A disseminação massiva dos dispositivos de áudio individuais, acelerada pelas transformações nas metodologias de ensino no cenário pós-pandemia da COVID-19, estabeleceu um novo paradigma de exposição acústica contínua entre estudantes do ensino superior. No ecossistema acadêmico das ciências da saúde, a utilização prolongada de fones de ouvido para o acompanhamento de aulas virtuais e atividades recreativas passou a constituir um fator de risco subclínico para o sistema auditivo. A exposição cumulativa a níveis de pressão sonora elevados induz microtraumas nas células ciliadas da cóclea, culminando no desenvolvimento progressivo da perda auditiva neurossensorial (PANS).
A análise do perfil epidemiológico de 250 estudantes das áreas de Medicina (MBBS), Farmácia e Enfermagem revela uma prevalência substancial de hábitos auditivos de risco: 84,0% dos indivíduos relataram o uso regular de dispositivos de áudio. Os transdutores intra-articulares (do tipo earbuds) sobressaíram-se como a escolha majoritária (43,3%), com expressiva preferência entre os discentes de Medicina (47,1%), enquanto os estudantes de Enfermagem apresentaram maior adesão aos fones com fio (47,9%), revelando uma heterogeneidade estatisticamente significativa no padrão de consumo por curso ($x^2 = 40,88; P < 0,001$). Sob a perspectiva da dosimetria acústica informal, 49,0% dos usuários mantêm o volume entre 50% e 80% da capacidade máxima do dispositivo, e 3,4% excedem o limiar de 80%. O tempo de escuta diário superou as quatro horas em 15,7% da amostra global, atingindo proporções superiores no grupo da Medicina em decorrência da alta exigência acadêmica.
A sintomatologia associada refletiu de forma direta a intensidade e a duração do estímulo sonoro. Manifestações clínicas extrasensoriais e otológicas foram notificadas com frequência, sobressaindo-se a cefaleia (24,8%), o lacrimejamento (21,2%), a intolerância a sons amplificados (14,8%) e a otalgia (14,4%), além de tontura, zumbido e dificuldade na discriminação da fala. Observou-se um nítido efeito dose-resposta, no qual 100% dos indivíduos expostos a volumes superiores a 80% por mais de quatro horas diárias apresentaram múltiplos sintomas. Em contrapartida, os indivíduos mantidos sob o mesmo período de exposição, porém com volumes abaixo de 50%, relataram sintomas em apenas cerca de um quinto dos casos, demonstrando que a regulação da intensidade sonora exerce um papel protetor mais determinante do que a simples redução do tempo de escuta.
A avaliação audiológica confirmatória, realizada por meio de audiometria tonal liminar após 24 horas de repouso acústico, identificou a presença de PANS em 3,6% da população estudada (IC 95%: 1,9%–6,7%). Dentre os casos diagnosticados, 77,8% apresentaram alteração de grau leve e 22,2% de grau moderado. O achado patognomônico de dano induzido por ruído — caracterizado pelo entalhe audiométrico nas frequências de 4 a 6 kHz — esteve presente em 8 dos 9 alunos acometidos, dos quais mais da metade (55,6%) pertenciam ao curso de Medicina.
Esses dados confirmam que a exposição crônica a níveis sonoros inadequados por meio de dispositivos de áudio individuais promove lesões neurossensoriais precoces e muitas vezes irreversíveis. Sendo assim, torna-se imperativo implementar programas de conservação auditiva no ambiente acadêmico, englobando a triagem audiométrica periódica, ações educativas sobre o uso seguro de tecnologias de áudio e a adoção de limitadores automáticos de volume.
KAUR, Gursimrat et al. Use of Headphones and Its Impact on Hearing: A Cross-Sectional Survey of Medical, Nursing, and Pharmacy Students. Cureus, v. 17, n. 11, e96900, p. 1-10, 15 nov. 2025.