A prevalência da dependência de internet entre adolescentes tornou-se uma preocupação central para a psiquiatria do desenvolvimento, especialmente quando associada ao Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). A literatura científica tem sugerido que o TDAH não é apenas uma comorbidade frequente, mas um fator que altera a trajetória e a gravidade dos impactos da adição digital. Conforme investigado por Yen et al. (2026), a relação entre o uso problemático da rede e a saúde mental não é estática, sendo influenciada por uma tríade de fatores pessoais, ambientais e diagnósticos que determinam o risco de desfechos graves, como depressão e comportamento autodestrutivo.
O estudo longitudinal de um ano conduzido por Yen et al. (2026) identificou que a impulsividade (especificamente a falta de perseverança e de controle inibitório), a hostilidade e a baixa satisfação nas relações interpessoais com amigos são preditores transversais robustos da adição à internet. No entanto, o papel do TDAH revela-se crucial como um moderador dessas associações. Adolescentes com TDAH apresentam uma vulnerabilidade aumentada, onde a adição à internet atua como um catalisador que exacerba sintomas internalizantes. A pesquisa demonstrou que a adição à internet no início do estudo foi um preditor significativo para o desenvolvimento de depressão, ideação suicida e automutilação não suicida no acompanhamento de um ano, sendo essa conexão particularmente acentuada no grupo com diagnóstico de TDAH.
Um aspecto distintivo da análise de Yen et al. (2026) é a bidirecionalidade e a especificidade dos fatores ambientais. Enquanto a baixa satisfação com as amizades predisposta à adição à internet, a qualidade da relação familiar atuou como um fator protetivo ou de risco prospectivo: conflitos familiares e baixa coesão foram preditores de longo prazo para o agravamento do uso compulsivo. Para o adolescente com TDAH, a internet frequentemente oferece uma gratificação instantânea que compensa as dificuldades de autorregulação e as frustrações sociais no mundo físico. Contudo, essa “automedicação digital” resulta em um ciclo deletério que deteriora a saúde mental, elevando o risco de suicidabilidade de forma mais incisiva do que em adolescentes neurotípicos.
A relevância clínica desses achados reside na necessidade de uma abordagem preventiva transdiagnóstica. Intervenções voltadas para a redução da adição à internet devem obrigatoriamente integrar o manejo dos sintomas de TDAH e o fortalecimento das habilidades de regulação emocional e social. A visão assertiva do estudo reforça que tratar a dependência digital de forma isolada, sem considerar o substrato neurobiológico do TDAH e o contexto das relações familiares, é insuficiente. A detecção precoce de padrões de uso problemático em jovens com TDAH deve ser uma prioridade para evitar a progressão para quadros depressivos e comportamentos de risco à vida.
Em suma, o trabalho de Yen e colaboradores (2026) consolida a evidência de que a adição à internet é um precursor de morbidades psiquiátricas graves na adolescência, com o TDAH funcionando como um amplificador de risco. A transição de um uso recreativo para um padrão aditivo compromete a trajetória de desenvolvimento, exigindo que pais, educadores e clínicos estejam atentos à qualidade das interações digitais e sociais desses jovens. O foco deve estar no desenvolvimento de resiliência e no suporte às funções executivas, garantindo que a tecnologia seja uma ferramenta de integração, e não uma via de isolamento e sofrimento psíquico.
Referência (ABNT):
YEN, Cheng-Fang et al. Internet addiction, ADHD, and adolescent mental health: a 1-year longitudinal study of risk and moderation. Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health, [s. l.], v. 20, n. 36, p. 1-11, 2026. DOI: 10.1186/s13034-026-01045-0. Disponível em: https://doi.org/10.1186/s13034-026-01045-0. Acesso em: 9 mai. 2026.

