Home OpiniãoDiferenças entre Sexos e Gêneros nos Traços Autistas, Inteligência e Funções Executivas em Crianças sem Deficiência Intelectual: Desconstruindo Vieses Diagnósticos

Diferenças entre Sexos e Gêneros nos Traços Autistas, Inteligência e Funções Executivas em Crianças sem Deficiência Intelectual: Desconstruindo Vieses Diagnósticos

by Redação CPAH

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem sido historicamente diagnosticado e investigado com base em uma amostragem predominantemente masculina, o que acabou por moldar critérios diagnósticos e ferramentas de avaliação clínica que podem não capturar adequadamente a manifestação fenotípica no sexo feminino. Esse viés androcêntrico na neuropsiquiatria e na psicologia do desenvolvimento gera repercussões clínicas severas, resultando frequentemente no subdiagnóstico, no diagnóstico tardio ou no erro de identificação nosológica em meninas. Diante dessa problemática, investigações contemporâneas de caráter comparativo tornam-se imperativas para analisar de forma minuciosa as potenciais divergências e semelhanças nos traços autistas, nos perfis de inteligência e nas funções executivas entre meninas e meninos em idade escolar formalmente diagnosticados com TEA e que não apresentam deficiência intelectual associada. A elucidação dessas nuanças perfilométricas desempenha um papel crítico para o aprimoramento da precisão diagnóstica, para a mitigação de preconceitos de gênero na prática clínica e para o desenho de suportes terapêuticos individualizados. (POLÓNYIOVÁ et al., 2026).

Do ponto de vista metodológico e de amostragem, as análises de perfil baseiam-se no exame de coortes pediátricas clinicamente ativas, compreendendo faixas etárias escolares cruciais situadas entre os 6 e os 12 anos de idade. Para garantir a robustez e a fidedignidade dos dados quantitativos obtidos, os traços autistas são mapeados de forma combinada por meio de instrumentos considerados o padrão-ouro internacional na área do neurodesenvolvimento: o Autism Diagnostic Observation Schedule – Second Version (ADOS-2) e o Autism Diagnostic Interview-Revised (ADI-R). Paralelamente, o quociente de inteligência e os domínios cognitivos gerais são mensurados por meio das Edições Internacionais II do teste Woodcock-Johnson (WJ IE II). A avaliação do funcionamento executivo — que gerencia habilidades neurocognitivas de alto nível necessárias para a flexibilidade adaptativa, planejamento e controle inibitório — é conduzida de forma multidimensional por testes de desempenho direto, como o Wisconsin Card Sorting Test (WCST), e por inventários comportamentais respondidos pelos cuidadores, como o Behavior Rating Inventory of Executive Function 2 (BRIEF-2). (POLÓNYIOVÁ et al., 2026).

Os resultados derivados dessa abordagem psicométrica e observacional multidimensional trazem revelações fundamentais sobre a assimetria fenotípica entre os sexos. No que tange à severidade dos traços autistas medidos diretamente pelo ADOS-2, as meninas exibem pontuações significativamente inferiores em comparação com os meninos. Essa menor pontuação em escalas de observação direta reflete o que a literatura especializada denomina fenômeno do “mascaramento social” ou camuflagem (social camouflaging), no qual as meninas autistas utilizam estratégias cognitivas conscientes ou imitações neurotípicas para ocultar suas dificuldades de interação e comunicação, evadindo-se dos critérios tradicionais de triagem. Adicionalmente, quando os traços são avaliados por meio da entrevista retrospectiva com os pais (ADI-R), os escores das meninas também se manifestam de forma reduzida, sugerindo que as manifestações comportamentais femininas podem ser interpretadas de maneira distinta pelos cuidadores ou expressar-se com menor disrupção externa. (POLÓNYIOVÁ et al., 2026).

No domínio das capacidades intelectuais e do desempenho cognitivo mensurado pelas subescalas do Woodcock-Johnson, emergem contrastes marcantes que desafiam visões simplistas sobre o funcionamento cognitivo no espectro. As meninas com TEA sem deficiência intelectual apresentam um desempenho superior e escores mais elevados em testes que avaliam o processamento visual e as habilidades espaciais em comparação com os meninos autistas pareados. Esse achado indica um ponto forte neurocognitivo específico no perfil feminino, sugerindo que estratégias de aprendizagem baseadas em suportes visuoespaciais complexos podem ser particularmente eficazes para esse subgrupo. Por outro lado, a avaliação detalhada das funções executivas por meio do teste neuropsicológico WCST e do inventário ecológico BRIEF-2 não documentou diferenças estatisticamente significativas entre os sexos nas medidas gerais de flexibilidade cognitiva, persistência de conjunto e resolução de problemas. Esse panorama indica que, embora a expressão dos traços sociais e certas ilhas de competência intelectual difiram, o cerne das vulnerabilidades nas funções executivas permanece um traço transdiagnóstico compartilhado de maneira equitativa entre meninos e meninas no espectro. (POLÓNYIOVÁ et al., 2026).

Em suma, a constatação de que meninas em idade escolar com TEA e sem deficiência intelectual exibem menores escores em traços autistas clássicos e uma superioridade em habilidades de processamento visual consolida a necessidade premente de uma revisão crítica nas práticas de triagem e diagnóstico. A menor pontuação observada nos instrumentos diagnósticos convencionais não deve ser erroneamente interpretada como uma ausência de necessidade de suporte, mas sim como um indicativo de que as manifestações clínicas femininas são mais sutis, internalizadas e frequentemente mascaradas por mecanismos adaptativos complexos. O avanço seguro da psicologia clínica e da neuropsiquiatria em direção a uma era de equidade exige o desenvolvimento e a validação de normas específicas por sexo/gênero para as ferramentas de diagnóstico, assegurando que as meninas autistas recebam a identificação precoce e as intervenções sob medida necessárias para garantir o seu pleno desenvolvimento acadêmico, social e emocional ao longo de toda a vida. (POLÓNYIOVÁ et al., 2026).

Referência (Normas ABNT)

POLÓNYIOVÁ, Katarína; TELIČÁK, Peter; KYSELICOVÁ, Klaudia; DUKONYOVÁ, Dóra; OSTATNÍKOVÁ, Daniela. Sex/gender differences in autistic traits, intelligence and executive functions of school-aged autistic children without intellectual disability. Archives of Women’s Mental Health, v. 29, n. 9, p. 1-13, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s00737-025-01663-1. Acesso em: 24 maio 2026.

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