A transição nutricional observada em países de baixa e média renda tem promovido mudanças expressivas nos hábitos alimentares da população jovem, caracterizadas pela substituição progressiva de dietas tradicionais por refeições do tipo fast food e produtos altamente processados. Alimentos de preparo rápido caracterizam-se por elevados teores de gorduras saturadas, açúcares refinados e sódio, combinados a um baixo aporte de micronutrientes e fibras. A adesão contínua a esse padrão alimentar durante a adolescência correlaciona-se ao aumento substancial do risco de sobrepeso, obesidade, diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial e disfunções metabólicas, constituindo um desafio relevante para a saúde pública global.
Em um estudo transversal de base institucional conduzido por Ibrahim et al. (2025) na cidade de Jigjiga, localizada no Leste da Etiópia, avaliou-se a prevalência e os fatores associados ao consumo de fast food em uma amostra de 413 adolescentes matriculados em escolas de ensino secundário públicas e privadas. A investigação apontou uma prevalência global de consumo de 49,2% (IC 95%: 44,2–54,1), considerando-se a ingestão de itens de fast food em três ou mais dias na semana anterior à pesquisa. Entre os principais motivos relatados para a escolha dessas refeições destacaram-se a preferência pelo sabor (24,5%) e a conveniência de acesso (23,5%), sendo as bancas de comida de rua o local mais frequente de consumo (27,8%).
A análise estatística multivariada identificou preditores demográficos, econômicos e socioambientais diretamente associados à frequência de consumo. Os estudantes na faixa etária de 14 a 16 anos apresentaram duas vezes mais chances de consumir fast food em comparação com os jovens de 17 a 19 anos (AOR = 2,02; IC 95%: 1,30–3,16). Os adolescentes do sexo masculino demonstraram uma probabilidade significativamente maior de consumo do que as jovens do sexo feminino (AOR = 1,94; IC 95%: 1,25–3,01), o que se relaciona com aspectos culturais locais que conferem maior mobilidade urbana e autonomia financeira aos rapazes. Além disso, o arranjo residencial exerceu papel determinante: estudantes que não residiam com os pais (morando sozinhos ou com parentes) apresentaram um risco 2,58 vezes superior de adesão regular a esse padrão alimentar (AOR = 2,58; IC 95%: 1,51–4,39).
Fatores ligados à disponibilidade financeira e ao ambiente doméstico também mostraram associação estatisticamente significante. A alocação de quantias elevadas de dinheiro para despesas semanais individuais (iguais ou superiores a 500 Birr etíopes) aumentou a propensão ao consumo de fast food (AOR = 1,97; IC 95%: 1,12–3,46), assim como a presença e disponibilidade prévia desses alimentos no ambiente familiar (AOR = 2,03; IC 95%: 1,31–3,14). Adicionalmente, a condição de insegurança alimentar no domicílio duplicou as chances de consumo de fast food pelos adolescentes (AOR = 2,08; IC 95%: 1,32–3,28), sugerindo que restrições econômicas e dificuldades de acesso a alimentos frescos e nutritivos impulsionam a busca por opções ultraprocessadas de alta densidade calórica. Os achados reforçam a necessidade de políticas públicas e intervenções no ambiente escolar orientadas à promoção da educação nutricional e ao combate à insegurança alimentar comunitária.
Referência (Formato ABNT)
IBRAHIM, Ahmed Mohammed et al. Prevalence of fast food consumption and associated factors among secondary school adolescents in Jigjiga Town Somali Region Eastern Ethiopia. PLoS ONE, v. 20, n. 7, e0327787, p. 1-15, 2025. DOI: 10.1371/journal.pone.0327787.