Início ColunaPsicologia“Não é Dispersão, é Fome de Estímulo: O Que a Psicologia Revela Sobre Superdotados”

“Não é Dispersão, é Fome de Estímulo: O Que a Psicologia Revela Sobre Superdotados”

Tem muita coisa que já sabemos sobre pessoas superdotadas, principalmente por causa da psicologia e dos estudos feitos nos últimos anos.

por Adriel Pereira da Silva

Tem muita coisa que já sabemos sobre pessoas superdotadas, principalmente por causa da psicologia e dos estudos feitos nos últimos anos. Mas tem um ponto que sempre aparece e que, para quem vive isso, é quase impossível de ignorar: a dificuldade de ficar muito tempo fazendo exatamente a mesma coisa, especialmente quando a tarefa é repetitiva ou não traz nada novo. Às vezes, quem está de fora acha que é falta de foco ou disciplina, mas não é bem  isso. O ponto é que o cérebro dessas pessoas funciona num ritmo diferente, mais rápido, mais intenso, mais faminto por estímulos.

Quem tem altas habilidades ou superdotação costuma fazer conexões muito rápido. A mente dispara pensamentos e ideias quase automaticamente. E quando você coloca alguém assim para fazer algo previsível demais, que não exige criatividade nenhuma, é como se o cérebro desse uma travada. Não chega a ser um “não consigo”, mas é um incômodo real: um tédio que pesa, uma inquietação, aquele sentimento de “por que estou gastando energia com isso?”. É bem comum que essas pessoas fiquem pulando de um assunto para outro, começando projetos, pesquisando temas aleatórios, mergulhando em curiosidades novas. Isso não é bagunça mental, nem sinal de desorganização. É só uma forma natural de manter o “cérebro vivo”.

Claro que, para quem vive num mundo que valoriza o “escolha uma coisa e fique nela para sempre”, isso pode parecer dispersão. Só que, para muitos superdotados, alternar interesses é justamente o que permite que eles funcionem no melhor modo possível. E o mais curioso: quando encontram algo que realmente bate, que desperta a curiosidade de verdade, o comportamento muda totalmente. A pessoa entra em hiperfoco, esquece do resto, produz num ritmo impressionante e fica horas ali, totalmente mergulhada.

A teoria das hiperexcitabilidades, do Dabrowski, ajuda bastante a entender isso. Ele explica que algumas pessoas percebem o mundo com muita intensidade, não só no pensamento, mas nas emoções, na imaginação, nos sentidos. Então, uma atividade simples demais parece quase sem vida, enquanto um assunto novo ou profundo acende uma chama imediata. É daí que vem essa oscilação entre inquietação e foco extremo: depende do estímulo.

E isso não tem nada a ver com incapacidade ou falta de disciplina. Quando existe um propósito real, quando há espaço para criar, para explorar, para se desafiar, essas pessoas produzem de um jeito impressionante. A motivação delas não costuma vir de tarefas mecânicas, e sim do significado que conseguem encontrar em cada coisa.

O problema é que, no dia a dia, esse estilo acaba sendo mal interpretado. Como nem todo mundo entende essa necessidade constante de estímulo, é fácil achar que a pessoa é instável ou que vive mudando de ideia. Mas, olhando pela psicologia, é só uma forma diferente, e totalmente válida, de pensar e de existir. Quando isso é reconhecido, tudo fica mais leve: tanto para quem vive assim quanto para quem convive. O segredo é criar ambientes que não prendam, que não tentem encaixar essas pessoas num molde que nunca foi feito e nunca servirá para elas.

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