À medida que a humanidade se prepara para retornar à Lua por meio do programa Artemis, pesquisadores da NASA e de diversas instituições internacionais acenderam um alerta: os microrganismos que levamos conosco podem sobreviver na superfície lunar por muito mais tempo do que se imaginava.
Segundo um estudo liderado pelo cientista planetário Prabal Saxena, do Goddard Space Flight Center da NASA, publicado na revista Science Advances, as condições únicas dos polos lunares fornecem “esconderijos” ideais para bactérias e fungos terrestres.
Onde os Microrganismos se Escondem?
Historicamente, acreditava-se que o ambiente lunar — caracterizado pelo vácuo absoluto, variações extremas de temperatura e radiação intensa — destruiria rapidamente qualquer forma de vida terrestre não protegida. No entanto, os polos da Lua apresentam uma topografia particular.
Como o Sol atinge os polos em um ângulo extremamente baixo, cristas e bordas de crateras projetam sombras profundas e prolongadas. Algumas regiões, conhecidas como Regiões Permanentemente Sombreadas (PSRs), jamais recebem luz solar direta.
- O verdadeiro vilão é a radiação: O estudo demonstrou que o vácuo e as baixas temperaturas não matam os micróbios de imediato; na verdade, o frio extremo pode agir como um processo de liofilização, preservando-os. O fator mais letal é a radiação ultravioleta (UV) do Sol.
- Protetor solar natural: Ao se abrigarem nas áreas de sombra das crateras, os microrganismos ficam protegidos do bombardeio de raios UV, estendendo sua sobrevivência de dias para semanas ou até meses.
- Sombras artificiais: Os pesquisadores alertam que até mesmo pegadas de astronautas, sulcos de rovers e pequenas perfurações podem criar micro-sombras suficientes para abrigar bactérias.
Os “Viajantes” Mais Resistentes
A pesquisa combinou dados topográficos e térmicos da sonda Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO) com testes de laboratório em microrganismos associados à microbiota humana e a ambientes de espaçonaves.
| Microrganismo | Tipo | Onde é encontrado | Nível de Resistência na Lua |
| Aspergillus niger | Fungo | Mofo negro comum em banheiros e na Estação Espacial | Mais resistente: Pode persistir por mais de 7 dias em até 30% das áreas mapeadas. |
| Deinococcus radiodurans | Bactéria | Ambientes extremófilos | Alta: Famosa por suportar doses extremas de radiação. |
| Bacillus subtilis | Bactéria | Solo e trato gastrointestinal | Média/Alta: Forma esporos protetores capazes de resistir ao estresse ambiental. |
| Staphylococcus aureus | Bactéria | Pele e mucosa humana | Média: Sobrevive em áreas protegidas dentro das PSRs. |
| Fusarium | Fungo | Plantas e solo | Média: Apresentou capacidade de sobrevivência prolongada na sombra. |
Nota importante:Sobreviver não significa colonizar. Os cientistas enfatizam que esses microrganismos permanecem dormentes. Para que houvesse reprodução ou crescimento, seria necessária a presença de água líquida e nutrientes disponíveis, condições que a Lua não oferece.
O Conflito Científico: Preservação vs. Exploração
A sobrevivência dessas espécies gera um dilema direto para a astrobiologia e a química planetária:
- Risco de Falsos Positivos: Os polos lunares abrigam depósitos de gelo de água preservados há bilhões de anos, contendo registros químicos primordiais sobre a origem da água e dos compostos orgânicos no Sistema Solar. A presença de DNA, proteínas ou matéria orgânica levada por humanos pode “sujar” o registro científico, tornando difícil diferenciar o que é nativo do que foi importado da Terra.
- Oportunidade Científica Inédita: Como a contaminação zero é praticamente impossível em missões humanas, os cientistas propõem transformar o problema em um experimento de campo. Monitorar quais espécies sobrevivem e como se degradam ao longo do tempo ajudará a entender os limites da vida no espaço e fornecerá lições valiosas para futuras missões a Marte, onde o risco de contaminação cruzada é ainda mais crítico.

