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Baleias tomam conta de uma costa do Ártico que ficou isolada por gelo durante séculos

Baleias-fin, jubarte e minke agora se alimentam em massa na costa leste da Groenlândia, um trecho de mar que durante séculos permaneceu bloqueado por uma espessa camada de gelo. A mudança, associada ao aquecimento das águas e ao colapso do fluxo de gelo marinho vindo do Ártico, também está transformando a relação dos narvais com esse ecossistema, que antes era exclusivo deles

by Redação CPAH

Durante boa parte dos últimos séculos, uma grossa camada de gelo pressionava a costa leste da Groenlândia, impedindo que grandes baleias avançassem para aquela região. No verão, porém, essa barreira praticamente some — e é justamente nesse período que baleias-fin, jubarte e minke passaram a se alimentar lado a lado ao longo da costa, chegando a áreas situadas acima de 70 graus de latitude norte, bem além do Círculo Polar Ártico.

Um estudo liderado pelo pesquisador dinamarquês Mads Peter Heide-Jørgensen, do Instituto de Recursos Naturais da Groenlândia, estima a presença de cerca de 4 mil baleias-jubarte e 6 mil baleias-fin na região, além de um número de baleias-minke que dobrou — passando para aproximadamente 6 mil animais — entre dois levantamentos realizados com quase dez anos de diferença. Em entrevista ao site Earth.com, Heide-Jørgensen afirmou que o dado que mais o surpreendeu foi o volume repentino de baleias-fin que passou a ocupar a plataforma continental da Groenlândia Oriental.

As baleias, no entanto, são apenas a face mais visível de uma transformação muito mais ampla em um ecossistema que, até poucas décadas atrás, pertencia quase exclusivamente a espécies adaptadas ao gelo ártico.

Décadas de registros mostrando a virada

A pista mais antiga da mudança vem de embarcações de pesquisa, que fazem contagens de baleias no Atlântico Norte a cada poucos anos, há quase quatro décadas. Antes de 2007, não havia nenhum registro de baleias-jubarte na Groenlândia Oriental. Naquele ano, sete indivíduos foram avistados; em 2015, o número já era 26; e em 2024, ultrapassou 150 animais.

As baleias-minke seguiram uma trajetória parecida, porém mais lenta: dois avistamentos em 1987, nenhum em 1989 ou 1995, e entre 10 e 20 animais em todos os levantamentos realizados após 2001. Já as baleias-fin, que já eram relativamente comuns no início das contagens, vêm crescendo em número de forma constante desde então.

A equipe de Heide-Jørgensen realizou o primeiro levantamento aéreo sistemático da costa em agosto de 2015 e repetiu o processo em agosto de 2024. Nos dois voos, que cobriram cerca de 50 km a partir da costa, os pesquisadores encontraram uma linha praticamente contínua de baleias ao longo de toda a extensão observada. No verão passado, um grupo de velejadores que passou pela costa norte de Blosseville, próxima à foz do Estreito de Scoresby, avistou grupos de 20 a 50 baleias-jubarte de uma só vez.

O capelim como explicação mais provável

A principal hipótese para essa movimentação é a presença do capelim, um pequeno peixe prateado de água fria que é a principal presa das três espécies de baleias. Como jubarte e fin não são caçadas no leste da Groenlândia, não há conteúdo estomacal dessas espécies para confirmar diretamente a dieta — por isso, a conclusão se apoia em evidências indiretas, reunidas em um artigo científico revisado por pares.

Duas baleias-minke capturadas em Scoresby Sound no mês de agosto tinham capelim no estômago. Salmões do Atlântico pescados perto de Tasiilaq no mesmo período também apresentavam capelim recém-ingerido. Caçadores da região de Tasiilaq relatam que o capelim é o principal alimento das baleias-minke desde o ano 2000, e as baleias-jubarte e fin costumam se alimentar ao lado de aves marinhas como pardelas, fulmares e gaivotas-tridáctilas, todas predadoras do mesmo peixe.

Os próprios peixes parecem ter se movimentado primeiro. Levantamentos pesqueiros indicam que, depois de 2003, o capelim deixou suas áreas tradicionais de alimentação de outono ao norte da Islândia e passou a ocupar a plataforma continental da Groenlândia. Um modelo publicado na revista científica Fisheries Oceanography estimou que essa espécie prefere águas entre 1°C e 4°C. O aquecimento das águas ao redor da Islândia é apontado pelos autores como fator provável por trás dessa migração — embora eles próprios tratem essa explicação como hipótese, e não como conclusão definitiva. Se confirmada, essa seria mais uma manifestação do movimento de deslocamento de espécies marinhas em direção aos polos, já observado em centenas de outras populações de peixes ao redor do mundo.

Mais de um milhão de toneladas de alimento por temporada

Para estimar o impacto dessas baleias sobre o ecossistema local, a equipe de Heide-Jørgensen rodou seus cálculos 10 mil vezes, variando o número estimado de baleias, o peso corporal, a ingestão diária e o tempo de permanência na região a cada rodada, em vez de usar valores fixos.

