Início OpiniãoO papel do apego ansioso em relacionamentos abusivos

O papel do apego ansioso em relacionamentos abusivos

por Redação CPAH

A teoria do apego oferece um arcabouço valioso para entender a dinâmica da violência por parceiro íntimo (VPI), que é um problema significativo de saúde pública, afetando majoritariamente mulheres em todo o mundo. A VPI é definida como violência física, sexual, perseguição e agressão psicológica por um parceiro atual ou ex-parceiro. Mulheres que permanecem em relacionamentos abusivos correm um risco elevado de vitimização repetida.

O artigo descreve que a teoria do apego adulto baseia-se na ideia de que os “modelos internos de trabalho” (IWMs), formados a partir de interações com cuidadores na infância, influenciam a forma como os indivíduos se relacionam na vida adulta. Esses modelos refletem a percepção de uma pessoa sobre sua própria dignidade de amor e a confiança na responsividade dos outros. O apego adulto é caracterizado por duas dimensões: ansiedade e evitação. O apego ansioso se manifesta como medo de abandono e rejeição, enquanto o apego evitativo envolve o medo da intimidade e a autoconfiança excessiva.

A pesquisa de Kural e Kovacs mostrou que o apego ansioso é um fator de risco para a disposição de permanecer em um relacionamento abusivo. Isso ocorre porque indivíduos com alto apego ansioso temem a separação e o abandono, e podem até tolerar a violência para manter a proximidade, considerando-a menos ameaçadora do que a distância emocional ou o rompimento. Além disso, esses indivíduos podem ter uma visão negativa de si mesmos, sentindo-se indignos de amor, o que pode levar a uma “justificação” do abuso.

O fortalecimento do apego seguro como ferramenta de intervenção

O estudo também investigou a eficácia de uma técnica chamada “security priming”, que envolve a ativação de um modelo de apego seguro. A segunda parte da pesquisa demonstrou que essa técnica é eficaz na redução da disposição de permanecer em um relacionamento abusivo, especialmente em participantes com altos níveis de apego ansioso.

O security priming pode alterar a ansiedade do apego e as percepções do indivíduo sobre si mesmo e os relacionamentos, e é uma ferramenta potencialmente poderosa para inclusão em intervenções contra a vitimização por VPI. Ao evocar sentimentos de ser valorizado, amado e seguro, o security priming pode capacitar as vítimas (ou potenciais vítimas) a rejeitar um relacionamento abusivo.

Embora o estudo tenha limitações, como o uso de um cenário hipotético e uma amostra não-clínica, os resultados sugerem que as orientações de apego da vítima são fatores importantes que podem contribuir para a continuidade de um relacionamento abusivo. A inclusão de fatores relacionados à vítima, como o apego ansioso, em ferramentas de avaliação de risco pode melhorar a previsão da revitimização.

Referência:

KURAL, Ayşe I.; KOVACS, Monika. The role of anxious attachment in the continuation of abusive relationships: The potential for strengthening a secure attachment schema as a tool of empowerment. Acta Psychologica, v. 225, p. 103537, 2022.

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