O delineamento de ambientes de trabalho saudáveis e sustentáveis tem se consolidado como um vetor estratégico fundamental nas ciências organizacionais contemporâneas. Sob os preceitos da psicologia positiva aplicada ao trabalho e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), o foco das intervenções corporativas deslocou-se do mero gerenciamento de patologias ocupacionais para a promoção ativa do bem-estar psicológico e do capital humano resiliente. Dentro desse novo paradigma, a habilidade de instituir, manter e otimizar conexões interpessoais saudáveis — construto denominado como manejo relacional positivo — emerge como uma competência central. Investigar os determinantes psicológicos que governam essa capacidade em ambientes laborais é crucial para estruturar programas de desenvolvimento de lideranças e equipes capazes de sustentar o crescimento organizacional diante de pressões de mercado.
Tradicionalmente, a literatura científica ancorou a predição dos comportamentos interpessoais nos modelos taxonômicos de personalidade, com proeminência para o modelo dos Cinco Grandes Fatores (Big Five), que engloba as dimensões de Extroversão, Amabilidade, Conscienciosidade, Estabilidade Emocional (reverso do Neuroticismo) e Abertura para a Experiência. Embora essas características estáveis de personalidade exerçam um papel inegável na predisposição das interações sociais, investigações recentes passaram a postular que elas não esgotam a variabilidade associada ao sucesso relacional no trabalho. Esse cenário impulsionou a inserção do construto da Inteligência Emocional de Traço (trait emotional intelligence), definida como uma constelação de autopercepções e disposições comportamentais situadas nos níveis inferiores da hierarquia da personalidade, refletindo a capacidade individual de processar, regular e aplicar informações de cunho afetivo em contextos sociais complexos.
A relevância teórica dessa diferenciação ganhou robustez empírica definitiva por meio de um estudo analítico transversal que examinou uma amostra de 144 trabalhadores na Itália. Por meio de uma modelagem metodológica rigorosa assentada em análises de regressão linear hierárquica, os investigadores controlaram estatisticamente os efeitos das variáveis demográficas e dos traços de personalidade medidos pelo Big Five Questionnaire (BFQ) antes de inserir a inteligência emocional (mensurada via Trait Emotional Intelligence Questionnaire Short Form – TEIQue-SF) como preditora da Escala de Manejo Relacional Positivo (Positive Relational Management Scale – PRMS). Os resultados desvelaram que a inteligência emocional de traço demonstrou validade incremental estatisticamente significativa, sendo capaz de explicar entre 14% e 16% de variância adicional no manejo relacional positivo, superando de forma robusta as contribuições prévias estabelecidas exclusivamente pelas características fixas de personalidade.
O impacto desse incremento se manifesta de forma segregada nas três dimensões que estruturam a PRMS: o Respeito (atitude de valorização do outro e cuidado com as conexões), a Tolerância (capacidade de aceitar e integrar perspectivas divergentes) e a Vivacidade (fator ligado à vitalidade e ao engajamento ativo nas relações). A análise detalhada das regressões demonstrou que a inteligência emocional de traço atua como o preditor positivo mais expressivo para todas as três subescalas. Enquanto determinados traços de personalidade, como a Amabilidade e a Estabilidade Emocional, perdem poder de significação ou exibem efeitos parciais quando analisados em conjunto, a inteligência emocional mantém uma associação linear forte e estável, consolidando-se como o motor psicodinâmico primordial para a sustentabilidade relacional no ecossistema de trabalho.
Em suma, os achados científicos baseados nessa investigação trazem implicações práticas profundas para a gestão de pessoas e para a psicologia organizacional. Ao evidenciar que o manejo relacional positivo é governado majoritariamente pela inteligência emocional — um construto substancialmente mais maleável e passível de aprimoramento por meio de treinamentos específicos do que os traços rígidos de personalidade —, abrem-se horizontes promissores para o desenho de intervenções de prevenção primária nas empresas. Protocolos estruturados para o desenvolvimento de competências socioemocionais não apenas potencializam a performance individual e grupal, mas atuam como uma estratégia altamente eficaz para fomentar climas organizacionais pautados pelo respeito mútuo, resiliência coletiva e sustentabilidade humana no trabalho.
Referência
DI FABIO, Annamaria; SAKLOFSKE, Donald H. Positive Relational Management for Sustainable Development: Beyond Personality Traits – The Contribution of Emotional Intelligence. Sustainability, v. 11, n. 2, 330, p. 1-9, jan. 2019. Disponível em: https://doi.org/10.3390/su11020330. Acesso em: 30 jun. 2026.

