Resumo: A reestruturação dos serviços de saúde decorrente da pandemia de COVID-19 acelerou de forma sem precedentes a transição das consultas presenciais para modalidades remotas (telemedicina) na Atenção Primária à Saúde (APS). Este artigo de opinião informativo analisa os impactos dessa transição na trajetória assistencial de adultos com patologias psiquiátricas graves e comuns. Com base em um estudo de coorte retrospectivo longitudinal conduzido em Londres, que integrou dados de registros eletrônicos do Clinical Record Interactive Search (CRIS) e do Lambeth DataNet, investigou-se a associação entre a proporção de consultas remotas na APS e a subsequente utilização de serviços de saúde mental de urgência. Os achados revelam que uma maior exposição ao atendimento remoto correlaciona-se com aumentos significativos nas internações psiquiátricas e na quantidade de dias de internação leito-dia, acendendo um debate crítico sobre os limites da virtualização em populações psiquiatricamente vulneráveis.
Introdução
A Atenção Primária à Saúde (APS) atua historicamente como a principal porta de entrada e o eixo ordenador do cuidado para indivíduos acometidos por transtornos mentais. O manejo de condições prevalentes, como a depressão e a ansiedade, bem como o suporte continuado a pacientes diagnosticados com Transtornos Mentais Graves (TMG) — incluindo esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo e transtorno afetivo bipolar —, dependem criticamente da continuidade relacional e do monitoramento clínico longitudinal oferecido pelos clínicos gerais no âmbito comunitário. Esta dinâmica assistencial, contudo, sofreu uma ruptura abrupta e estrutural a partir de 2020.
Visando conter a transmissibilidade viral durante a emergência de saúde pública da COVID-19, os sistemas de saúde globais operaram uma migração massiva e compulsória das consultas médicas presenciais para canais de atendimento remoto, estruturados via contatos telefônicos ou plataformas de videochamada. Embora a telemedicina tenha se mostrado uma solução de contingência indispensável para assegurar a manutenção mínima dos serviços e mitigar o isolamento sanitário, a consolidação prolongada desse modelo híbrido pós-pandemia gerou questionamentos complexos na comunidade científica. Investigações contemporâneas buscam compreender se a perda do componente presencial e a mediação tecnológica na propedêutica psiquiátrica alteraram de forma deletéria o curso das patologias mentais, culminando em desfechos clínicos agudos e na necessidade de intervenções hospitalares de alta complexidade.
Desenho Metodológico e Integração de Dados Multimodais
Para avaliar empiricamente a repercussão da modalidade de consulta da atenção primária sobre o agravamento de quadros psiquiátricos, os investigadores estruturaram um desenho metodológico de coorte retrospectiva longitudinal. O estudo abrangeu o período compreendido entre 1º de janeiro de 2019 e 31 de dezembro de 2021, englobando de forma estratégica as fases pré-pandêmica, pandêmica inicial e os períodos de flexibilização subsequentes. A amostragem extraída foi composta por pacientes adultos integrados a um grande provedor de serviços de saúde mental de Londres (Reino Unido).
A robustez da infraestrutura de dados baseou-se na interconexão e pareamento de duas plataformas de registros eletrônicos de saúde:
- Clinical Record Interactive Search (CRIS): Uma base de dados que disponibiliza registros anonimizados de pacientes acompanhados por serviços de saúde mental secundários e terciários (especializados), capturando admissões hospitalares e intercorrências de urgência.
- Lambeth DataNet: Plataforma que centraliza dados clínicos e administrativos de pacientes cadastrados em Clínicas de Atenção Primária (clínicos gerais – General Practitioners [GPs]) na região de Lambeth, permitindo rastrear o histórico completo de consultas e as respectivas modalidades de atendimento.
A coorte analítica final incluiu indivíduos que preenchiam critérios diagnósticos formais para depressão, transtornos de ansiedade ou Transtornos Mentais Graves (TMG). A linha do tempo do estudo foi dividida em cinco subperíodos consecutivos de exposição-desfecho, cada um contendo janelas estritas de seis meses. A métrica de exposição primária foi definida como a proporção de consultas remotas vivenciadas pelo paciente em relação ao total de consultas realizadas na APS dentro de cada bloco temporal.
Os desfechos de utilização de serviços de urgência em saúde mental mensurados no semestre subsequente foram: (a) contatos de emergência com equipes de ligação psiquiátrica (mental health liaison teams); (b) internações em hospitais psiquiátricos; (c) número total de dias de internação ocupados (inpatient bed-days); e (d) admissões compulsórias sob amparo da Lei de Saúde Mental (Mental Health Act). As associações estatísticas foram estimadas por meio de Equações de Estimação Generalizadas (GEE) com distribuição binomial negativa para acomodar a sobredispersão dos dados e o agrupamento (clustering) por unidade de saúde.
