Home OpiniãoDepressão Masculina e a Carga Aguda de Saúde Mental: Desmistificando o Fenótipo Externador além do Sexo Biológico

Depressão Masculina e a Carga Aguda de Saúde Mental: Desmistificando o Fenótipo Externador além do Sexo Biológico

by Redação CPAH

Resumo: O constructo da depressão masculina fundamenta-se na manifestação de sintomas atípicos e predominantemente externadores — como a agressividade, o abuso de substâncias e o comportamento de risco —, divergindo dos critérios diagnósticos convencionais que priorizam manifestações internadoras. Este artigo analisa as evidências extraídas de um estudo de caso-controle e coorte que avaliou a carga psicopatológica aguda em pacientes com escores elevados de depressão masculina, utilizando as escalas Male Depression Risk Scale-22 (MDRS-22) e Symptom Checklist-90-Revised (SCL-90-R). Os achados demonstram que indivíduos com alta pontuação nesse fenótipo apresentam um incremento severo na gravidade global do sofrimento psíquico, com destaque para as dimensões de somatização, hostilidade, ideação paranoide e psicoticismo. Crucialmente, revelou-se que essa sobrecarga ocorre independentemente do sexo biológico dos indivíduos, o que desafia a concepção histórica de que tais manifestações atípicas constituem um distúrbio estritamente restrito aos homens e sinaliza a premência de abordagens diagnósticas mais sensíveis e abrangentes.


Introdução

Historicamente, o transtorno depressivo maior tem sido classificado na literatura epidemiológica como uma condição de prevalência dominantemente feminina, registrando taxas epidemiológicas estimadas em aproximadamente o dobro daquelas observadas na população masculina. Essa disparidade persistente, contudo, passou a ser questionada a partir da década de 1990 com a introdução do conceito de “depressão masculina”. Essa subcategoria teórica postula que os homens tendem a manifestar quadros depressivos por meio de sintomas atípicos que divergem dos critérios diagnósticos consolidados nos manuais nosológicos clássicos. Enquanto as escalas tradicionais priorizam sintomas de espectro internador (como humor deprimido, anedonia e culpa), o fenótipo da depressão masculina expressa-se majoritariamente por meio de mecanismos externadores, incluindo acessos de raiva, agressividade, supressão emocional, comportamento de risco e abuso de álcool e substâncias psicoativas. +4

A negligência institucional em relação a esse perfil sintomático resulta em um cenário crônico de subdiagnóstico e consequente ausência de suporte terapêutico adequado para esses pacientes. Todavia, investigações recentes que incorporaram ferramentas de triagem desenhadas para rastrear manifestações atípicas evidenciaram taxas de prevalência comparáveis entre ambos os sexos, sugerindo que o fenótipo externador não é uma exclusividade biológica masculina, mas sim um perfil comportamental e de resposta ao estresse que pode se manifestar de forma universal. O estudo em análise investiga a carga aguda de saúde mental associada a esse fenótipo, avaliando o perfil psicopatológico detalhado e testando se a severidade desse impacto se comporta de maneira independente do sexo biológico. +4


Metodologia e Caracterização da Amostra

O estudo foi delineado sob um formato de coorte comparativa, prospectiva e aberta, com um único ponto de coleta de dados por participante, integrando o escopo do denominado Masculine Depression Project. O recrutamento transcorreu entre os meses de maio de 2017 e novembro de 2019, em clínicas especializadas na Alemanha: o Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia da Friedrich-Alexander-University Erlangen-Nürnberg (FAU) e a Clínica de Psiquiatria, Adicção, Psicossomática e Psicoterapia no Europakanal, localizadas na cidade de Erlangen. +1

O processo de triagem inicial abrangeu 658 indivíduos. A amostra final elegível consistiu em 163 pacientes internados com episódios depressivos unipolares ou bipolares diagnosticados como moderados ou graves — conforme os critérios estabelecidos pela Classificação Internacional de Doenças (CID-10) e pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) — e 176 indivíduos voluntários saudáveis que atuaram como grupo de controle. Os critérios de inclusão exigiram idade mínima de 18 anos e Índice de Massa Corporal (IMC) situado estritamente na faixa de 18,5 kg/m2 a 35 kg/m2, um limite predefinido com o intuito de atenuar potenciais fatores de confundimento metabólico e endócrino nas análises de biomarcadores. Pacientes com quadros concomitantes de transtornos psicóticos foram sumariamente excluídos do estudo. A composição de gênero na amostra de pacientes internados correspondeu a 56% de homens (n = 91) e 44% de mulheres (n = 72) , ao passo que o grupo de controle saudável reuniu 49% de homens e 51% de mulheres. +4

