhem disfunções nas funções executivas e sobreposição de manifestações comportamentais, representam entidades clínicas distintas que coocorrem com expressiva frequência. Investigações científicas indicam que a identificação tempestiva desses sintomas desempenha um papel determinante na modelagem do curso evolutivo e no prognóstico do paciente. No entanto, a sobreposição das manifestações clínicas e a presença de traços subclínicos funcionam frequentemente como fatores de obscurecimento para as equipes de saúde mental, dificultando a triagem de comorbidades e impactando a eficácia das terapêuticas implementadas.

Com o intuito de esquadrinhar a prevalência e a severidade dos sinais atencionais e motores na população autista, estudos empíricos têm recorrido a instrumentos psicométricos padronizados, com destaque para a versão brasileira do Questionário de Swanson, Nolan e Pelham versão IV (SNAP-IV). Em investigações clínicas realizadas com amostras de 72 pais de crianças diagnosticadas com TEA, evidenciou-se uma frequência acentuadamente elevada na exteriorização de sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade. A aplicação de análises estatísticas inferenciais revelou diferenças estatisticamente significativas entre as médias das crianças que sinalizavam sintomas marcantes de inatensão (t=10,97; p<0,000) e hiperatividade/impulsividade (t=9,08; p<0,000) frente àquelas que não os manifestavam de forma proeminente. Itens específicos da escala SNAP-IV, tais como a falha em prestar atenção a detalhes e cometer erros por descuido em atividades escolares, bem como a dificuldade crônica em sustentar a atenção em tarefas ou jogos, obtiveram médias substancialmente elevadas nos grupos sintomáticos (2,38 e 2,30, respectivamente), discriminando-os rigorosamente daqueles sem tais queixas (1,66 e 1,40) com elevados níveis de significância estatística (p=0,000).

Um dos vértices mais complexos na avaliação do neurodesenvolvimento infantil refere-se à influência mútua entre as competências linguísticas e a expressão comportamental disruptiva. Postula-se na literatura especializada que perfis de comunicação atípicos intrínsecos ao espectro autista podem modular e enviesar a exteriorização ou a percepção dos níveis de inatensão e agitação motora. Todavia, ao estratificar os sujeitos de acordo com marcadores específicos de linguagem verbal — comparando de forma empírica o subgrupo de crianças que utilizavam palavras para estabelecer comunicação com aquelas que não faziam uso de nenhuma palavra verbal —, análises baseadas no teste de qui-quadrado não identificaram disparidades ou variações estatisticamente significativas. Esse achado preliminar sinaliza que a severidade fenotípica dos sintomas de TDAH em pacientes autistas independe do nível de proficiência da fala rudimentar, reforçando a premissa de que a desatencionalidade e a hipercinesia derivam de vulnerabilidades neurobiológicas intrínsecas e transversais à malha do neurodesenvolvimento.

Em suma, a constatação de altos índices de manifestações de TDAH em crianças com diagnóstico de TEA consolida a necessidade de uma abordagem dimensional e atenta na clínica infantojuvenil. A presença desses sintomas concomitantes impõe riscos adicionais à funcionalidade do indivíduo, uma vez que manifestações subclínicas atencionais não manejadas podem se sobrepor e comprometer o aproveitamento de intervenções terapêuticas e pedagógicas direcionadas ao autismo. Desse modo, o rastreio sistemático e a avaliação integrada das comorbidades neurodesenvolvimentais configuram-se como imperativos metodológicos. Superar as limitações de ferramentas puramente indiretas e expandir as amostras populacionais em pesquisas futuras permitirá refinar o diagnóstico diferencial e consolidar protocolos de suporte mais assertivos, capazes de atenuar os prejuízos cumulativos e potencializar as habilidades adaptativas dessas crianças.

Referência

TELES DA HORA, Ana Flávia Lima; LOUZÃ NETO, Mario Rodrigues. TEA e TDAH em crianças: um estudo preliminar. Psico, Porto Alegre, v. 54, n. 2, p. 1-8, jan.-dez. 2023. Disponível em: http://dx.doi.org/10.15448/1980-8623.2023.2.41923. Acesso em: 27 mai. 2026.

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