Resultados: A Correlação entre Telemedicina e Hospitalizações Psiquiátricas
A análise epidemiológica dos dados revelou transformações profundas no perfil de atendimento da APS ao longo dos três anos investigados. Verificou-se uma transição radical nas modalidades de consulta: o modelo predominantemente presencial operante em 2019 foi amplamente substituído por interações remotas a partir de 2020, mantendo uma prevalência elevada de contatos telefônicos mesmo após o arrefecimento das restrições de confinamento mais severas.
No tocante aos desfechos assistenciais secundários, a modelagem estatística por GEE — ajustada rigorosamente para potenciais variáveis de confusão, como idade, sexo, etnia, nível de privação socioeconômica e a taxa basal de utilização de serviços de saúde no período anterior — demonstrou associações significativas e preocupantes. Constatou-se que uma maior proporção de consultas remotas realizadas na atenção primária correlacionou-se diretamente com um risco aumentado de internações em hospitais psiquiátricos no período subsequente.
Além disso, o aumento na taxa de exposição ao atendimento virtual mostrou-se um preditor estatisticamente significativo para o incremento no número total de dias de internação (inpatient bed-days), indicando que os pacientes que dependiam majoritariamente de consultas remotas tendiam a apresentar quadros de descompensação clínica mais severos e de difícil estabilização terapêutica quando hospitalizados. Em contrapartida, as análises lineares não demonstraram associações com significância estatística entre a proporção de consultas remotas e a ocorrência de contatos de emergência com equipes de ligação psiquiátrica ou a incidência de internações estritamente compulsórias reguladas pela Lei de Saúde Mental.
Discussão: Barreiras de Comunicação e Limitações do Rastreamento Virtual
Os achados desta investigação trazem contribuições críticas para a governança em saúde digital e acendem um sinal de alerta sobre as políticas de transição irrestrita para modelos virtuais de atendimento. Sob uma perspectiva neurobiológica e clínica, a semiologia psiquiátrica depende fundamentalmente da observação de elementos sutis que compõem o exame do estado mental do paciente. Atributos como a psicomotricidade, o afeto embotado ou incongruente, o contato visual, a higiene pessoal e as flutuações discretas no tom de voz são frequentemente atenuados ou completamente perdidos através de canais de comunicação exclusivamente remotos, particularmente no caso de chamadas telefônicas sem suporte de vídeo.
Essa perda de resolução diagnóstica prejudica a capacidade do médico de família de rastrear sinais precoces de recaída ou deterioração cognitiva, resultando em intervenções farmacológicas tardias. Adicionalmente, pacientes acometidos por psicoses ativas ou traços paranóides podem manifestar extrema resistência ou delírios persecutórios envolvendo dispositivos de comunicação digital, o que induz ao distanciamento voluntário, ao abandono do seguimento clínico e à descontinuação da adesão medicamentosa.
A barreira digital também opera de forma excludente em segmentos populacionais marginalizados ou de baixa renda, que enfrentam limitações severas de conectividade, falta de privacidade domiciliar para relatar ideações suicidas e menor literacia tecnológica. Quando o canal de atendimento presencial é restringido nessa população vulnerável, o hiato assistencial gerado resulta no represamento de demandas reprimidas que, inevitavelmente, explodem em crises agudas e sobrecarregam as unidades de internação hospitalar de alta complexidade.
Conclusão
A virtualização dos serviços de Atenção Primária à Saúde, embora tenha representado um marco de inovação e resiliência logística durante o período de crise pandêmica, impõe custos clínicos mensuráveis à rede de assistência em saúde mental. A evidência longitudinal demonstra que uma maior proporção de consultas remotas correlaciona-se de forma direta e independente com o aumento nas taxas de internação psiquiátrica e no tempo de permanência hospitalar de adultos com sofrimento mental grave ou comum. Esses resultados evidenciam que a telemedicina não deve ser encarada como um substituto universal ou equivalente em eficácia ao exame clínico face a face. Torna-se imperativo que os gestores de saúde formulem diretrizes clínicas baseadas em evidências que regulamentem modelos híbridos equilibrados, garantindo que a modalidade presencial seja preservada e priorizada como um direito assistencial indispensável para a segurança e estabilidade de populações psiquiatricamente vulneráveis.
Referência (Padrão ABNT)
HIDALGO-PADILLA, Liliana; GOGARTY, Eoin; SARKODIE, Reese; GAUGHRAN, Fiona; STEWART, Robert; PINTO DA COSTA, Mariana. Primary care consultation modality and acute mental health service use in adults. Nature Mental Health, v. 4, n. 12, p. 1-13, 17 mar. 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s44220-026-00605-9. Acesso em: 17 maio 2026.