A coleta de dados foi centralizada em sessões computadorizadas de testes psicométricos com duração de 3 a 4 horas por participante. Utilizou-se a escala Male Depression Risk Scale-22 (MDRS-22) para avaliar as características da depressão masculina no último mês. A MDRS-22 compreende 22 itens subdivididos em seis subescalas que avaliam tanto traços internadores (supressão emocional e sintomas somáticos) quanto externadores (uso de drogas, abuso de álcool, raiva/agressão e comportamento de risco). Uma versão em língua alemã foi desenvolvida pela equipe da pesquisa através de um método rigoroso de tradução direta e reversa com tradutores bilíngues independentes. Para discriminar os níveis de gravidade da depressão clássica, empregou-se o Beck Depression Inventory-II (BDI-II), composto por 21 itens focados nas duas semanas anteriores. +4

O desfecho referente à carga aguda de saúde mental experimentada na última semana foi quantificado por meio do Symptom Checklist-90-Revised (SCL-90-R). Esse instrumento engloba 90 itens avaliados em escala Likert de 5 pontos e fornece nove subescalas diagnósticas: somatização, obsessivo-compulsivo, sensibilidade interpessoal, depressão, ansiedade, raiva-hostilidade, ansiedade fóbica, ideação paranoide e psicoticismo. Adicionalmente, extraem-se três índices globais de sofrimento: o Global Severity Index (GSI), o Positive Symptom Total (PST) e o Positive Symptom Distress Index (PSDI). As análises estatísticas basearam-se na divisão do grupo clínico a partir de uma quebra de mediana separada por sexo (sex-specific median split) das pontuações da MDRS-22. Estabeleceu-se o ponto de corte ≥ 1,70 para homens e ≥ 1,82 para mulheres para caracterizar o grupo com Altos Escores de Depressão Masculina (HMD, n = 81), sendo as pontuações inferiores classificadas como Baixos Escores de Depressão Masculina (LMD, n = 82). +4


Resultados: A Sobrecarga Geral e Específica de Sintomas

A caracterização sociodemográfica e clínica inicial revelou discrepâncias significativas entre os subgrupos: os pacientes alocados no grupo HMD apresentavam uma média de idade significativamente inferior à do grupo LMD (36,4 anos contra 45,7 anos) e registraram índices substancialmente mais elevados de gravidade da depressão na escala BDI-II (média de 37,3 versus 28,7). +1

As modelagens de regressão logística e linear ajustadas para as covariáveis de idade, sexo e severidade da depressão (pontuação do BDI-II) confirmaram a primeira hipótese do estudo: o grupo classificado como HMD associou-se de forma consistente a valores significativamente maiores em todos os três índices globais de sofrimento do SCL-90-R. Verificou-se uma forte correlação positiva com o GSI (B=0,107; P<0,001), o PSDI (B=0,071; P=0,009) e o PST (B=0,087; P=0,003), comprovando que a expressão de sintomas externadores atípicos caminha em paralelo com um sofrimento psíquico agudo intensificado e maior número de sintomas validados. +4

Ao examinar as subescalas específicas do SCL-90-R, observou-se inicialmente uma elevação disseminada de sintomas no grupo HMD, englobando somatização, ansiedade, raiva-hostilidade, ansiedade fóbica, ideação paranoide e psicoticismo. No entanto, após a aplicação da correção de Bonferroni para comparações múltiplas — empregada para atenuar a probabilidade de erros do tipo I em 24 modelos estatísticos —, apenas cinco dimensões primárias preservaram significância estatística rigorosa. Essas dimensões foram: +4

  1. Global Severity Index (GSI): Confirmando o impacto severo na carga global de distress. +2
  2. Somatization (Somatização): Evidenciando a manifestação de angústia psíquica convertida em queixas e dores de ordem puramente física. +4
  3. Anger-Hostility (Raiva-Hostilidade): Refletindo a exteriorização de afetos negativos através de irritabilidade, pensamentos agressivos e comportamento beligerante. +4
  4. Paranoid Ideation (Ideação Paranoide): Indicando a presença de desconfiança crônica, defensividade e pensamentos de contornos persecutórios em relação ao ambiente. +4
  5. Psychoticism (Psicoticismo): Representando sintomas de isolamento interpessoal severo, sentimentos de alienação e comportamentos esquizoides de espectro contínuo. +4

Análises complementares de covariância (ANCOVAs) corroboraram esses achados, atestando que as médias ajustadas de sofrimento em somatização, hostilidade, paranoia e psicoticismo no grupo HMD superavam de modo inequívoco as médias do grupo LMD. Como esperado, tanto os pacientes HMD quanto os LMD demonstraram índices de perturbação psicopatológica significativamente superiores aos encontrados na população de controle saudável. Adicionalmente, rastreou-se o tempo total de preenchimento dos testes informatizados como uma medida comportamental de função cognitiva. O tempo médio foi de 277 segundos para controles, 496 segundos para o grupo LMD e 436 segundos para o grupo HMD ; contudo, a diferença de tempo de resposta entre os subgrupos de pacientes deprimidos não obteve significância estatística, descartando disfunções motoras ou cognitivas diferenciais no preenchimento do questionário entre HMD e LMD. +4


