Introdução
O consumo de açúcares na dieta contemporânea representa um dos principais determinantes nutricionais associados ao desenvolvimento e à progressão de diversas patologias crônicas não transmissíveis. Os açúcares alimentares abrangem os monossacarídeos (como glicose, frutose e galactose), os dissacarídeos (como sacarose, lactose e maltose), os polióis, os açúcares livres e os açúcares adicionados. Os açúcares livres referem-se aos monossacarídeos e dissacarídeos adicionados aos alimentos por fabricantes, cozinheiros ou consumidores, bem como aos açúcares naturalmente presentes no mel, xaropes e sucos de frutas. Já os açúcares adicionados compreendem os carboidratos mono e dissacarídeos incorporados durante o processamento e preparo de alimentos e bebidas, excluindo-se os açúcares intrínsecos de frutas inteiras. As bebidas adoçadas com açúcar (BAA) — que incluem refrigerantes, sucos artificiais e bebidas esportivas ou energéticas — configuram a principal fonte individual de açúcares adicionados e livres na dieta populacional.
A despeito da vasta literatura epidemiológica, a heterogeneidade metodológica, as divergências nas definições de exposição e os vieses inerentes aos estudos observacionais dificultavam a consolidação do nexo de causalidade entre a ingestão de açúcares e múltiplos desfechos clínicos. Diante dessa lacuna, Huang et al. (2023) conduziram uma umbrella review (revisão guarda-chuva) de meta-análises para avaliar rigorosamente a validade, o nível de evidência e os potenciais vieses das associações entre o consumo alimentar de açúcar e 83 desfechos de saúde distintos.
Efeitos Endócrinos, Metabólicos e Cardiovasculares
A análise dos dados sintetizados revelou que o consumo elevado de açúcar, sobretudo na forma de BAA e frutose, exerce efeitos predominantemente nocivos sobre o perfil metabólico e cardiovascular. Evidências de qualidade moderada e fraca indicam que a maior ingestão de BAA está diretamente associada ao ganho de peso corporal, elevação do índice de massa corporal (IMC) em crianças e aumento da incidência de obesidade. Adicionalmente, a ingestão de açúcares adicionados correlaciona-se com o acúmulo ectópico de gordura, incluindo a adiposidade hepática e muscular.
No âmbito das disfunções metabólicas, o consumo sistemático de BAA associa-se ao incremento na incidência de síndrome metabólica e diabetes mellitus tipo 2 (DMT2). Em análises de dose-resposta, cada incremento de 250 mL/dia no consumo de BAA elevou o risco de DMT2 em 27%. Sob a perspectiva da cinética do ácido úrico, o consumo de BAA e de frutose promoveu hiperuricemia e aumentou o risco de gota. O mecanismo biológico subjacente envolve a fosforylação da frutose no fígado pela frutoquinase, processo que consome trifosfato de adenosina (ATP) e gera monofosfato de adenosina (AMP), estimulando a via de degradação dos nucleotídeos de purina e a consequente síntese de novo de ácido úrico.
No sistema cardiovascular, o consumo de BAA demonstrou associação direta com o aumento da pressão arterial sistólica em crianças e adolescentes e com o risco de hipertensão arterial sistêmica em adultos. Análises longitudinais indicam que o incremento diário de 250 mL de BAA está associado a um aumento de 17% no risco de doença arterial coronariana, 7% no risco de acidente vascular cerebral (AVC) e 8% na mortalidade por doenças cardiovasculares. Curiosamente, observou-se uma associação protetora pontual entre a ingestão de sacarose e a redução da mortalidade cardiovascular e de DMT2. Todavia, os autores ressaltam que tal achado deve ser interpretado com cautela, visto que a sacarose é frequentemente consumida através de matrizes alimentares sólidas e ricas em nutrientes (como grãos integrais, frutas e laticínios), cujos componentes benéficos atuam como fatores de confusão.
Implicações Oncológicas e Outros Desfechos Sistêmicos
A relação entre o consumo de açúcares e a oncogênese permanece um campo de intensa investigação. A revisão identificou associações desfavoráveis entre a ingestão de BAA e a incidência de adenocarcinoma mamário, carcinoma hepatocelular e de próstata, além do risco de mortalidade por câncer em geral. Especificamente quanto à frutose, a ingestão incremental de 25 g/dia associou-se a um aumento de 22% no risco de câncer de pâncreas. Os mecanismos propostos englobam a indução de hiperinsulinemia crônica, resistência à insulina, alteração da microbiota intestinal, inflamação sistêmica de baixo grau e estímulo à lipogênese de novo induzida por intermediários glicolíticos.
Em relação a outros sistemas, o consumo de BAA mostrou-se associado à presença de esteatose hepática não alcoólica, depressão, cárie e erosão dentária, déficit de densidade mineral óssea em mulheres e aumento do risco de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e asma em crianças. Por outro lado, a única associação protetora observada para BAA refere-se à redução do risco de glioma, um resultado derivado de apenas dois estudos de coorte e desprovido de plausibilidade biológica consolidada.
Discussão Crítica e Recomendações
Embora a literatura apresente uma abundância de associações estatisticamente significativas, a avaliação pelo sistema GRADE e pelos critérios de classificação de evidência revelou que a maior parte das evidências disponíveis provém de estudos observacionais, sendo classificada de qualidade “baixa” ou “muito baixa”. Vieses de medição da ingestão alimentar, heterogeneidade metodológica e potenciais fatores de confusão residuais (como padrões alimentares globais e estilo de vida inativo) atenuam a força causal definitiva para determinados desfechos.
Apesar dessas limitações, a consistência dos dados cardiometabólicos fundamenta a necessidade de intervenções em saúde pública. Com base na síntese dos achados e nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), recomenda-se a restrição do consumo de açúcares livres ou adicionados a patamares inferiores a 25 g/dia (aproximadamente 6 colheres de chá por dia) e a limitação da ingestão de bebidas adoçadas com açúcar a menos de uma porção por semana (cerca de 200 a 355 mL/semana) para conter o fardo global das doenças não transmissíveis.
Referência Bibliográfica (Norma ABNT)
HUANG, Yin et al. Dietary sugar consumption and health: umbrella review. BMJ, London, v. 381, e071609, p. 1-15, apr. 2023. DOI: https://doi.org/10.1136/bmj-2022-071609.

