A procrastinação, compreendida como o adiamento intencional e sistemático de ações e tarefas que possuem um prazo determinado para cumprimento, constitui um fenômeno comportamental complexo e pervasivo que afeta os mais diversos domínios da atividade humana. No contexto educacional, a procrastinação acadêmica manifesta-se como uma tendência crônica dos estudantes em adiar o início ou a finalização de deveres escolares e preparações para avaliações. Embora o corpo robusto do conhecimento científico acumulado sobre o tema seja predominantemente derivado de investigações com amostras de nível universitário, torna-se imperativo transpor esse escopo analítico para as etapas iniciais do desenvolvimento humano. Evidências empíricas mapeadas por meio de revisões de escopo (scoping reviews) demonstram que esse comportamento não apenas emerge precocemente, mas consolida-se durante a infância e a adolescência, atuando como um fator crítico de vulnerabilidade no percurso escolar básico.
Ao contrário do senso comum, que frequentemente associa o ato de adiar à preguiça ou à apatia, indivíduos que procrastinam possuem o desejo e a intenção manifesta de executar a atividade, contudo, enfrentam severas barreiras na tradução de suas intenções em ações concretas de iniciação, manutenção e conclusão de metas. Sob a ótica da psicologia cognitiva e comportamental, a procrastinação acadêmica é caracterizada como uma disfunção multidimensional que engloba componentes cognitivos, afetivos e comportamentais. Fundamentalmente, o fenômeno é definido como uma falha crônica nos mecanismos de autorregulação e de controle da ação, combinada a estratégias desadaptativas de esquiva comportamental diante de tarefas percebidas como aversivas, tediosas ou geradoras de ansiedade. Esse quadro é frequentemente intensificado pelo medo crônico do fracasso, pelo perfeccionismo mal-adaptativo e por baixos índices de autoeficácia percebida, nos quais o estudante posterga a tarefa como um mecanismo inconsciente de proteção da sua autoimagem contra uma possível avaliação negativa de suas competências intelectuais.
As análises decorrentes de revisões de literatura científica, que englobam metodologias diversificadas — desde delineamentos observacionais ex post facto até ensaios controlados e randomizados —, isolam variáveis cruciais distribuídas em domínios intrapessoais, de aprendizagem, de saúde e relacionais. No plano do aprendizado e da cognição, a procrastinação em crianças e adolescentes correlaciona-se de forma inversa com o desempenho acadêmico global, atuando como um preditor linear do abandono escolar precoce e da evasão de disciplinas. Na dimensão da saúde psicofisiológica, o adiamento crônico de deveres escolares repercute gravemente no bem-estar do menor, manifestando-se por meio de distúrbios do sono, estresse somatizado, sintomas de ansiedade e episódios depressivos. A investigação rigorosa dessas variáveis em coortes infantojuvenis revela-se indispensável para o desenho de intervenções clínicas e psicoeducacionais precoces, visando mitigar os impactos deletérios que o comportamento procrastinatório exerce sobre a estabilidade emocional e o sucesso educacional ao longo do ciclo de vida.
Referência Completa (Padrão ABNT): GONZÁLEZ-BRIGNARDELLO, Marcela Paz; SÁNCHEZ-ELVIRA PANIAGUA, Angeles; LÓPEZ-GONZÁLEZ, M. Ángeles. Academic Procrastination in Children and Adolescents: A Scoping Review. Children, v. 10, n. 6, art. 1016, p. 1-23, jun. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.3390/children10061016. Acesso em: 20 jun. 2026.

