O consumo de açúcares na dieta alimentar, sobretudo na forma de açúcares livres, açúcares adicionados e bebidas adoçadas com açúcar (sugar-sweetened beverages – SSBs), representa um importante fator de risco para diversos desfechos de saúde em âmbito global. O estudo conduzido por Huang et al. (2023) fornece uma revisão guarda-chuva (umbrella review) de meta-análises existentes, avaliando sistematicamente a qualidade da evidência, potenciais vieses e a validade da associação entre o consumo de açúcar dietético e 83 desfechos clínicos distintos.
Impactos Endócrinos e Metabolicocardiológicos
A evidência científica aponta associações deletérias significativas do consumo de açúcares dietéticos com 18 desfechos endócrinos ou metabólicos e 10 desfechos cardiovasculares. Evidências de moderada qualidade demonstraram que maior ingestão de SSBs e de açúcares adicionados está associada ao ganho de peso corporal e ao acúmulo ectópico de gordura — tanto no tecido hepático quanto no muscular.
Sob a perspectiva dose-resposta:
- Cada incremento de 250 mL/dia no consumo de SSBs correlaciona-se a um aumento de 17% no risco de doença arterial coronariana e a um acréscimo de 4% na mortalidade por todas as causas.
- O aumento no consumo de SSBs associa-se de forma linear ao desenvolvimento de hipertensão arterial, síndrome metabólica, dislipidemia e diabetes mellitus tipo 2.
- A elevação do consumo de frutose relaciona-se à hiperuricemia e à gota, uma vez que a fosforilação da frutose no fígado induz a depleção de ATP e subsequente degradação de nucleotídeos em ácido úrico.
Mecanisticamente, a ingestão excessiva de frutose estimula a lipogênese hepática de novo, prejudica a sinalização de insulina e reduz a oxidação de ácidos graxos, promovendo resistência à insulina e deposição ectópica de gordura. Adicionalmente, as SSBs conferem menor saciedade quando comparadas aos alimentos sólidos com idêntico teor calórico, estimulando a ingestão calórica compensatória excessiva.
Relação com Câncer e Outros Desfechos de Saúde
Foram detectadas associações prejudiciais entre o consumo de açúcar e sete desfechos oncológicos, embora grande parte da evidência atual permaneça limitada ou classificada de baixa a muito baixa qualidade segundo os critérios GRADE e AMSTAR. Destaca-se que:
- Cada incremento de 25 g/dia no consumo de frutose está associado a um aumento de 22% no risco de câncer de pâncreas.
- O elevado consumo de SSBs apresentou associação positiva com o risco de carcinoma hepatocelular, câncer de mama, câncer de próstata e mortalidade geral por câncer.
- O impacto do açúcar na oncogênese pode ser mediado pelo desenvolvimento da obesidade, alterações no índice e carga glicêmica, e hiperinsulinemia crônica.
Em relação a outros sistemas orgânicos, o consumo de bebidas adoçadas associa-se a um risco elevado de depressão, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) em crianças, cárie e erosão dentária, doença hepática gordurosa não alcoólica e redução da densidade mineral óssea.
Recomendações e Conclusão
Diante das evidências epidemiológicas analisadas, os autores recomendam a redução da ingestão diária de açúcares livres ou adicionados para menos de 25 g/dia (aproximadamente 6 colheres de chá/dia) e a limitação do consumo de bebidas adoçadas com açúcar a menos de uma porção por semana (cerca de 200–355 mL/semana) para mitigar os impactos adversos à saúde pública.
Referência (Norma ABNT)
HUANG, Yin et al. Dietary sugar consumption and health: umbrella review. BMJ, v. 381, e071609, p. 1-15, 2023. DOI: https://doi.org/10.1136/bmj-2022-071609.