O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) é um dos domínios mais debatidos na psiquiatria e na psicologia contemporâneas, não apenas pela sua prevalência, mas pela profunda tensão ideológica entre os modelos que buscam explicá-lo. Conforme analisam Nicholson e Lee (2026), a compreensão do TDAH está atualmente dividida entre dois paradigmas dominantes: o modelo biomédico clássico e o paradigma da neurodiversidade. Essa dicotomia não é meramente acadêmica; ela molda diretamente as metodologias de pesquisa, as práticas clínicas e a autopercepção dos indivíduos diagnosticados, exigindo que profissionais da área naveguem por essas águas com rigor conceitual e consciência ética.
O paradigma biomédico, fundamentado em manuais como o DSM-5 e a CID-11, conceitua o TDAH como um transtorno do neurodesenvolvimento definido por déficits funcionais intrínsecos. Sob esta ótica, a desatenção, a hiperatividade e a impulsividade são vistas como disfunções cognitivas ligadas a etiologias genéticas e neurobiológicas, frequentemente associadas a desequilíbrios em sistemas dopaminérgicos. A força deste modelo reside na sua capacidade de oferecer diagnósticos padronizados e validar o sofrimento do indivíduo através de intervenções farmacológicas e comportamentais baseadas em evidências. No entanto, Nicholson e Lee (2026) apontam que as críticas a essa abordagem focam na sua tendência à patologização excessiva e na negligência dos fatores sociais e ambientais que podem exacerbar ou até definir o que é considerado um “déficit”.
Em contrapartida, o paradigma da neurodiversidade propõe uma reorientação radical: o TDAH é visto não como uma patologia, mas como uma variação natural do genoma humano. Inspirado pelo modelo social da deficiência, este paradigma argumenta que muitos dos desafios enfrentados por indivíduos com TDAH resultam de um desajuste entre sua fiação neural específica e as exigências de uma sociedade desenhada para mentes neurotípicas. Embora este modelo promova a desestigmatização e a valorização de potenciais forças — como a criatividade e a capacidade de hiperfoco —, ele enfrenta críticas pela possibilidade de minimizar as dificuldades biológicas reais e o comprometimento funcional que muitos indivíduos experimentam independentemente das barreiras sociais (NICHOLSON; LEE, 2026).
A navegação entre essas tensões exige o que os autores denominam uma “heurística conceitual”, que permita aos pesquisadores e clínicos reconhecer as limitações de sua posição teórica. A adoção de uma postura puramente biomédica pode ignorar a agência e a identidade do paciente, enquanto uma adesão exclusiva à neurodiversidade pode falhar em fornecer o suporte clínico necessário para sintomas debilitantes. Nicholson e Lee (2026) sugerem que o progresso na área depende da capacidade de sintetizar esses modelos, reconhecendo a base biológica dos traços atencionais sem perder de vista a construção social da deficiência. Somente através dessa integração será possível desenvolver intervenções que sejam, ao mesmo tempo, clinicamente eficazes e socialmente emancipatórias.
Em suma, o debate sobre o TDAH revela que o transtorno é tanto uma realidade biológica quanto um construto social. Ao analisar as justificativas e críticas de ambos os paradigmas, Nicholson e Lee (2026) fornecem as ferramentas necessárias para uma prática profissional mais reflexiva. O desafio para o futuro não é escolher um lado da tensão, mas sim habitar o espaço entre eles, garantindo que a ciência do TDAH evolua de forma a respeitar a complexidade da experiência humana e a diversidade cerebral.
Referência (ABNT):
NICHOLSON, Tom; LEE, Richard. How Do We Navigate the Conceptual Tension Between Paradigms of ADHD? Neurodiversity, [s. l.], v. 4, p. 1-15, 2026. DOI: 10.1177/27546330261433280. Disponível em: https://journals.sagepub.com/home/ndy. Acesso em: 9 mai. 2026.

