Resumo: As populações socioeconomicamente desfavorecidas, em especial indivíduos vivenciando condições de habitação instável, enfrentam um risco epidemiológico substancialmente elevado de desenvolver distúrbios psíquicos. Embora as ferramentas de saúde mental digital (e-mental health) surjam como alternativas promissoras para expandir o acesso ao suporte psicossocial , a aplicabilidade prática desses dispositivos em grupos marginalizados permanece subanalisada. Este artigo de opinião informativo avalia a aceitabilidade e a adequação de uma intervenção digital autoguiada baseada no guia de manejo de estresse da Organização Mundial da Saúde (OMS), adaptada para dispositivos móveis. A partir de um estudo qualitativo bifásico conduzido na França (Paris e Caen) com usuários do sistema de acolhimento e informantes-chave (profissionais de saúde e assistência social), mapeou-se um panorama de aceitação favorável acompanhado por barreiras estruturais severas, tais como o analfabetismo funcional, a instabilidade na conectividade e a demanda por mediação humana presencial. +4
Introdução
A determinação dos níveis de saúde mental coletiva decorre de uma intrincada e dinâmica interrelação entre vulnerabilidades individuais, pressões sociais e estressores estruturais, dentre os quais a precariedade habitacional e a ausência de moradia fixa figuram como vetores proeminentes de sofrimento psíquico. Evidências epidemiológicas prévias apontam que populações em situação de rua, abrigamento temporário ou migração irregular apresentam taxas de prevalência de depressão e Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) substancialmente superiores às observadas na população geral, alcançando marcas estimadas em 29% e 16%, respectivamente. Durante crises sanitárias, como a pandemia de COVID-19, esse quadro de fragilidade foi agudizado pela combinação de isolamento, percepção de ameaça contínua e interrupção de redes tradicionais de assistência. +2
Diante das barreiras linguísticas, culturais e burocráticas que rotineiramente restringem o acesso dessa população aos serviços convencionais de saúde mental secundária , as intervenções psicossociais mediadas por tecnologias de informação e comunicação representam uma fronteira de inovação assistencial. Dispositivos móveis, como smartphones, são teoricamente atraentes devido à portabilidade, ao custo reduzido, à facilidade de distribuição em larga escala e, fundamentalmente, à preservação do anonimato do usuário. Contudo, transpor uma intervenção clínica para o ambiente virtual sem avaliar a aceitabilidade e a usabilidade pelo público-alvo pode consolidar o fenômeno da exclusão digital em saúde. Torna-se imperativo, portanto, investigar de forma empírica e qualitativa a recepção dessas ferramentas tanto por parte dos sujeitos vulnerabilizados quanto pelos profissionais que atuam na ponta da rede assistencial. +4
Metodologia e Desenho da Investigação Qualitativa
O estudo analisado foi estruturado como uma investigação qualitativa bifásica fundamentada no protocolo DIME (Design, Implementation, Monitoring, and Evaluation). O objetivo central consistiu em avaliar a intervenção online baseada na adaptação para web do guia de manejo de estresse da OMS, intitulado “Doing What Matters in Times of Stress” (DWM-OI – Doing What Matters Online Intervention). Esta ferramenta constitui a primeira etapa de um programa de cuidados escalonados (stepped-care), concebido no âmbito do projeto europeu RESPOND, que visa a redução de sintomas de ansiedade e depressão em adultos desfavorecidos antes de sua submissão a intervenções face a face mais densas, como o Problem Management Plus (PM+). +4
A coleta de dados ocorreu entre novembro de 2021 e junho de 2022 em centros de acolhimento e alojamento temporário localizados em Paris e Caen, na França. O recrutamento foi direcionado a indivíduos maiores de 18 anos, fluentes em francês ou árabe, que estivessem vivenciando instabilidade habitacional, bem como a informantes-chave (KIs – Key Informants), incluindo assistentes sociais, enfermeiros e pessoal administrativo. O tamanho amostral final de 48 participantes foi determinado pelo critério de saturação teórica de dados. +4
A arquitetura metodológica desdobrou-se em duas frentes complementares:
- Entrevistas Individuais de Listagem Livre (FLIs – Free Listing Interviews): Conduzidas na primeira fase com 32 participantes (14 usuários em habitação instável e 18 informantes-chave). As FLIs objetivaram perscrutar o nível de acesso às tecnologias de comunicação, além de inventariar os facilitadores e os obstáculos genéricos ao uso de ferramentas eletrônicas de saúde mental. As sessões foram presenciais, gravadas em áudio e realizadas em francês, árabe ou dari, com o suporte de tradução em tempo real quando necessário. +4
- Grupos Focais (FGs – Focus Groups): Implementados na segunda fase com um total de 16 participantes, divididos em quatro grupos analíticos distintos (dois compostos por usuários e dois por informantes-chave, contendo quatro integrantes cada). Os FGs aprofundaram a análise das barreiras e facilitadores específicos da intervenção DWM-OI , confrontando os participantes com os achados preliminares das FLIs para priorização das demandas. +3
A totalidade do material verbal foi transcrita verbatim e submetida à análise de conteúdo por meio de uma abordagem temática indutiva. O processo de codificação categorizou variáveis associadas à acessibilidade, analfabetismo, competência digital, fatores culturais e idioma , contando com a triangulação de dados por dois pesquisadores independentes e o suporte dos softwares Atlas.ti (versão 9) e Microsoft Excel. +4
Resultados: A Dupla Face da Aceitabilidade Digital e as Barreiras Estruturais
A caracterização sociodemográfica do segmento de usuários revelou uma população com idade média de 36,7 anos, predominantemente masculina (73%), marcada por forte componente migratório (com origens na República Democrática do Congo, Costa do Marfim, Argélia, Senegal, Síria, Líbia e Albânia) e alta vulnerabilidade jurídica (46% sem documentação regular, 50% solicitantes de asilo e 4% refugiados). Em termos de escolaridade, 43% possuíam diploma de ensino fundamental ou médio, e o índice de alfabetização geral situou-se em 69%. Por sua vez, os informantes-chave apresentaram idade média de 35,6 anos, com predominância do sexo feminino (81%), sendo majoritariamente assistentes sociais (50%) e profissionais de saúde (31%). +4
No tocante ao acesso tecnológico aferido nas FLIs, constatou-se que a maioria dos usuários em habitação instável possuía aparelhos de comunicação (16 em 22), sendo o telefone celular o dispositivo amplamente prevalente (n=14), utilizado de maneira rotineira para acessar aplicações populares como YouTube (n=14/14) e Facebook (n=10/14).
