O cenário contemporâneo da psiquiatria biológica e da psicologia clínica enfrenta a necessidade de revisar os modelos tradicionais de diagnóstico e tratamento dos transtornos alimentares (TA). Historicamente abordados de maneira isolada ou associados majoritariamente a disfunções psicossociais e afetivas primárias, condições como a Anorexia Nervosa, a Bulimia Nervosa e o Transtorno da Compulsão Alimentar vêm revelando uma estreita interconexão neurobiológica com o espectro da neurodivergência. Entre as manifestações neurodesenvolvimentais de maior relevância nessa interface, destacam-se o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) e a sua coocorrência fenotípica simultânea, frequentemente denominada na literatura médica como AuDHD. A análise de dados ecológicos reais acumulados ao longo de triênios em serviços especializados de saúde mental documenta de forma contundente uma prevalência acentuada dessas condições em pacientes internados ou em regime de hospital-dia para o tratamento de TA. Essa realidade epidemiológica impõe a superação de visões reducionistas e exige que os serviços clínicos integrem de forma precoce e sistemática o rastreamento da neurodiversidade em seus protocolos padrão, sob o risco de perpetuar intervenções terapêuticas ineficazes e iatrogênicas. (MAKIN; ALLEN; TCHANTURIA, 2026).
A caracterização psicométrica e clínica das populações assistidas em unidades de transtornos alimentares revela nuanças críticas que diferenciam de forma marcante os perfis neurodivergentes do padrão neurotípico tradicional. Pacientes com TA que apresentam traços autistas ou diagnósticos formais de TEA frequentemente exibem rigidez cognitiva exacerbada, intolerância a transições na rotina e severas disfunções no processamento sensorial. Nesses indivíduos, a restrição alimentar severa ou a recusa de determinados grupos de alimentos muitas vezes não se apoia primariamente na distorção clássica da imagem corporal, mas sim em hipersensibilidades a texturas, odores e temperaturas, ou no desejo de manter uma previsibilidade existencial rígida. Por outro lado, a presença de TDAH comórbido introduz o componente da impulsividade crônica, falhas severas nas funções executivas de autorregulação e uma busca disfuncional por recompensa dopaminérgica, o que predispõe o indivíduo a ciclos intensos de purgação e episódios de compulsão alimentar massiva. (MAKIN; ALLEN; TCHANTURIA, 2026).
O aspecto mais complexo desse panorama reside no subgrupo de pacientes que manifestam o fenótipo AuDHD, caracterizado pela concomitância crônica de traços de autismo e de TDAH. Esses indivíduos vivenciam um conflito neurocognitivo interno permanente: enquanto a faceta autista demanda rotina, estrutura milimétrica e previsibilidade absoluta para mitigar a ansiedade basal, o componente hiperativo e atencional do TDAH impulsiona o sujeito em direção à busca contínua por novidade, estimulação sensorial e comportamentos impulsivos. No âmbito dos transtornos alimentares, essa dissonância interna traduz-se em perfis psicopatológicos altamente instáveis, nos quais o paciente oscila de forma drástica entre a restrição extrema (comportamento anoréxico governado pelo autismo) e episódios agudos de descontrole compulsivo (comportamento bulímico ou de compulsão governado pelo TDAH). A falha em reconhecer essa sinergia patológica resulta no mascaramento do diagnóstico correto, retardando o acesso a suportes clínicos adaptados e perpetuando o sofrimento psíquico periférico. (MAKIN; ALLEN; TCHANTURIA, 2026).
Adicionalmente, as análises de trajetórias terapêuticas demonstram de forma inequívoca que os pacientes neurodivergentes apresentam taxas substancialmente maiores de cronicidade, maior tempo de permanência em regimes de internação e uma resposta inferior aos protocolos psicoterapêuticos convencionais, como a Terapia Cognitivo-Comportamental padrão para transtornos alimentares. Esse fenômeno ocorre porque as intervenções tradicionais pressupõem uma cognição e uma regulação emocional de base neurotípica, falhando em acomodar as necessidades de comunicação direta, as demandas de acomodação sensorial e o ritmo diferenciado de processamento dessas pessoas. Diante dessa vulnerabilidade clínica, a literatura científica de vanguarda advoga pela transição urgente em direção a ambientes e abordagens baseados no respeito à neurodiversidade. Isso inclui a modificação estrutural das enfermarias, a redução de estímulos sensoriais aversivos na hora das refeições e a flexibilização de regras terapêuticas excessivamente rígidas que desconsideram a biologia e o funcionamento neurológico do paciente. (MAKIN; ALLEN; TCHANTURIA, 2026).
Em suma, a constatação de que o autismo, o TDAH e o fenótipo AuDHD constituem eixos transversais de alta prevalência nos serviços de transtornos alimentares inaugura um período de profunda reflexão ética e científica na saúde mental contemporânea. O acolhimento da neurodiversidade não deve ser encarado como uma prática secundária ou opcional, mas sim como um pilar fundante para o sucesso de qualquer intervenção translacional de precisão. Torna-se imperativo o investimento maciço na capacitação de equipes multidisciplinares e no desenvolvimento de diretrizes clínicas integradas que saibam discernir o que constitui um sintoma clássico de transtorno alimentar daquilo que é uma expressão legítima de um funcionamento neurológico atípico. Somente substituindo o antigo modelo médico patologizante por uma ecologia assistencial inclusiva, transdisciplinar e sensível às diferenças individuais será possível mitigar o estigma, otimizar as taxas de recuperação e assegurar a dignidade e a autonomia plena de todos os pacientes ao longo de seu ciclo vital. (MAKIN; ALLEN; TCHANTURIA, 2026).
Referência (Normas ABNT)
MAKIN, Louise; ALLEN, Kate; TCHANTURIA, Kate. Time to notice neurodiversity in eating disorder services: a three-year real-world analysis of autism, ADHD, and AuDHD. Frontiers in Psychiatry, v. 17, n. 1787957, p. 1-12, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fpsyt.2026.1787957. Acesso em: 24 maio 2026.

