A rápida digitalização da vida cotidiana trouxe benefícios inegáveis, mas também exacerbou riscos psicopatológicos, especialmente entre adolescentes. Dentro deste cenário, indivíduos que apresentam traços de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) emergem como um grupo de alta vulnerabilidade para o desenvolvimento da Dependência de Internet (DI). Conforme investigado por Zeng et al. (2026), a associação entre esses traços neurodivergentes e o uso problemático da rede não é meramente direta; ela é mediada por mecanismos psicológicos críticos, nomeadamente a resiliência e os estilos de coping (enfrentamento).
A pesquisa revela que traços de autismo e TDAH correlacionam-se positivamente com a severidade da dependência de internet. No caso do TDAH, a busca por estimulação constante e a dificuldade no controle inibitório facilitam o engajamento excessivo em ambientes digitais. Já no TEA, a internet pode servir como um refúgio social menos demandante ou um espaço para interesses restritos. Entretanto, o achado fundamental de Zeng et al. (2026) é que a resiliência — a capacidade de adaptar-se positivamente a adversidades — atua como um mediador negativo. Adolescentes com maiores níveis de traços neurodivergentes tendem a apresentar menor resiliência, o que, por sua vez, aumenta a propensão à dependência, uma vez que a internet passa a ser utilizada como uma ferramenta de fuga diante da incapacidade de lidar com estressores do mundo real.
Além da resiliência, os estilos de enfrentamento desempenham um papel decisivo na manutenção deste ciclo. O estudo identificou que a neurodivergência está frequentemente associada a estilos de coping imaturos ou negativos, como a negação e a retirada social. Esses mecanismos de defesa, embora ofereçam alívio imediato, falham em resolver conflitos subjacentes e reforçam o comportamento aditivo. Em contraste, o uso de estratégias de enfrentamento maduras correlaciona-se com menores níveis de DI. A análise de mediação em série conduzida pelos autores demonstra que os traços de TEA e TDAH diminuem a resiliência, o que leva à adoção de copings negativos, culminando na dependência de internet.
Essas evidências científicas sublinham a necessidade de intervenções que transcendam a simples limitação do tempo de tela. Para adolescentes neurodivergentes, o suporte clínico e educacional deve focar no fortalecimento da resiliência e no treinamento de habilidades de enfrentamento adaptativas. Ao capacitar o jovem a lidar com suas dificuldades socioemocionais de forma funcional, reduz-se a necessidade do uso compensatório da internet. O reconhecimento desses caminhos mediadores permite uma abordagem mais assertiva e personalizada, focada não apenas no sintoma (a dependência), mas nas vulnerabilidades psicológicas estruturais que a sustentam.
Em conclusão, o trabalho de Zeng et al. (2026) consolida a visão de que a saúde mental digital na adolescência depende de um equilíbrio entre características intrínsecas e recursos psicológicos de suporte. A identificação da resiliência e do coping como elos de ligação entre a neurodivergência e a dependência de internet oferece uma nova fronteira para a prevenção e o tratamento, promovendo um desenvolvimento mais saudável e integrado para jovens com perfis de TDAH e TEA no contexto da sociedade hiperconectada.
Referência (ABNT):
ZENG, Longping et al. Resilience and coping styles mediate the associations of autistic and ADHD traits with internet addiction in general adolescents. Scientific Reports, [s. l.], p. 1-29, 26 mar. 2026. DOI: 10.1038/s41598-026-45317-3. Disponível em: https://doi.org/10.1038/s41598-026-45317-3. Acesso em: 9 mai. 2026.

