Resumo: O uso de intervenções restritivas — tais como restrições físicas, químicas, mecânicas e o isolamento — em ambientes de saúde mental permanece um tema crítico e amplamente debatido globalmente, dadas as suas implicações éticas, os riscos de reiteração de traumas e os potenciais danos físicos. Este artigo de opinião informativo analisa as evidências extraídas de um estudo longitudinal quantitativo que investigou a prevalência e a natureza dessas práticas aplicadas a mulheres com condições de saúde mental, dificuldades de aprendizagem ou autismo na Inglaterra, entre 2018 e 2022. Os dados oficiais revelam uma tendência de crescimento contínuo no volume absoluto de restrições relatadas, impulsionada de forma proeminente pelo uso repetitivo de contenções físicas e químicas em um subgrupo restrito de pacientes. Esses achados sublinham a necessidade urgente de reformular as estratégias de cuidado, enfatizando abordagens baseadas no trauma e modelos organizacionais focados na redução sustentada de medidas coercitivas.
Introdução
As intervenções restritivas nos serviços de saúde mental representam um dos maiores desafios contemporâneos para a prática clínica e a garantia dos direitos humanos. Definidas como ações que limitam a liberdade de movimento de um indivíduo, tais medidas incluem a restrição física (imobilização por profissionais), química (administração forçada de medicação com o propósito de controlar o comportamento), mecânica (uso de dispositivos) e a segregação ou isolamento. Embora justificadas historicamente sob a égide da contenção de riscos imediatos de auto ou heteroagressão, a literatura científica contemporânea aponta de forma consistente que essas práticas são intrinsecamente ligadas a desfechos adversos, incluindo lesões corporais, trauma psicológico severo e, em casos extremos, óbito.
No que concerne à saúde mental da mulher, a problemática adquire contornos ainda mais complexos. Uma proporção expressiva de mulheres internadas em unidades psiquiátricas possui histórico prévio de abuso físico e sexual. Consequentemente, o ato de ser submetida a uma contenção física — que frequentemente envolve a aplicação de força no solo por múltiplos profissionais — pode atuar como um gatilho potente para a retraumatização, mimetizando a dinâmica de violência interpessoal anteriormente vivenciada. Portanto, o mapeamento sistemático da prevalência dessas intervenções constitui uma ferramenta epidemiológica indispensável para avaliar a segurança e a qualidade do ambiente terapêutico.
Metodologia e Fonte de Dados
As evidências epidemiológicas discutidas derivam de uma análise quantitativa longitudinal fundamentada em dados secundários oficiais extraídos do Mental Health Services Data Set (MHSDS), gerenciado pelo NHS England. A amostragem compreendeu o monitoramento contínuo das notificações de intervenções restritivas registradas no período entre 1º de abril de 2018 e 31 de março de 2022. A população-alvo do estudo consistiu especificamente em mulheres diagnosticadas com condições de saúde mental, dificuldades de aprendizagem ou autismo que receberam assistência em serviços psiquiátricos secundários na Inglaterra.
As variáveis de interesse analisadas incluíram o volume total de restrições notificadas, o número absoluto de pacientes únicas submetidas a tais procedimentos e a tipologia das intervenções (física, química, mecânica, isolamento e restrição alfandegária/outras). O estudo utilizou abordagens estatísticas descritivas para traçar as tendências temporais e calcular métricas de frequência, permitindo diferenciar o comportamento epidemiológico geral daquele observado em subgrupos específicos de alta recorrência.
Resultados: Tendências Temporais e Padrões de Restrição
Os resultados indicam um padrão de crescimento contínuo e estatisticamente alarmante no volume total de intervenções restritivas registradas ao longo do quadriênio avaliado. No ano fiscal de 2018/19, os serviços notificaram um total de 43.195 intervenções restritivas aplicadas a mulheres. Esse quantitativo expandiu-se de forma progressiva nos períodos subsequentes: atingiu 46.510 incidentes em 2019/20, elevou-se para 49.330 em 2020/21 e alcançou o pico de 54.010 intervenções no período de 2021/22. Em termos percentuais, constata-se um aumento de aproximadamente 25% no número absoluto de restrições relatadas entre o início e o término da série temporal examinada.
Contudo, ao analisar o contingente de indivíduos únicos que sofreram essas ações, observa-se uma dinâmica epidemiológica distinta e marcadamente assimétrica. O número de mulheres únicas submetidas a restrições permaneceu relativamente estável ou apresentou oscilações discretas: foram 6.535 mulheres em 2018/19; 6.645 em 2019/20; 6.220 em 2020/21; e 6.550 no período final de 2021/22.