A estimativa inicial de permanência é de quatro meses, entre julho e outubro — dado reforçado por marcadores via satélite instalados em nove baleias-jubarte e seis baleias-fin, que indicaram que alguns animais ainda estavam na região em outubro. O cenário mais conservador aponta um consumo de mais de 880 mil toneladas de peixes e krill em uma única temporada. Se, como sugerem outros estudos, cerca de metade da ingestão anual de uma baleia-fin ocorrer de fato no verão, o total pode ultrapassar 1,1 milhão de toneladas.

Isso transforma essas três espécies em um novo e relevante predador de um peixe pequeno do qual também dependem diversos estoques pesqueiros comerciais. Os próprios autores reconhecem que o número é aproximado — cerca de 77% da incerteza do cálculo vem de um único fator: a dificuldade de saber, com precisão, quantas baleias existem no mundo. Ainda assim, eles acreditam que a real quantidade de alimento consumido esteja subestimada, já que muitas baleias avistadas durante os levantamentos não puderam ser identificadas por espécie e, por isso, ficaram de fora da contagem final.

Heide-Jørgensen acredita que a pesca comercial de capelim deve, com o tempo, seguir o cardume rumo ao norte — embora talvez não nas áreas costeiras do leste da Groenlândia, onde hoje se concentram as baleias.

Duas mudanças que aconteceram no mesmo ano

Dois fenômenos distintos parecem ter mudado essa costa praticamente na mesma época. Registros de temperatura por satélite, que remontam a 1981, mostram uma quebra estatística clara por volta do ano 2000 em todas as quatro estações do ano. As temperaturas de verão e outono subiram cerca de 1°C depois desse marco — uma variação pequena em termos absolutos, mas significativa para um peixe que vive dentro de uma faixa estreita de temperatura, como o capelim.

No mesmo período, o gelo marinho da região sofreu uma ruptura importante: no outono de 1999, os dois pontos de inflexão — temperatura da água e comportamento do gelo — coincidiram. Segundo os pesquisadores, esse gelo não é local: trata-se de gelo antigo e espesso que escoa do Oceano Ártico pelo Estreito de Fram, entre a Groenlândia e o arquipélago de Svalbard. Depois de 2000, esse fluxo caiu para o nível mais baixo em pelo menos 200 anos. O gelo plurianual que costumava percorrer esse trajeto se forma no Giro de Beaufort, uma corrente circular lenta ao norte do Alasca, a cerca de 5 mil quilômetros de distância das baleias.

Heide-Jørgensen, que conduziu o estudo em parceria com pesquisadores da Universidade de Copenhague, da Universidade de Aarhus e do Instituto de Pesquisa Marinha e de Água Doce da Islândia, descreveu essa conexão de longa distância como um dos achados mais notáveis do trabalho, ao afirmar que uma mudança físico-meteorológica ocorrida ao norte do Alasca pode alterar drasticamente um ecossistema a milhares de quilômetros dali, evidenciando o alcance das interações entre clima e ecossistemas globais.

Uma costa que os narvais já não têm só para eles

Antes dessa mudança, narvais e outras espécies dependentes do gelo eram praticamente os únicos habitantes dessa costa. Golfinhos-de-bico-branco chegaram à região na mesma “mudança de regime” observada no início dos anos 2000, e sua dieta no leste da Groenlândia também passou a ser dominada pelo capelim.

Para Heide-Jørgensen, no entanto, a chegada dessas espécies não representa concorrência direta para os narvais. Segundo ele, o verdadeiro fator de preocupação para essa espécie é a pressão de caça: a população do sudeste da Groenlândia já estaria em declínio e correria risco real de desaparecer caso a atividade continue no ritmo atual.

Na visão do pesquisador, as baleias funcionam como um sinal de mudança, não como um problema em si — espécies associadas ao gelo, como os narvais, estariam cada vez mais compartilhando (ou perdendo) seu habitat para baleias de clima temperado, que costumam evitar águas cobertas de gelo.

O que ainda não se sabe

Um ponto em aberto é como era essa costa antes do degelo. Durante décadas, o gelo flutuante impediu que embarcações de pesquisa alcançassem a plataforma continental nos meses de julho e agosto, o que significa que não existem registros precisos da quantidade de capelim e krill presentes na região na década de 1990. Por isso, ainda não é possível afirmar com certeza se as baleias encontraram uma fonte de alimento totalmente nova ou uma que já existia, mas que simplesmente era inacessível até o degelo.

Responder a essa pergunta exigiria coletar amostras estomacais de duas espécies que não são caçadas na região, além de novos levantamentos mais ao norte, no Mar da Groenlândia — onde avistamentos esporádicos sugerem uma quantidade de baleias bem maior do que a contabilizada neste estudo.

A pesquisa completa foi publicada na revista científica Frontiers in Marine Science. Fonte: Earth.com

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