A análise temática da intervenção específica (DWM-OI) evidenciou uma convergência de opiniões: tanto os usuários quanto os profissionais de saúde e assistência social classificaram o website adaptado como uma ferramenta útil, pertinente e com potencial prático para auxiliar os indivíduos no manejo autônomo do estresse cotidiano. Os participantes valorizaram a portabilidade e a estrutura do guia. +3
Contudo, os resultados expuseram três ordens de barreiras críticas que relativizam a autonomia do modelo puramente digital:
- Limitações de Letramento e Fluência Idiomática: O baixo nível de alfabetização em alguns indivíduos e o domínio parcial da língua francesa emergiram como obstáculos primários para o engajamento autônomo na plataforma de autoajuda. +2
- Instabilidade de Infraestrutura Tecnológica: A acessibilidade aos recursos digitais mostrou-se intermitente, vulnerável à perda ou roubo de aparelhos, à escassez de dados móveis e à oscilação na conexão com redes de internet sem fio nos abrigos. +2
- Déficit de Interação Humana Direta e Demanda por Suporte Misto: Usuários expressaram desconforto ou falta de familiaridade em lidar isoladamente com a interface tecnológica, solicitando de forma explícita o acompanhamento ou assistência presencial de um tutor durante a navegação. A ausência do contato face a face foi apontada como um fator limitante para a sustentabilidade do uso da ferramenta. +4
Discussão: A Necessidade de Modelos Híbridos Baseados no Cuidado Humano
Os achados desta investigação trazem contribuições conceituais e práticas para o campo da saúde pública e da psiquiatria comunitária ao demonstrar que a aceitabilidade psicológica de uma ferramenta digital não se traduz automaticamente em acessibilidade material ou funcional. O fato de os usuários considerarem o DWM-OI valioso reflete uma demanda real por intervenções psicossociais desestigmatizadas e de baixo limiar de entrada. No entanto, os obstáculos identificados põem em xeque o pressuposto de que intervenções de autoajuda puramente virtuais (pure self-help) sejam autossuficientes para populações que sofrem desvantagens socioeconômicas extremas. +4
A barreira do letramento e a necessidade de suporte presencial externada pelos participantes sugerem que, para esse grupo populacional, o modelo ideal de implementação de e-mental health difere dos formatos aplicados à população geral. Em vez de uma abordagem estritamente autoguiada, a eficácia dessas ferramentas depende da incorporação de um arranjo híbrido ou de autoajuda guiada (guided self-help). A figura do profissional de assistência social ou do mediador cultural nos alojamentos temporários atua como uma ponte indispensável, capaz de mitigar a ansiedade tecnológica, contornar limitações de leitura e fornecer a infraestrutura de conectividade necessária.
Portanto, as políticas de saúde digital destinadas a franjas marginalizadas devem prever investimentos que vão além do desenvolvimento de softwares e traduções linguísticas. É fundamental capacitar as equipes técnicas das instituições de acolhimento e integrar as plataformas digitais à rotina das intervenções territoriais já existentes. Dessa forma, evita-se o risco de que a inovação tecnológica aprofunde os hiatos de equidade, transformando o que deveria ser um vetor de democratização do cuidado em mais uma barreira de exclusão para indivíduos sem moradia estável. +4
Conclusão
O estudo qualitativo sobre a intervenção digital DWM-OI na França indica que ferramentas eletrônicas de autoajuda para o manejo do estresse possuem elevada aceitabilidade e utilidade percebida entre pessoas em situação de instabilidade habitacional e profissionais da linha de frente. Contudo, a efetivação desse potencial está intrinsecamente condicionada à superação de entraves estruturais como a exclusão digital, a volatilidade no acesso à internet e o analfabetismo funcional. Para que os ecossistemas de saúde mental digital funcionem como instrumentos de inclusão, os modelos de implementação precisam rejeitar o isolamento virtual, apostando em desenhos híbridos que associem a portabilidade da tecnologia ao suporte humano, presencial e mediado dentro das redes comunitárias de assistência. +4
Referência (Padrão ABNT)
TORTELLI, Andrea; FIGUEIREDO, Natasha; VADELL MARTINEZ, Julian; ROVERSI, Aurélia; BRYANT, Richard; MCDAID, David; LORANT, Vincent; NICAISE, Pablo; MEDIAVILLA, Roberto; MCGREEVY, KERRY R.; HARO, Josep Maria; SIJBRANDIJ, Marit; WITTEVEEN, Anke; UNDERHILL, James; SURKAN, Pamela J.; MELCHIOR, Maria. Acceptability of an e-mental health self-help intervention aiming to improve psychological distress among persons experiencing unstable housing in France. BMC Public Health, v. 26, art. 1487, p. 1-8, 14 abr. 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s12889-026-27106-9. Acesso em: 17 maio 2026.