Independência de Gênero na Expressão do Fenótipo

O resultado mais emblemático e transformador da pesquisa reside nas análises de moderação e subanálises estratificadas por gênero. Os testes formais de moderação estatística indicaram a completa ausência de interações significativas entre o sexo biológico e as variáveis psicopatológicas estruturadas do SCL-90-R (P>0,05). Esse comportamento matemático demonstra que o vetor de associação entre os altos escores de depressão masculina (HMD) e a severidade da carga aguda de saúde mental opera com a mesma dinâmica e intensidade tanto em homens quanto em mulheres. +4

Nas análises regressivas executadas de forma separada para cada sexo, verificou-se que a classificação HMD em pacientes homens correlacionou-se diretamente a patamares elevados de somatização, raiva-hostilidade e ideação paranoide. No grupo composto por pacientes mulheres, a presença do fenótipo HMD associou-se a uma elevação ainda mais abrangente, afetando o índice GSI, o PST, e as dimensões específicas de somatização, hostilidade, paranoia e psicoticismo. +1

Essas evidências demonstram de forma inequívoca que a chamada “depressão masculina” constitui, na verdade, uma constelação de sintomas comportamentais e respostas disfuncionais ao estresse que ultrapassa barreiras biológicas de gênero. O surgimento desse fenótipo externador em mulheres pode estar associado a dinâmicas socioculturais modernas, tais como a convergência de papéis de gênero, a exposição prolongada a jornadas exaustivas de trabalho e a interiorização de normas tradicionais de enfrentamento baseadas na autossuficiência e na supressão emocional. Portanto, catalogar este quadro exclusivamente como um distúrbio masculino induz a erros propedêuticos, mascarando o sofrimento de mulheres que mimetizam esse perfil atípico e externador sob forte estresse. +4


Discussão e Limitações do Estudo

A constatação de que pacientes com alto índice de depressão masculina vivenciam uma carga psíquica de extrema gravidade, mesmo após o isolamento estatístico da severidade basal da depressão, possui profundas implicações clínicas. O espectro de sintomas identificados — associando hostilidade, somatização, paranoia e psicoticismo — guarda proximidade com as manifestações clínicas observadas em transtornos de personalidade do Cluster B (notadamente o transtorno de personalidade borderline e antissocial), condições marcadas por desregulação afetiva, comportamentos erráticos e respostas alteradas aos eixos biológicos do estresse. Esse panorama sugere que a depressão externadora pode compartilhar vias fisiopatológicas com a desregulação emocional severa, demandando intervenções psicoterapêuticas focadas na tolerância ao mal-estar e na modulação da raiva. +4

A despeito da relevância metodológica do desenho de pesquisa, limitações importantes devem ser explicitadas para conferir cautela à generalização dos achados. Em primeiro lugar, o estudo adotou um modelo de corte transversal no que tange à coleta dos dados das escalas psométricas (um único ponto de aferição por participante), o que restringe a capacidade de estabelecer inferências causais definitivas ou acompanhar a flutuação temporal da carga de sintomas ao longo do tratamento hospitalar. +2

Em segundo lugar, todas as ferramentas de avaliação utilizadas fundamentaram-se em questionários autoaplicados de autorrelato (self-reported scales). Embora validados academicamente, esses instrumentos estão sujeitos a vieses de desejabilidade social, distorções de autopercepção e desvios interpretativos por parte do paciente. Por fim, o tamanho amostral total (163 pacientes e 176 controles), embora adequado para as análises primárias de regressão, resultou em intervalos de confiança relativamente amplos ao realizar o desmembramento e a estratificação dos modelos por sexo biológico, reduzindo o poder estatístico das subanálises descritivas exploratórias. +4


Conclusão

O estudo evidencia de forma pioneira que os escores elevados na escala de depressão masculina (MDRS-22) estão intrinsecamente vinculados a uma maior e mais complexa carga aguda de sofrimento psíquico, caracterizada por manifestações severas de hostilidade, somatização, ideação paranoide e psicoticismo. De forma crucial, os dados revelam que este impacto e o perfil fenotípico de sintomas independem do sexo biológico, manifestando-se com igual relevância clínica em mulheres expostas a estressores agudos. Estes achados sugerem a necessidade de uma revisão terminológica e conceitual no campo da psiquiatria, estimulando a adoção generalizada de triagens sensíveis a sintomas atípicos externadores em todas as avaliações de saúde mental, independentemente do gênero, com vistas a reduzir as taxas de negligência terapêutica e aprimorar a precisão diagnóstica clínica. +4


Referência (Padrão ABNT)

VON ZIMMERMANN, Claudia; WEINLAND, Christian; KORNHUBER, Johannes; LENZ, Bernd; MÜHLE, Christiane. Masculine depression and acute mental health burden. Scientific Reports, v. 16, art. 11606, p. 1-11, 23 ago. 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41598-026-44727-7. Acesso em: 17 maio 2026.

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