Por: Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues
Durante décadas, a Síndrome de Ehlers-Danlos (SED) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) foram tratados como territórios clínicos completamente separados. A SED ficou sob responsabilidade de geneticistas e reumatologistas; o TEA, de psiquiatras e neuropediatras. O resultado prático dessa fragmentação foi que a mesma pessoa podia transitar por anos entre consultórios sem que ninguém fizesse a pergunta óbvia: esses dois diagnósticos aparecem juntos com mais frequência do que o acaso explicaria?
A resposta, segundo a evidência científica acumulada, é sim.
A revisão sistemática com metanálise de Baeza-Velasco et al. (2025), publicada no periódico Autism, analisou 20 estudos que examinaram a relação entre TEA, hipermobilidade articular, Transtornos do Espectro da Hipermobilidade (HSD) e SED. Dos 15 estudos que examinaram a associação entre TEA ou traços autistas e hipermobilidade articular, HSD ou SED, 12 reportaram resultados significativos. A prevalência global de hipermobilidade articular em indivíduos autistas foi de 22,3%, subindo para 31% quando apenas os estudos com avaliação clínica eram considerados, excluindo-se os de autorrelato. Quanto à SED e HSD especificamente, a prevalência global em amostras autistas foi de 27,9%, mas chegou a 39% quando a avaliação do diagnóstico foi conduzida clinicamente.
Esses números não são triviais. Estamos falando de que, em amostras clínicas, quase quatro em cada dez indivíduos autistas avaliados apresentam critérios para SED ou HSD.
A relação, porém, não é unidirecional. Pesquisadores verificaram que duas condições de espectro clinicamente heterogêneas, o TEA e os Transtornos de Hipermobilidade Articular, co-ocorrem com mais frequência do que seria esperado ao acaso, embora sejam atendidas por especialidades médicas completamente distintas. Casanova et al. (2020), no Journal of Personalized Medicine, revisaram os mecanismos neurobiológicos e genéticos que aproximam as duas condições e propuseram que a SED/HSD pode representar um subtipo de autismo, dada a sobreposição de comorbidades, co-ocorrência familiar e semelhanças nos perfis autonômico e imunológico.
Do ponto de vista genético, os autores identificaram 35 genes associados simultaneamente à hipermobilidade e ao autismo. Ao mapear esses genes em redes de interação, os conjuntos genéticos da SED e do autismo com hipermobilidade formaram agrupamentos extensos, sugerindo interações substanciais entre essas redes e um mecanismo potencial para a sobreposição fenotípica.
A neurobiologia também aponta na mesma direção. Diferenças estruturais cerebrais em indivíduos com hipermobilidade foram identificadas em regiões envolvidas no processamento emocional, atenção, controle cognitivo da dor e emoções negativas, incluindo a amígdala bilateral, o cingulado anterior e o lobo parietal, áreas cujas alterações também são descritas no autismo.
Há ainda uma dimensão clínica de consequências práticas graves: a dor crônica. A SED, particularmente o subtipo hipermóvel (hSED), provoca dor musculoesquelética, cefaleia e dor visceral. Em pessoas autistas, a percepção e a expressão da dor seguem padrões atípicos, o que torna a identificação da comorbidade ainda mais difícil. Pacientes com TEA que também apresentam Transtornos de Hipermobilidade são atendidos por especialidades distintas, e o vínculo entre as condições raramente é estabelecido no contexto clínico, apesar do crescente corpo de evidências que sugere a co-ocorrência acima do esperado pelo acaso. O risco concreto é que a dor, já subestimada em pessoas autistas por barreiras comunicativas, permaneça não diagnosticada e não tratada quando a SED está subjacente.
Outro fator que amplifica o problema é o retardo diagnóstico histórico da SED. O atraso diagnóstico foi estimado em 14 anos para metade dos pacientes com SED, e 28 anos para um quarto deles, constituindo o maior atraso diagnóstico entre 16 doenças raras avaliadas. Quando se acrescenta a isso o subdiagnóstico do autismo em mulheres, que representam a maioria dos casos de hSED, o problema se agrava: como o hSED é predominantemente diagnosticado em mulheres, é provável que as condições do espectro autista sejam subidentificadas nessa subpopulação clínica, cujo perfil de apresentação frequentemente difere do masculino e cuja habilidade de mascaramento social é maior.
O que os dados exigem, portanto, não é apenas mais pesquisa, embora ela seja necessária. Exigem uma mudança de prática clínica. Profissionais que atendem indivíduos autistas deveriam incluir rastreamento sistemático de hipermobilidade articular e sinais de conectivopatia. Da mesma forma, geneticistas e reumatologistas que acompanham pacientes com SED deveriam considerar avaliação para transtornos do neurodesenvolvimento, particularmente em mulheres com queixas sociais e sensoriais que, até então, foram atribuídas à dor ou à fadiga crônica.
A ciência já conectou os pontos. Cabe à clínica fazer o mesmo.
Referências
Baeza-Velasco, C., Vergne, J., Poli, M., Kalisch, L., & Calati, R. (2025). Autism in the context of joint hypermobility, hypermobility spectrum disorders, and Ehlers–Danlos syndromes: A systematic review and prevalence meta-analyses. Autism, 29(8), 1939–1958. https://doi.org/10.1177/13623613251328059
Baeza-Velasco, C., Cohen, D., Hamonet, C., Vlamynck, E., Diaz, L., Cravero, C., Cappe, É., & Guinchat, V. (2018). Autism, joint hypermobility-related disorders and pain. Frontiers in Psychiatry, 9. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2018.00656
Casanova, M., Baeza-Velasco, C., Buchanan, C. B., & Casanova, M. F. (2020). The relationship between autism and Ehlers-Danlos syndromes/hypermobility spectrum disorders. Journal of Personalized Medicine, 10(4), 260. https://doi.org/10.3390/jpm10040260
Morlino, S., Dordoni, C., Sperduti, I., Clark, C., Piedimonte, C., Fontana, A., Colombi, M., Grammatico, P., Copetti, M., & Castori, M. (2018). Italian validation of the functional difficulties questionnaire (FDQ-9) and its correlation with major determinants of quality of life in adults with hypermobile Ehlers–Danlos syndrome/hypermobility spectrum disorder. American Journal of Medical Genetics Part B: Neuropsychiatric Genetics, 180(1), 25–34. https://doi.org/10.1002/ajmg.b.32698