A desconexão matemática entre o aumento expressivo no volume total de incidentes e a estabilidade no número de pacientes atendidas desvela um fenômeno clínico crítico: o aumento na frequência de restrições repetidas direcionadas a um subgrupo restrito de indivíduos. Essa interpretação é corroborada pela trajetória da média de restrições por paciente ao longo dos anos. Enquanto em 2018/19 a taxa média de intervenções por indivíduo situava-se em 6,6, essa métrica elevou-se consecutivamente para 7,0 em 2019/20, avançou para 7,9 em 2020/21 e culminou em 8,2 intervenções por paciente em 2021/22.
No que tange à distribuição das modalidades coercitivas aplicadas, a restrição física consolidou-se como a técnica predominantemente empregada em todos os anos analisados. Em 2021/22, por exemplo, a contenção física perfez o total de 37.045 registros, o que equivale a mais de 68% do somatório global de intervenções restritivas direcionadas ao público feminino naquele período. A restrição química posicionou-se como a segunda categoria mais prevalente, computando 10.745 episódios no mesmo ano. Os dados demonstram que ambas as modalidades (física e química) exibiram trajetórias ascendentes consistentes ao longo do tempo, solidificando-se como as principais ferramentas de manejo comportamental utilizadas pelas equipes de assistência à saúde mental no contexto inglês.
Discussão: Implicações para as Políticas de Saúde Mental e Prática Clínica
Os achados desvelados pela análise longitudinal impõem uma reflexão crítica sobre a eficácia dos modelos de assistência psiquiátrica em vigor. O incremento sustentado no volume total de restrições físicas e químicas contrasta diretamente com as diretrizes políticas e normativas nacionais e internacionais que preconizam a redução drástica ou a eliminação progressiva de práticas coercitivas em ambientes de saúde mental.
A constatação de que um número reduzido de mulheres está sendo submetido a regimes intensificados e repetitivos de contenção sugere que as estratégias de descalonamento verbal e intervenções precoces podem estar falhando em mitigar crises de forma sustentada nesse nicho clínico. Esse padrão de alta frequência levanta preocupações severas quanto ao risco de habituação institucional ao uso da força e ao impacto cumulativo do trauma sobre a saúde dessas pacientes. A literatura indica que a repetição crônica de contenções pode deteriorar o vínculo terapêutico entre a paciente e a equipe de enfermagem, gerando um ciclo vicioso no qual o comportamento de crise e a coerção se retroalimentam.
Diante disso, torna-se imperativo discutir os fatores estruturais que permeiam o ambiente hospitalar psiquiátrico. Estudos paralelos sugerem que variáveis organizacionais, tais como déficits crônicos no dimensionamento de recursos humanos (falta de pessoal), rotatividade de funcionários, ausência de treinamento especializado em técnicas não violentas de manejo de crise e a infraestrutura física inadequada das enfermarias exercem influência direta nas taxas de restrição. Em cenários de sobrecarga crônica, as equipes tendem a recorrer de forma mais precoce e frequente a intervenções físicas e químicas como mecanismos de manutenção da ordem e segurança imediata.
Para reverter essa trajetória ascendente, os serviços de saúde mental devem adotar de forma sistemática modelos de cuidado informados pelo trauma (Trauma-Informed Care). Esses modelos baseiam-se no reconhecimento de que os comportamentos de crise muitas vezes constituem manifestações de sofrimento pós-traumático e necessitam de ambientes que priorizem a segurança psicológica, a previsibilidade e o empoderamento do paciente. Ferramentas consolidadas internacionalmente, como o protocolo Six Core Strategies, que envolve a liderança organizacional para redução de restrições, o uso de dados para monitorar práticas, o desenvolvimento de planos de segurança individualizados e a inclusão de defensores de pacientes (peer support) no desenho do cuidado, representam caminhos fundamentais para a transformação da prática assistencial.
Conclusão
A análise longitudinal dos dados oficiais da Inglaterra demonstra que, a despeito dos discursos institucionais voltados à minimização do uso de medidas coercitivas, a prevalência total de intervenções restritivas aplicadas a mulheres em serviços secundários de saúde mental experimentou um aumento contínuo entre 2018 e 2022. Esse crescimento reflete um padrão de intervenções repetidas e concentradas em indivíduos específicos, tendo a contenção física e química como eixos centrais. Tais achados funcionam como um indicativo epidemiológico de que mudanças puramente normativas são insuficientes se não forem acompanhadas por investimentos estruturais na capacitação de equipes, otimização de recursos humanos e na implementação efetiva de filosofias assistenciais centradas no paciente e orientadas pela mitigação do trauma.
Referência
FRADLEY, K.; HAINES-DELMONT, A. A longitudinal analysis of the prevalence of restrictive interventions involving women with mental health conditions, learning disabilities or autism in mental health services in England. Frontiers in Psychiatry, v. 17, art. 1787826, p. 1-14, 14 abr. 2026. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fpsyt.2026.1787826. Acesso em: 17 maio 2026.

